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O objetivo do diálogo? Avançar juntos

O objetivo do diálogo? Avançar juntos

Imagem Ellagrin/Bigstock.com

«Gostaria de escrever uma história da nostalgia do outro ao longo de toda a história humana.» É destas palavras do P. Ernesto Balducci que parto para refletir sobre "o outro como dom". No nosso modo habitual de pensar e de falar esta nostalgia está ausente, e recorremos demasiado apressadamente a duas categorias contrapostas, «nós» e «os outros». Mas é difícil definir as fronteiras entre estas duas entidades e, ainda mais, estabelecer com certeza quem pertence a uma ou à outra, em que medida e por quanto tempo. Quando justapomos os dois termos, na realidade empreendemos um percurso suscetível de infinitas variantes: podemos, com efeito, aventurarmo-nos para uma ponte lançada entre dois mundos, ou bater contra um muro que os separa, ou ainda encontrarmo-nos numa estrada que os coloca em comunicação. Podemos também descobrir a oportunidade de um cruzamento fecundo da insuprimível ligação que habita quer nós quer eles. Torna-se então evidente como para o ser humano a relação com os outros é uma das modalidades de relação - juntamente com aquela consigo próprio, com o cosmo e, para quem crê, com Deus - que lhe permite construir a própria identidade e viver.

Quem de nós nunca se perguntou como percorrer os caminhos do encontro, da relação com o outro, com cada outro, com cada rosto humano? Em primeiro lugar é preciso reconhecer no outro a sua singularidade, reconhecer a sua dignidade de ser humano, o valor único e irrepetível da sua vida, a sua liberdade, a sua diferença: é homem, mulher, criança, velho, crente, não crente, etc. É um ser humano como eu, e todavia diferente de mim, na sua irredutível alteridade: eu para ele (ou ela) e ele (ou ela) para mim. Teoricamente este reconhecimento é fácil, mas na realidade, precisamente porque a diferença desperta medo, deve ter-se em conta a existência de sentimentos hostis a vencer: em particular, há em nós uma atitude que repudia tudo o que está longínquo de nós pela cultura, moral, religião, estética ou costumes. Quando se olha o outro só através do prisma da sua cultura, então está-se facilmente sujeito à incompreensão e à intolerância. (...)



Escutar o outro não equivale portanto a informar-se sobre ele, mas significa abrir-se à narrativa que ele faz de si para chegar a compreender novamente a si próprio. E na escuta - sabemo-lo bem por experiência - é preciso renunciar aos preconceitos que nos habitam, é preciso lutar para os fazer calar dentro de nós e por vezes até na postura física com que estamos perante o outro



É preciso por isso exercitar-se a desejar receber do outro, considerando que os próprios modos de ser e pensar não são os únicos existentes, mas pode aceitar-se aprender, relativizando os próprios comportamentos. Há um saudável relativismo cultural que significa aprender a cultura do outro sem a medir com a própria: esta atitude é necessária numa relação de alteridade em que se deve tomar o risco de expor a própria identidade àquilo que ainda não se é... Se existem estas atitudes preliminares, então torna-se possível a escuta: escuta difícil mas essencial de uma presença, de um chamamento que exige de cada um de nós uma resposta, e por isso solicita a nossa responsabilidade. Nunca cessarei de o repetir: a escuta não é um momento passivo da comunicação, mas é um ato criativo que instaura uma confidência "com-fiança" entre os dois hóspedes, quem hospeda e quem é hospedado.

A escuta é um sim radical à existência do outro como tal; na escuta as respetivas diferenças contaminam-se, perdem o seu carácter absoluto, e aqueles que são limites ao encontro podem tornar-se recursos para o próprio encontro. Na escuta chega-se progressivamente à colocação de uma simples pergunta: na verdade, quem hospeda e quem é hospedado? Escutar o outro não equivale, portanto, a informar-se sobre ele, mas significa abrir-se à narrativa que ele faz de si para chegar a compreender novamente a si próprio. E na escuta - sabemo-lo bem por experiência - é preciso renunciar aos preconceitos que nos habitam, é preciso lutar para os fazer calar dentro de nós e por vezes até na postura física com que estamos perante o outro. Além disso, somos chamados a nomear e a enfrentar os medos que nos habitam quando entramos em relação com o outro, sem pensar tolamente que os podemos eliminar ou suprimir, porque de outra forma voltaríamos a eles com maior força. Quando nos introduzimos neste percurso de suspensão do juízo, eis que se apresta o essencial para olhar o outro com "sym-pátheia": esta é uma atitude que se alimenta de uma observação participativa, que aceita inclusive não compreender o outro, e todavia tenta exercitar-se no "sentir-com ele". Deste modo compreende-se que a verdade do outro tem a mesma legitimidade que a minha verdade. E atenção: isto não equivale a dizer que não há verdade ou que todas as verdades se equivalem. Não, cada um é legitimado a manifestar a própria verdade, cada um deve empenhar-se com humildade em confrontar-se e receber a verdade que sempre precede e excede todos, ainda que na convicção de que a própria verdade é aquela sobre a qual pode ser fundada e encontra sentido uma vida.



«A reconciliação consiste num intercâmbio tal que cada um não é ele próprio senão enquanto se refere ao outro. Esta condição antropológica plena é o lugar em que se retalham as positivas aventuras da nossa vida, certamente parciais, mas que fazem sonhar um mundo diferente deste»



Esta "simpatia" decide também da empatia, que não é o impulso do coração que se lança para o outro, mas a capacidade de se colocar no lugar do outro, de o compreender a partir do seu interior: é a manifestação da "humanitas" do hóspede e do hospedeiro, é humanidade partilhada. Através destas etapas - nunca esquemáticas, mas que exigem sempre a renovação no face a face, mediante uma inteligência criativa e um amor inteligente - pode chegar-se ao diálogo, autêntica experiência de intercompreensão. "Dia-lógos": palavra que se deixa atravessar por uma palavra outra; entrelaçamento de linguagens, de sentidos, de culturas, de éticas; caminho de conversão e de comunhão; via eficaz contra o preconceito e, consequentemente, contra a violência que nasce de uma agressividade não verbalizada... É o diálogo que consente passar não só através da expressão de identidade e diferença, mas também através de uma partilha dos valores do outro, não para os fazer próprios mas para os compreender. Dialogar não é anular as diferenças e aceitar as convergências, mas é fazer viver as diferenças ao mesmo título das convergências: o diálogo não tem como fim o consenso, mas um progresso recíproco, um avançar em conjunto. Assim, no diálogo acontece a contaminação das fronteiras, acontecem as travessias nos territórios desconhecidos, abrem-se estradas inexploradas.

São as estradas que percorreu Jesus de Nazaré e que deixou aos seus discípulos como pistas a seguir, fazendo-se mestre com a sua arte da relação, a sua vontade de escutar e acolher quantos encontrava no seu caminho, até se deixar construir, edificar por essas relações. Podemos entender também neste sentido algumas palavras do P. Balducci numa das suas últimas homilias: «A reconciliação consiste num intercâmbio tal que cada um não é ele próprio senão enquanto se refere ao outro. Esta condição antropológica plena é o lugar em que se retalham as positivas aventuras da nossa vida, certamente parciais, mas que fazem sonhar um mundo diferente deste». Um mundo em que possa finalmente encontrar cumprimento o desejo de Jesus, que é a fonte e o cume de cada discurso sobre o outro como dom: «Vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8).



 

Enzo Bianchi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 04.05.2017

 

 
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