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O talento de cultivar e proteger a felicidade dos outros: Meditação sobre o Evangelho de Domingo

Imagem D.R.

O talento de cultivar e proteger a felicidade dos outros: Meditação sobre o Evangelho de Domingo

Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. (…)
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco (…).
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: «Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence». (Mateus 25, 14-30, Evangelho de 16.11.2014)

 

Será como um homem que, partindo para uma viagem, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens. Deus entrega-nos alguma coisa e depois sai de cena. Entrega-nos o mundo, com poucas instruções de uso e muita liberdade. Um rosto de Deus que reencontramos em muitas parábolas: tem confiança em nós, eleva-nos a cocriadores, fá-lo com um dom e uma regra, a de Adão no Éden: «cultiva e protege» o jardim onde foste colocado, quer dizer, ama e multiplica a vida, sacerdote daquela que é a liturgia primordial do mundo. Nenhum homem existe sem jardim porque é verdadeiro para cada um dos seus filhos o que foi verdade para Adão.

<p>Os talentos dados aos servos pelo proprietário generoso e que confia, além de representar os dons intelectuais e do coração, a beleza interior, de que ninguém é privado, de que a luz do corpo é apenas um reflexo, anunciam que cada criatura no meu caminho é um talento de Deus para mim, tesouro deposto no meu campo. E eu sou o Adão cultivador e guardador do seu florescimento e felicidade. O Evangelho está cheio de uma teologia simples, a teologia da semente, do fermento, dos inícios que devem florir. A nós cabe o trabalho paciente e inteligente de quem cuida da sementeira. «A essência do amor não está naquilo que é comum, está em induzir o outro a tornar-se alguma coisa, a tornar-se o máximo que as forças lhe consentem» (Rilke).

Chega o momento de prestar contas, e acumulam-se as surpresas. A primeira: aquele que entrega dez talentos não é melhor do que aquele que entrega apenas quatro. Não há uma tirania ou um capitalismo da quantidade, porque os balanços de Deus não são quantitativos, mas qualitativos. Apenas é precisa sinceridade do coração e fidelidade a si mesmo para dar à vida o melhor do que podemos dar.

A segunda surpresa: Deus não é um dono exigente que quer de volta os seus talentos com os juros. Os talentos continuam com os servos, ou melhor, são duplicados: foste fiel no pouco, dar-te-ei autoridade sobre muito. Os servos vão para restituir, e Deus relança o desafio. Este acrescento de vida é o Evangelho, esta espiral de amor crescente é a energia de Deus incarnada em tudo o que vive.

Apresentou-se, por fim, aquele que tinha recebido apenas um talento, e disse: tive medo. A parábola dos talentos é um convite a não ter medo dos desafios da vida, porque o medo paralisa, torna-nos perdedores: quantas vezes renunciámos a vencer só pelo medo de acabar derrotados! O Evangelho é mestre da sabedoria do viver, da mais humana pedagogia que se funda em três regras: não ter medo, não fazer medo, libertar do medo. E sobretudo daquele que é o medo dos medos: o medo de Deus.

 

P. Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad./edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 15.11.2014

 

 
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Não há uma tirania ou um capitalismo da quantidade, porque os balanços de Deus não são quantitativos, mas qualitativos
A parábola dos talentos é um convite a não ter medo dos desafios da vida, porque o medo paralisa, torna-nos perdedores: quantas vezes renunciámos a vencer só pelo medo de acabar derrotados
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