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Oração: fidelidade, disciplina, combate

Oração: fidelidade, disciplina, combate

Imagem "O Angelus" (det.) | Jean-Francois Millet | 1857-1859 | Museu de Orsay, Paris, França

Uma das orações que a Igreja propõe para a Missa pede a Deus que «encontremos a nossa alegria na nossa fidelidade, pois é uma felicidade perdurável e profunda servir constantemente o Criador de todo o bem». A nossa alegria e a nossa felicidade é servir o Senhor na fidelidade: eis um belo programa para a vida de oração. Muitas vezes, com efeito, aqueles que desejam atribuir à oração um lugar mais importante na sua vida, não o fazem porque julgam ter de realizar proezas, de lhe consagrar várias horas por dia e de entrar em êxtase uma vez por semana... Constatando que a realidade da sua vida não corresponde a esse sonho, concluem que a oração não é tudo para eles.

O fundamento da nossa fidelidade na oração é a humildade. Nós poderemos servir Deus fielmente se escolhermos uma forma de o servir que seja realista, compatível com aquilo que somos, com o nosso modo de vida. É mais fecundo mantermo-nos dez minutos por dia em oração, durante dez anos, do que sonhar que se poderiam fazer três horas por dia e desesperar por nunca o conseguir. Há qualquer coisa de humilhante em empenharmo-nos em dar dez minutos por dia a Deus e em constatar que nem sempre o conseguimos fazer. O combate espiritual consistirá, então, em entregarmo-nos a isso, de forma incansável, sem nos lamentarmos pelos dias ou semanas em que tínhamos abandonado o ritmo.

 

Os meios da fidelidade

Para nos mantermos assim nessa fidelidade simples e quotidiana, precisamos de algumas orientações, de algumas regras de vida: regularidade em termos de lugar, de horário e da forma tomada pela oração. Ninguém pode perseverar dizendo que rezará quando tiver tempo. A fidelidade passa por uma certa disciplina, que hoje pode parecer contrária à autenticidade ou à espontaneidade. Contudo, estamos dispostos a aceitá-la quando se trata de um regime de emagrecimento ou de um treino desportivo. Tanto nesses esforços corporais como na vida espiritual, só se pode progredir à custa de um esforço regular quotidiano. Não são as experiências extraordinárias que fazem a vida de oração, mas a humilde fidelidade ao quotidiano, ao longo dos anos. Não há mistério algum, aqueles que chegam a rezar em cada dia são aqueles que seguem determinadas regras às quais se tentam manter fiéis. Essa disciplina não é uma imposição, dever-se-á aplicá-la com flexibilidade e reconhecer que as viagens, a doença ou os imprevistos da vida vêm por vezes introduzir variações na mesma. O mais curioso é que a nossa fidelidade depende tanto da nossa disciplina como da nossa capacidade para permanecermos flexíveis e adaptáveis. Se impusermos a nós próprios uma disciplina de ferro, mais cedo ou mais tarde as circunstâncias farão com que mandemos tudo passear. Se imaginamos poder adaptarmo-nos sempre às circunstâncias, não iremos muito longe. É o equilíbrio entre disciplina e adaptação que nos permite perseverar ao longo do tempo.



Pouco a pouco, pequenos detalhes vão mudando a vida, em conformidade com o tempo de oração que vai tomando o seu lugar. Não se trata de alterações profissionais clamorosas, de mudanças completamente radicais, mas de pequenas coisas que permitem viver melhor a oração, ou levar uma vida que seja mais coerente com a oração



Atribuirmos a nós mesmos uma regra permite objetivar um pouco a situação. Se nos empenharmos em dar um certo tempo a Deus em cada dia, para nos mantermos gratuitamente na sua presença, sejamos o mais fiéis possível a essa regra, quer sintamos o desejo de rezar quer não. Pouco a pouco, isso muda tudo, pois já não partirá de nós nem dos nossos estados de espírito, mas de Deus, em cuja presença nos mantemos. Dionísio, o Cartuxo, escrevia assim no século XV, com uma simplicidade libertadora: «Quando são horas de rezar, rezemos; de trabalhar, trabalhemos; de falar, falemos; de fazer silêncio, façamos silêncio...».

 

Disciplina da oração e mudança de vida

A obtenção daqueles meios que sustentam a fidelidade pode parecer uma disciplina que se limita à vida espiritual. A maior parte daqueles que os praticam fazem-no, num primeiro tempo, para favorecer a sua vida de oração. E por vezes ficam surpreendidos ao ver que, pouco a pouco, a instauração de um tempo de oração regular provoca mudanças mais profundas no seu estilo de vida.

