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Onde o mundo diz «perdido», Deus diz «reencontrado»; onde o mundo diz «acabado», Deus diz «renascido»: O filho pródigo e a misericórdia

Imagem Regresso do filho pródigo (det.) | Bartolome Esteban Murillo | 1670 | Museu do Prado, Madrid, Espanha

Onde o mundo diz «perdido», Deus diz «reencontrado»; onde o mundo diz «acabado», Deus diz «renascido»: O filho pródigo e a misericórdia

Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta (…). (Do Evangelho do 4.º Domingo da Quaresma, Lucas 15, 1-3.11-52)

Um pai tinha dois filhos. Este início, simplicíssimo e fabuloso, fascina-me sempre, como se alguma coisa de importante estivesse de novo para acontecer. Nenhuma página no mundo alcança como esta a estrutura mesma do nosso viver com Deus, connosco próprios, com os outros. O objetivo desta parábola é precisamente o de fazer-nos mudar a opinião que temos sobre Deus.

Eu quero bem ao pródigo. O pródigo é multidão e é história. História de humanidade ferida mas encaminhada. Feliz culpa que lhe permitiu conhecer mais profundamente o coração do Pai.

Vai embora, um dia, o mais jovem, em busca de si próprio, em busca de felicidade. A casa não lhe chega, pai e irmão não lhe satisfazem. E talvez a sua rebelião seja o prelúdio de uma declaração de amor. Quantas vezes os rebeldes, na realidade, são só buscadores de amor. Procura a felicidade nas coisas, mas apercebe-se de que as coisas têm um fundo e que o fundo das coisas é vazio. O pródigo encontra-se um dia a pastorear os porcos: o rebelde livre tornado servo, a disputar a comida com os animais.

Então volta a si, diz a parábola, chamado por um sonho de pão (a casa do meu pai tem o perfume do pão…). Há pessoas no mundo com tanta fome que para elas Deus não pode ter senão a forma de um pão (Gandhi).

Não regressa por amor, regressa pela fome. Não regressa porque se arrependeu, mas porque tem medo e sente a morte por perto.

Mas a Deus não importa o motivo pelo qual nos metemos a caminho. É suficiente que demos um primeiro passo. O homem caminha, Deus corre. O homem começa, Deus já chegou. Com efeito: o pai, vendo-o de longe, corre-lhe ao encontro…

E perdoa-o antes ainda que abra a boca, de um amor que vem primeiro que o arrependimento. O tempo da misericórdia é a antecipação.

Tinha preparado desculpas, o jovem, continuando a não compreender nada do seu pai. Nada de Deus, que perdoa não com um decreto mas com uma carícia (papa Francisco). Com um abraço, com uma festa. Não voltando a olhar para o passado, sem remexer naquilo que passou, mas criando e proclamando um futuro novo. Onde o mundo diz «perdido», Deus diz «reencontrado»; onde o mundo diz «acabado», Deus diz «renascido». E não há reprovações, remorsos, arrependimentos.

O Pai, por fim, sai para falar ao filho maior, às voltas com a infelicidade que deriva de um coração não sincero, um coração de servo e não de filho, e tenta explicar-se e fazer-se entender, e no fim não se sabe se conseguiu.

Um pai que não é justo, é mais: é amor, exclusivamente amor.

Então Deus é assim? Assim excessivo, assim tanto, assim exagerado? Sim, o Deus em que acreditamos é assim. Imensa revelação pela qual Jesus dará a sua vida.

 

Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.03.2016

 

 
Imagem Regresso do filho pródigo (det.) | Bartolome Esteban Murillo | 1670 | Museu do Prado, Madrid, Espanha
Tinha preparado desculpas, o jovem, continuando a não compreender nada do seu pai. Nada de Deus, que perdoa não com um decreto mas com uma carícia (papa Francisco). Com um abraço, com uma festa. Não voltando a olhar para o passado, sem remexer naquilo que passou, mas criando e proclamando um futuro novo
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