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"O visitador": Jornal do Vaticano destaca nova investigação sobre missionário português na Ásia

Imagem Capa (det.) | D.R.

"O visitador": Jornal do Vaticano destaca nova investigação sobre missionário português na Ásia

No final de outubro deste ano um veículo espacial comercial projetado pela Virgin Galactic caiu durante um voo de teste. A ideia do projeto é oferecer a centenas de passageiros, ao preço de duzentos mil dólares por lugar, a excecional experiência de observar a Terra a partir de mais de 100 km de altitude. No incidente, só um dos dois pilotos se salvou.

"Mutatis mutandis" é este o cenário que se encontrava diante de quem queria empreender uma viagem da Europa à Ásia, uma viagem cujo coeficiente de dificuldade é comparável às atuais tentativas de chegar ao espaço.

O sucesso do feito marítimo transcontinental era considerado então uma incógnita tal, que alguns navios chegavam até a ser rebatizados de "o túmulo", devido ao número de mortos que, entre tripulantes e passageiros, ocorriam nessas embarcações. Doenças, piratas, tribos indígenas e tempestades eram os maiores obstáculos que estes pioneiros do "globetrotting" tinham de superar ao tentarem chegar a países que se encontravam a Oriente.

Tendo em conta estas premissas, é claro que possuir uma excelente condição física era um fator fundamental: quanto mais jovem e saudável se fosse, maiores eram as probabilidades de concluir a viagem. E, todavia, foi precisamente nessa época, em que a expetativa de vida não ultrapassava os 40 anos, que o jesuíta português André Palmeiro partiu para a Ásia com a veneranda idade de 49 anos. Idade que se naquele tempo era já avançada para empreender uma viagem de poucas centenas de quilómetros de uma cidade para outra, imagine-se o que se diria para uma viagem marítima que atravessaria meio globo.

A editora Belknap Press publicou recentemente, com o título "The visitor - André Palmeiro and the Jesuits in Asia" ("O visitador - André Palmeiro e os Jesuítas na Ásia") (528 pp., 36,00 €), uma excelente e detalhada biografia do pouco conhecido mas notável jesuíta, escrita por Liam Matthew Brockey.

Mas quem era Palmeiro? Segundo Brockey, um homem manso, excelente pregador e administrador prudente. Talvez tenha sido precisamente a sua personalidade sóbria a torná-lo o candidato ideal para a delicada missão na Ásia de uma das congregações mais jovens e ativas naquele tempo, a Companhia de Jesus.

A importante tarefa confiada a Palmeiro consistia em avaliar o estado moral, espiritual e material da missão jesuíta no Oriente. Em especial devia analisar as recentes "inovações" - a denominada adaptação cultural - das políticas jesuítas na Índia e China. Em algumas regiões da Ásia era necessária a visita regular de um visitador (uma espécie de supervisor): a Companhia de Jesus tinha uma organização altamente centralizada, o que significa dizer que todas as decisões importantes eram tomadas em Roma, e daí deviam ser transmitidas a todos os outros locais onde os jesuítas operavam.

Outro motivo que tornava necessário o envio de um visitador estava no grande crescimento da Companhia nos últimos anos do século XVI: dos poucos membros que formaram o núcleo inicial da congregação, passou-se, no final de Quinhentos, a mais de dez mil. Para prevenir o perigo de a expansão conduzir à perda da identidade original da Companhia, era necessário que o espírito codificado nas suas Constituições, que remontam à metade do século XVI, fosse conservado. Inspecionar a ação pastoral, agir como pacificador nas várias disputas entre as diferentes fações, ou até entre as diversas ordens missionárias: era esta a missão confiada a André Palmeiro.