Muitos preferem, por exemplo, consagrar à oração silenciosa um momento de manhã, antes de saírem para o trabalho. Não é muito complicado disponibilizar vinte ou vinte e cinco minutos a essa hora do dia. Para isso basta, pura e simplesmente, deitarem-se uma meia hora mais cedo. Também poderão decidir passar menos cinco minutos no duche, levantarem-se dez minutos mais cedo e demorar um pouco menos a tomar o pequeno-almoço, e assim conseguirão arranjar tempo para a oração. Ao princípio é um pouco acrobático, mas depois, passado pouco tempo, descobrem que adquiriram novos hábitos e que aquilo que parecia impossível se tornou quotidiano. Outros tomam consciência de que um pequeno reajustamento da sua casa lhes permitiria viver esse tempo sem incomodar o seu cônjuge nem serem incomodados pelas crianças que vão despertando. Em suma, pouco a pouco, pequenos detalhes vão mudando a vida, em conformidade com o tempo de oração que vai tomando o seu lugar. Não se trata de alterações profissionais clamorosas, de mudanças completamente radicais, mas de pequenas coisas que permitem viver melhor a oração, ou levar uma vida que seja mais coerente com a oração.



Para quem se empenha seriamente, também haverá momentos em que lhe parecerá andar errante num deserto e, apesar de todos os seus esforços, nada sentir em relação a Deus. Ele deve saber que essas provas não são poupadas a nenhum daqueles que tomam a oração a sério



O combate espiritual

Hoje em dia é particularmente importante insistir no facto de que a oração é um combate e continuará a sê-lo ao longo de toda a vida. Novo paradoxo, pois esse combate é muito real, embora seja o combate da doçura: não se trata de nos combatermos a nós próprios, de lutar contra nós, mas de «querer Deus», como dizia Eckhart ou Catarina de Sena. Esse combate é o do autoconhecimento, para nos sabermos aceitar com doçura, para aprendermos a recentrar-nos incansavelmente em Deus, quando tudo nos dispersa.

Mal se ouve falar em combate, pensa-se em tensões, em voluntarismo, em incapacidade de acolher o dom de Deus, etc. A oração, porém, é uma prova, tal como o combate de Jacob, pois ela é o frente a frente do ser humano com o seu Deus, da criatura pecadora com a santidade do seu criador. O ser humano não persevera facilmente nesse lugar! Ele aproveita todas as ocasiões para escapar à prova, pois a presença do seu Deus impõe-lhe a verdade sobre si próprio. No texto (...) sobre a meditação cristã, o cardeal Ratzinger evocava esse combate da oração:

«Para quem se empenha seriamente, também haverá momentos em que lhe parecerá andar errante num deserto e, apesar de todos os seus esforços, nada sentir em relação a Deus. Ele deve saber que essas provas não são poupadas a nenhum daqueles que tomam a oração a sério. Todavia, não deve identificar imediatamente essa experiência, comum a todos os cristãos que rezam, com a noite escura de tipo místico. De qualquer modo, durante esses períodos, a oração em que ele se esforçará por perseverar firmemente poderá dar-lhe a impressão de ter um carácter artificial, embora se trate, na realidade, de uma coisa completamente diferente: ela é, com efeito, precisamente nesse momento, expressão da própria fidelidade a Deus, na presença do qual quer permanecer mesmo quando não é recompensado por nenhuma consolação subjetiva. Nesses momentos aparentemente negativos, torna-se manifesto aquilo que a pessoa que reza procura real mente: se procura verdadeiramente Deus, que sempre a ultrapassa na sua infinita liberdade, ou se se procura a si própria».



Mais cedo ou mais tarde, levanta-se a questão: «Para quê?» A oração é verdadeiramente útil, não será uma perda de tempo em relação ao serviço eficaz dos pobres? Deus não pode salvar os homens sem a oração e, de qualquer modo, quando se vê como vai o mundo, poder-se-á verdadeiramente dizer que a oração apressa a vinda do Reino, se ele alguma vez chegar a vir?



