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Oração e jejum para distinguir o pó do verdadeiro bem

Estamos na véspera de um dia de jejum pela paz, 23 de fevereiro, pedido pelo papa, e não nos damos conta do quão necessária é a oração e o jejum para ver melhor e superar os desafios atuais.

«As vitórias obtidas com a violência são falsas vitórias», declarou Francisco no Angelus de 4 de fevereiro. E se isto vale para a situação no Médio Oriente, vale também para a nossa Europa.

Dei de caras, por acaso, com a arte de Pawel Kuczynski, artista polaco que frequentou a academia de Poznan, cidade em que, no ano de 1399, ocorreu um extraordinário milagre eucarístico. De três Hóstias, violadas com um picador, começou a brotar sangue. O choque dos profanadores não acabou aqui: uma gota desse sangue atingiu no rosto uma jovem invisual que, imediatamente, recuperou a vista.

Desfigura-se o corpo de Cristo não apenas com atos sacrílegos infligidos ao Sacramento, mas também com ações ignominiosas que profanam o ser humano. Dos homicídios mais atrozes até à manipulação genética, a cada dia novos horrores alongam a lista.

Esses horrores nos olhos estavam presentes nas realizações gráficas do artista polaco, entre as quais esta: uma tranquila dona de casa bate um tapete, operação primaveril então muito comum. O tapete, porém, é um dólar e pó que se espalha dessa percussão é feita de armas, capacetes e facas.

E dou comigo a pensar que, para além da polémica antiamericana, o curioso tapete poderia ser facilmente substituído pelo euro ou pelo renminbi chinês ou pelo rublo russo, e pouco mudaria. Por muito que se sacudam as nossas problemáticas socioculturais, no substrato germina sempre o deus dinheiro, cujo culto passou a ser a verdadeira religião de Estado.



Podemos duvidar que rezando e jejuando se possa mudar o destino do mundo, mas fazê-lo servirá para ter as ideias mais claras e a discernir entre o pó o verdadeiro bem



Não tenhamos ilusões: por trás de certas acrobacias religiosas e impulsos reformistas, por trás dos fundamentalismos de diferentes matizes, está esta divindade que desde sempre acompanha o ser humano.

Como se pode, neste contexto, compreender a linguagem da oração e do jejum? Ou acolher o grito de alarme que sobe do coração dos verdadeiros crentes? Certamente não a mulher inofensiva de Kuczynski que se acostumou tanto à lógica televisiva do “Big brother” (onde a trapaça, o adultério e a eliminação são o mesmo motivo intrigante do espetáculo), que nem se dá conta da ameaça escondida dentro do pó da casa.

O resultado é claro: quando os equilíbrios de Mamona colapsarem numa bela guerra, com a sua bagagem de dor e morte, resolver-se-á e erguer-se-á a economia (de alguns) e lançar-se-ão muitos na pobreza mais total.

Outra obra de Kuczynski mostra um jovem que se aquece junto a um muro altíssimo. Apoiada no muro, uma escada permitir-lhe-ia evadir-se, passar por cima daquela barreira nada tranquilizadora. No entanto isso não acontece: para ter um pouco de calor, ele não hesita em cortar os degraus (faltam-lhe já uma dezena), queimando-os no fogo.

Graças a Pawel tudo me é muito óbvio: estamos a queimar o que nos salvará e cuidamos (o tapete da boa dona de casa) daquilo que depressa nos matará. Podemos duvidar que rezando e jejuando se possa mudar o destino do mundo, mas fazê-lo servirá para ter as ideias mais claras e a discernir entre o pó o verdadeiro bem.



Imagem Pawel Kuczynski | D.R.

 

Gloria Riva
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: Pawel Kuczynski | D.R.
Publicado em 23.02.2018

 

 
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