Para cumprir este objetivo, Palmeiro devia entrevistar os muitos membros da Companhia e avaliar, caso a caso, se as normas teológicas e rituais estavam a ser respeitadas. Com efeito, em algumas situações estas normas eram totalmente ignoradas. Lê-se, por exemplo, do caso de Roberto Nobili, na Índia, que as suas «táticas missionárias» tinham-no convencido de que a melhor maneira de desenvolver a sua missão era a de assumir a parte de um asceta indígena. Tendo sabido desta prática pouco ortodoxa, Palmeiro atravessou a Índia meridional para inspecionar a missão de Nobili - uma viagem dentro da viagem -, fazendo interessantes observações sobre as singulares convenções do lugar.

No interior da igreja que Nobili tinha construído na cidade de Madurai (hoje capital do estado de Tamil Nadu) tinham sido reservados espaços para os crentes das castas indianas menos altas; os crentes das castas mais elevadas eram colocados mais próximos do altar. Descobre-se depois a impressão de Palmeiro ao tomar consciência do regime alimentar simples de Nobili e do outro seu companheiro, o jesuíta Antonio Vico, composto por um pequeno prato de arroz com vegetais cozidos, onde a única concessão era um copo de leite de vaca.

Entre as inspeções nas várias missões asiáticas, Palmeiro residia na cidade de Macau, de onde supervisionava os jesuítas de toda a Ásia Oriental, e onde tomou uma das decisões que se revelaram mais importantes para os objetivos da futura difusão do cristianismo nas escassamente exploradas regiões do sudeste asiático: criação da missão no Cambodja e Vietname.

Este objetivo, porém, só podia ser alcançado tomando uma decisão drástica e arriscada: transferir enormes recursos económicos, e muitos homens, de uma missão que estava a enfraquecer - a japonesa, devido à brutal repressão do regime Tokugawa - para uma que, ao contrário, parecia prometer novos frutos.

Palmeiro adoeceu gravemente durante a Semana Santa de 1635, precisamente quando do Japão chegavam mais notícias desencorajantes sobre a provável apostasia de um compatriota, Cristóvão Ferreira, sobre cuja vida se inspiraram mais tarde obras literárias e cinematográficas de sucesso.

De acordo com Manuel Dias, que sucedeu a André Palmeiro, este morreu [em 1635] «da mesma maneira como viveu: como uma pessoa que desejou ardentemente a vida além da morte, daquela maneira que nós identificamos como a morte dos justos».

«Num tempo em que poucas pessoas se aventuravam para lá do seu local de nascimento», a André Palmeiro, «com o título de "Padre Visitador"», foi «confiada a intimidante tarefa de inspecionar missões jesuítas desde Moçambique ao Japão», refere a nota de apresentação do volume, que testemunha os contactos frutuosos, mas também a «violenta colisão», entre Ocidente e Oriente.

Além da Índia, o religioso «também coordenou missões junto dos imperadores mongóis e cristãos etíopes, bem como as primeiras explorações do interior da África Oriental e nos planaltos do Tibete».

Depois de viajar «milhares de quilómetros até Pequim», tornando-se um dos primeiros estrangeiros na China, Palmeiro morreu devido à ansiedade causada pela possibilidade de os últimos jesuítas no Japão «apostatarem sob tortura», assinala a nota.

 

Cristian Martini Grimaldi
In "L'Osservatore Romano", 21.12.2014
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 21.12.2014

 

 

 
Imagem Capa | D.R.
A importante tarefa confiada a Palmeiro consistia em avaliar o estado moral, espiritual e material da missão jesuíta no Oriente. Em especial devia analisar as recentes "inovações" - a denominada adaptação cultural - das políticas jesuítas na Índia e China
Palmeiro devia entrevistar os muitos membros da Companhia e avaliar, caso a caso, se as normas teológicas e rituais estavam a ser respeitadas. Com efeito, em algumas situações estas normas eram totalmente ignoradas
Palmeiro adoeceu gravemente durante a Semana Santa de 1635, precisamente quando do Japão chegavam mais notícias desencorajantes sobre a provável apostasia de um compatriota, Cristóvão Ferreira, sobre cuja vida se inspiraram mais tarde obras literárias e cinematográficas de sucesso
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