Podemos tentar descrever as dificuldades e os obstáculos da oração a vários níveis. No mais exterior: a fadiga do corpo, a doença e a dor física podem ser situações humilhantes em que se descobre a própria incapacidade de rezar, pura e simplesmente quando se tem uma dor de dentes. No entanto, todas as condições físicas da oração podem constituir obstáculos, provas, lugares de combate pela fidelidade: o ambiente sonoro e as condições habitacionais, por exemplo. Associemos a tudo isso o que acontece quando o exterior invade o interior, quando os cuidados do mundo, por vezes legítimos, outras vezes desproporcionados, invadem todo o nosso ser, o nosso desejo, a nossa inteligência, a nossa vontade, e nós nos tornamos incapazes de rezar, a não ser balbuciando algumas fórmulas a meia voz. Enquanto não tivermos experimentado que a nossa fidelidade por vezes é uma fidelidade de animal, não saberemos nada acerca do combate espiritual.

Dificuldade mais subtil, mas igualmente – ou ainda mais – temível, é a que brota das questões que surgem sobre o sentido da oração. É a prova por excelência daqueles que dedicaram a sua vida à oração na vida monástica. Mais cedo ou mais tarde, levanta-se a questão: «Para quê?» A oração é verdadeiramente útil, não será uma perda de tempo em relação ao serviço eficaz dos pobres? Deus não pode salvar os homens sem a oração e, de qualquer modo, quando se vê como vai o mundo, poder-se-á verdadeiramente dizer que a oração apressa a vinda do Reino, se ele alguma vez chegar a vir? Esse pôr em causa radical estabelece por vezes um termo definitivo ou temporário para uma prática de oração, mesmo regular, quando os orantes não suportam o facto de não serem atendidos como esperavam.

Terceira ordem de dificuldade, o devido lugar da inteligência. Se esta ocupar um lugar excessivo na oração, esta deixa de ser oração, fica ressequida e morre na reflexão. Se estiver presente de forma insuficiente, a oração dá voltas em torno dos sentimentos, ou até das sensações, não se alimenta, ou alimenta-se apenas da imaginação do orante, acabando também por ficar sufocada.



Todas estas modalidades do combate, e mais algumas, marcam o itinerário espiritual daquele que ousa a aventura da oração. Nenhum método nos dispensa delas, a não ser o método de mudar constantemente o modo de oração, para evitar a prova da verdade. Cada um as atravessa à sua maneira, consciente do caminho que lhe falta percorrer



Podemos abordar esse problema com uma atenção demasiado tensa, demasiado inquieta, fixa no discernimento daquilo que se deve fazer, mesmo para Deus. Alimentando um desejo excessivo de ser um bom servidor, corremos o grande risco de nos ocuparmos muito de nós e pouco de Deus, corremos o risco de nunca desenvolvermos em nós a capacidade de abandono.

Por fim, podemos levantar a questão do combate, interrogando-nos sobre aquilo que contemplamos. A oração é sempre suscetível de deslizar para um monólogo em que nos contemplamos a nós mesmos, a nós mesmos enquanto rezamos, a nós mesmos nos nossos êxitos (como o fariseu do Evangelho), a nós mesmos no nosso pecado e nos nossos fracassos (como todos os escrupulosos). Mesmo quando a oração tenta contemplar Deus com sinceridade, ela deve, a partir de certo momento, consentir em não saber mais nada, em não procurar mais nada, mas em deixar-se apanhar por Aquele que era procurado.

Todas estas modalidades do combate, e mais algumas, marcam o itinerário espiritual daquele que ousa a aventura da oração. Nenhum método nos dispensa delas, a não ser o método de mudar constantemente o modo de oração, para evitar a prova da verdade. Cada um as atravessa à sua maneira, consciente do caminho que lhe falta percorrer. O diálogo com outros crentes, a caminhada na companhia de um grande autor espiritual cristão, podem ajudar-nos a fazer a nós próprios as perguntas certas, a identificar os impasses a que chegámos.

Após muitos anos de fidelidade quotidiana à oração silenciosa, certo homem escreveu, por ocasião dos seus oitenta anos:

«Finalmente! Encontrei a Via, pensava eu... Alguns anos mais tarde, percebi que estava no caminho que conduz à via. Passaram os anos, eu só estava na vereda que conduz ao caminho… Hoje em dia, de costas encurvadas, dou-te graças, Senhor, por me deixares descobrir a entrada da vereda...».



 

Jean-Marie Gueullette, OP
In "Pequeno tratado da oração silenciosa", ed. Paulinas
Publicado em 04.03.2017

 

 
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