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"Ode marítima", de Álvaro de Campos, por Diogo Infante e João Gil

«Oh frio repentino da porta para o Mistério/ que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar!/ Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente/ A velha voz do marinheiro inglês Jim Barris com quem eu falava,/ Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim,/ das pequenas coisas de regaço de mãe e de fita de cabelo de irmã,/

Mas estupendamente vinda de além da aparência das coisas,/ A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca,/ Vinda de sobre e de dentro da solidão noturna dos mares,/ Chama por mim, chama por mim, chama por mim...»

Motivado pela beleza das palavras de Álvaro de Campos, o ator Diogo Infante propõe-se levar o público através da viagem interior descrita na "Ode Marítima".

O texto do heterónimo de Fernando Pessoa está a ser apresentado até 16 de março no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, com direção cénica de Natália Luiza e música original do compositor João Gil, ex guitarrista dos Trovante.

O projeto nasceu «há dois anos, através de um convite que me foi dirigido pelo Festival das Artes de Coimbra», recorda Diogo Infante ao "Ensaio geral", programa semanal de cultura da Renascença, acrescentando que a «experiência feliz» levou a propor o espetáculo aos teatros de São Luiz e S. João (Porto).

Diogo Infante é a «voz, o mensageiro» do texto, João Gil cria o «ambiente sonoro», enquanto Natália Luiza «é um olhar de fora».

«Sempre resisti à ideia de dizer poesia porque me incomodava o seu aspeto mais declamatório. Como ator que sou, preciso de sentir as coisas por dentro. Daí o desafio de tornar este texto meu, pelo que ele será dito à minha maneira. Não sei se os puritanos se irão ofender...», refere.

O cenário da "Ode marítima": «Amanhece. Um homem observa o porto. Assume o comando de um paquete que não chegou a entrar no cais. Começa uma viagem para dentro de si, percorrendo imaginariamente todos os comportamentos humanos e procurando “sentir tudo de todas as maneiras”. Nesta viagem - em que símbolos e sensações se confundem, soltando-se das amarras da razão – o poeta percorre o imaginário marítimo português. Sustenta na metáfora de fluxo e refluxo do movimento marinho a contradição violenta de um homem que tenta religar diferentes identidades. Transforma-se ele próprio no cais e no destino, dando corpo à viagem» (do texto de apresentação).

Em outubro de 2013, a editora Relógio D'Água publicou o poema de Álvaro de Campos, em que, como sublinha José Gil no posfácio, «exterior e interior são separados pela mesma “Distância” que vai do poeta no cais deserto ao navio que ele vê ao longe».

«É a distância entre a sensação e a coisa, entre a sensação como realidade interior e o paquete como realidade exterior. Ora, esta distância liga-se a uma sensação “primitiva”, como diz Pessoa, sensação que desempenha um papel essencial em toda a sua poesia: a sensação de mistério», aponta o pensador.

Na "Ode Marítima", continua José Gil, «o mistério é significado por toda a distância, tudo o que se separa, todo o movimento que cria uma separação», pelo que «analisar a sensação de mistério equivale a reduzir essa distância que suscita o mistério».

«Com efeito, todo o poema pode ser encarado nesta perspetiva: como vencer a Distância, ou seja, todas as distâncias de todas as naturezas que surgem, uma após outra (entre o paquete e o cais, entre eu-agora e eu-outrora, entre um cais e O Cais, etc.); mas também, e porque é esse o verdadeiro fundamento de toda a distância — como fazer desaparecer a oposição entre os dois pólos da sensação, o interior e o exterior.»

Realizado pela jornalista Maria João Costa, o programa "Ensaio geral" em que esta entrevista foi apresentada está disponível para ser ouvido na íntegra no site da Renascença.

Cartaz

 

Entrevista: Maria João Costa (Renascença)
Redação: SNPC/rjm
08.03.14

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Navios
 Willard Metcal

 

 

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