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«Onde estás?»

No adro da igreja as crianças ainda jogam «às escondidas». Ouço-as contar em tons determinados enquanto outras invadem apressadas os espaços improváveis. Aninham-se debaixo de uma mesa, na sombra de uma estante da biblioteca, por detrás de um arbusto ou em cima de uma árvore. A procura do outro torna-se tema de uma história que é repetidamente ensaiada nos intervalos, enquanto esperam por outra atividade. «Eu escondo-me para que me procures», dizem entre gargalhadas.

«Onde estás?» perguntou Deus surpreendido com a ausência. «Que fizeste?» O desencontro primeiro é justificado pela emergência de um sentimento penoso, até então desconhecido, o medo e a vergonha.

Por mais elaborados que sejam os esconderijos, eles são sempre provisórios. As imagens apressadamente enterradas em nós motivam um sentimento de culpa, perseguem-nos como fantasmas ainda por exorcizar. A pergunta «onde?» abre brechas no bunker da consciência e obriga-nos a reconhecer as razões de um mal-estar persistente e, ao mesmo tempo, motiva o processo de integração, pela assunção da responsabilidade do agir reprovável. Não é o reconhecimento do erro que desperta o medo e a vergonha. Pelo contrário, é a tentativa primária para nos livrarmos da culpa, transferindo-a para terceiros. É o desejo infantil de querermos permanecer imaculados em territórios enlameados.

Por isso, a pergunta primeira ressurge continuamente como as estações de um ano: «onde estás?». Ela obriga-nos, por exemplo, a ler os sinais dos tempos e a perceber se a melodia dominante é propícia à infração e ao afastamento do Criador. Alguns especialistas, num registo profético, assinalam os acordes perversos de uma cultura de entretenimento doentio que atenua a voz da consciência, a mesma que, em modo natural, funcionaria como um travão às más ações.... É uma espécie de analgésico que nos torna insensíveis e indiferentes. A «máquina de pensar os pensamentos», diria o psicanalista W. Bion, não funciona neste contexto. O homem fica refém dos impulsos. Não há motivo para culpa, nem razões para sentir vergonha. Amanhã, no entanto, seremos de novo invadidos pelas imagens antigas de uma ofensa ainda por expiar e, de novo, procuraremos o tal remédio, barato e aparentemente eficaz.

Amanhã, como ontem, sem a pergunta «onde estás?» e as suas variantes – «que caminho tens percorrido?», «que sementes lançaste à terra?» – levada a sério, o exercício de memória torna-se impossível, o tal exercício que favorece o aperfeiçoamento do agir moral e nos livra da repetição cíclica dos mesmos erros. A velha pergunta reaproxima a criatura do Criador...

Curiosamente, em contexto de situação extrema, a mesma interrogação surge na boca do homem debilitado: «onde estás?», repetiu-se incessantemente nos campos de concentração de Auschwitz. «Onde estás?», perguntaram os condenados surpreendidos com os olhos postos no céu. E Deus, o mesmo que tinha ficado sem resposta, parecia esconder-se.

Por vezes ouço a contagem decrescente, como no jogo de crianças. Sei que Ele nos procura e um dia nos há-de encontrar.


 

P. Nélio Pita, CM
Publicado em 08.06.2018

 

 
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