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Os dois serão uma só carne

Imagem Henry Moore | © The Henry Moore Foundation

Os dois serão uma só carne

O início de uma Bíblia da família, mais do que para a família, está na primeira página do Génesis, que abre a Escritura: é o capítulo 1, de origem mais recente do que outros capítulos, elaborado talvez no séc. VI a.C., durante o exílio dos judeus na Babilónia. Foi lá que algumas escolas sacerdotais delinearam a história da salvação que estava atrás de si, partindo precisamente do ato criativo de Deus. No vértice da criação disposta ao longo da semana litúrgica, e assim simbolicamente distribuída por sete dias, estava o casal humano.

Atente-se: não o masculino, mas o homem e a mulher, como se lê num versículo fundamental, que apresenta a «imagem» de Deus na Terra, a sua única e autêntica escultura vivente: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; ele os criou homem e mulher» (Génesis 1, 27). É evidente o paralelismo que domina a frase segundo o estilo semita: à «imagem de Deus» corresponde «homem e mulher». Deus revela-se a nós na fecundidade do amor do casal humano bissexual que reflete, através das gerações, a sua semelhança com o Criador, de quem provêm as diferentes criaturas.

Para a Bíblia, então, o reflexo divino que está em nós não é tanto a alma ou a espiritualidade ou a vontade ou a liberdade, elementos todavia relevantes na continuação dos textos sagrados. Não é também a estatura ereta, como afirmavam alguns autores do passado. A humanidade espelha o seu Criador dando origem à família através do casal do pai e da mãe. Como veremos proximamente, uma outra página bíblica analisará posteriormente esta raiz primária da família.

Por agora, detenhamo-nos aqui e recordemos que aquela “escola (ou melhor, tradição) sacerdotal”, autora da secção inicial da Sagrada Escritura, optou por traçar a história da salvação no seu desenvolvimento histórico recorrendo à genealogia. No Génesis encontramos muitas, nos capítulos 5 e 10: é uma maneira de mostrar que através do fio das gerações passa também a secreta e eficaz presença de Deus. Elas continuam a refletir o amor divino pelas suas criaturas. A família é, assim, um sinal proeminente da bênção e da salvação oferecida pelo Senhor às suas criaturas.

Prosseguindo a leitura da Bíblia, abre-se diante de nós outra página grandiosa, a dos capítulos 2 e 3 do Génesis, que surgem como um díptico: luminosa é a primeira tábua do capítulo 2, tenebrosa e dramática a segunda (cap. 3). Em síntese, o projeto divino que compreendia a harmonia de três relações – com Deus, com o mundo, com o próximo – é ferido pela liberdade humana, que optando por uma via alternativa, aliena-se de Deus, devasta a natureza e exerce violência sobre o semelhante.

Por agora permaneceremos no primeiro quadro positivo, e em particular na relação “horizontal” entre o homem e a mulher, raiz da família. Esta deve ser, como diz o texto hebraico, uma relação entre iguais: o homem procura na mulher um «auxílio», “kenegdô”, literalmente uma pessoa que «está defronte de si», uma aliada com quem está «defronte», olhos nos olhos.

Como escreve o teólogo Gerard Rossé, «o aliado está defronte do companheiro numa recíproca relação de amor na igualdade, uma relação de igualdade que supõe o respeito da alteridade». Mesmo o simbolismo da «costela», lido muitas vezes como sinal de submissão e inferioridade da mulher, na verdade procede precisamente da mesma linha de paridade, como é evidente no primeiro canto de amor da humanidade: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Génesis 2, 23). A costela – que, entre outros, numa língua do antigo Próximo Oriente, o sumério, se indica com o termo “ti”, usado também para designar a “vida” – torna-se, assim, o símbolo da base carnal comum, inclusive na dualidade sexual.

Emblemática é a frase que se segue: a mulher chamar-se-á “’isshah”, “mulher”, pelo seu nexo com “’ish”, “homem”. Em hebraico temos uma base terminológica comum, uma para o masculino, “’ish”, outra para o feminino, “’isshah”. E os dois, unindo-se no ato sexual que exprime a união de amor, tornam-se «uma só carne» (Génesis 2, 24). Esta locução, segundo alguns estudiosos, além de evocar o ato conjugal, sugeriria também uma referência ao filho, que geneticamente participa precisamente dos caracteres de ambos os pais que nele se tornam «uma só carne», uma única realidade consistente. Entra, assim, em cena a família na sua plenitude de pais e filhos.

Concluímos com um belo apelo do Talmude, a grande recolha das tradições religiosas judaicas: «Tende muito cuidado ao fazer chorar uma mulher, porque Deus conta as suas lágrimas! A mulher saiu da costela do homem, não dos pés para que fosse pisada, nem da cabeça para ser superior, mas do lado para ser igual, um pouco abaixo do braço para ser protegida, e do lado do coração para ser amada».

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
In "Famiglia Cristiana"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.12.2014

 

 
Imagem Henry Moore | © The Henry Moore Foundation
Para a Bíblia, o reflexo divino que está em nós não é tanto a alma ou a espiritualidade ou a vontade ou a liberdade, elementos todavia relevantes na continuação dos textos sagrados. Não é também a estatura ereta, como afirmavam alguns autores do passado
Os dois, unindo-se no ato sexual que exprime a união de amor, tornam-se «uma só carne» (Génesis 2, 24). Esta locução, segundo alguns estudiosos, além de evocar o ato conjugal, sugeriria também uma referência ao filho, que geneticamente participa precisamente dos caracteres de ambos os pais que nele se tornam «uma só carne»
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