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O Teatro, a Bíblia e a Igreja

Imagem D.R.

O Teatro, a Bíblia e a Igreja

A Igreja nem sempre condenou o Teatro, tendo mesmo dado um santo patrono aos atores, ainda que ele faça parte da lenda. Festejado a 25 de agosto, S. Gens é na realidade um mártir cristão de Arles, decapitado nas margens do Ródano por se ter recusado registar, enquanto chanceler imperial, um decreto anticristão de Maximiano. Sobrepôs-se a esta figura histórica (martirizada em torno de 303) a lenda de um comediante, Gens, ator romano que se teria convertido aquando de uma representação satírica pública do Batismo (o episódio foi atribuído a outros mártires cristãos).

Lembremos que a Bíblia comporta traços de dramaturgia, pelo menos ao nível literário. Assim, o Cântico dos Cânticos coloca em cena um bem-amado e uma bem-amada que dialogam e agem, com a intervenção de um coro, por diversas vezes na narrativa. Encontra-se algo de semelhante no livro de Job: depois que a cortina cai sobre o prólogo, começa um diálogo entre o protagonista e três amigos (em três atos); depois ocorre a irrupção inesperada de um quarto amigo que prepara o ato final onde o próprio Deus intervém para selar o drama. Horace M. Kallen não hesitou em comparar esta obra bíblica a uma tragédia de Eurípedes, e John F. Genung fala explicitamente de uma representação trágica e heróica.

Todavia, os Padres da Igreja criticavam o Teatro porque era então o apanágio e a expressão da cultura pagã: tratava-se, por isso, de uma crítica pastoral e apologética. A estrutura dramática enquanto tal era toda uma outra questão. «Cada drama inventado reflete um drama que não se inventa», escreveu o católico francês François Mauriac no seu "Journal", enquanto o poeta alemão Novalis definia o Teatro, nos "Fragmentos", como «a reflexão do homem sobre ele próprio». Não se trata de uma simples ficção: é uma caracterização da realidade que se torna assim uma mensagem, uma interpretação, uma "performance".

Há outro elemento mais radical: o rito religioso deixa aparecer um aspeto "dramático" e o termo "drama" tem aqui todo o seu valor de ação poderosa e performativa. A palavra e o gesto representam e atuam a verdade que eles querem comunicar. Neste sentido, no cristianismo o sacramento é particularmente emblemático: trata-se de uma representação ritual eficaz da salvação.

Aquando da narração da Ceia de Cristo, por exemplo, o pão e o vinho da refeição, as palavras do padre transformam a "recitação" em acontecimento, a memória narrativa em presente, a evocação em Eucaristia. O "zikkarôn", o memorial da Páscoa judaica, tinha já esta finalidade. Através da sucessão ritual "dramática" do cordeiro imolado não se comemorava apenas o acontecimento passado do êxodo de Israel desde o Egito e a libertação que dele decorre: tornava-se viva, presente, operante, salvífica e libertadora. Com estas considerações, o drama, no sentido mais nobre, não é apenas um sinal e uma prefiguração: com efeito, pertence ao rito, à liturgia, ao sagrado.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "150 questions à la foi"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 26.07.2016

 

 
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O rito religioso deixa aparecer um aspeto "dramático" e o termo "drama" tem aqui todo o seu valor de ação poderosa e performativa. A palavra e o gesto representam e atuam a verdade que eles querem comunicar. Neste sentido, no cristianismo o sacramento é particularmente emblemático: trata-se de uma representação ritual eficaz da salvação
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