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O sim de Maria e a salvação do mundo

Imagem Fra Angelico | Santa Maria delle Grazie, San Giovanni Valdarno

O sim de Maria e a salvação do mundo

Num mundo cultural marcado pela perversão da dialética em instrumento fáustico de posse mental de uma realidade ontologicamente desacreditada e em que, por causa de interpretação errónea quer do papel dialético geral da negação quer da filosofia de Nietzsche, a afirmação do «não» passou a ter primazia, o «sim» da Virgem merece reflexão, breve que seja.

É geral a interpretação mágica quer da Criação quer da própria Incarnação e subsequente ação genesíaco-redentora de Cristo. Mas a tradição que põe estes dois momentos cairóticos no âmago do ser mundano é e não pode deixar de ser uma tradição de necessárias mediações. O Deus criador não é um Deus ocioso, que cria sem ação, mas Alguém que age absolutamente através do «Logos», transformando este na carne do mundo. O mundo é, assim, a presença incarnada, materializada, se se quiser, do «Logos». A diferença entre o absoluto nada mundano de antes da Criação e o Mundo é o «Logos», mediador da ação criadora de Deus, a ação criadora operada por Deus em ato.

O Mundo é, assim, fruto de um supremo Sim, afirmação literalmente lógica de Deus que é imediatamente criadora de ser. Mas esta imediatidade da ação lógica é e não pode não ser, a mediação do «Logos». É a mediação do «Logos» que imediatamente cria o Mundo. O Mundo é um sim feito carne. É o primeiro Sim, que instala o absoluto da relação entre o criador e a criatura, isso a que chamamos «Providência», realidade não distante, mas transcendentalmente presente em todo o criado.

O Mundo, criado como possibilidade de bem, é, concomitantemente, possibilidade de não-bem, de mal. Só assim pode ser autónomo no seio da relação criadora. Bem e mal são as baias metafísicas para o próprio Mundo como mediação de si próprio. É esta a sua autonomia, absoluta na relação com Deus.

O Mundo, podendo ser sempre bom, nem sempre o foi. O Sim ao bem nem sempre imperou. O não ao bem possível introduziu mal no mundo. Que fazer com o Mundo? O destino de Sodoma e Gomorra é uma possibilidade. A possibilidade segundo o «logos» fraco dos seres humanos, o do «não». Mas, e segundo o «Logos» forte de Deus, o do «sim», que fazer?

Ser digno do Criador. E, para tal, há que respeitar o desígnio de possibilidade de bem criador, mas também criatural: Deus não fez o Mundo para o condenar, mas para que o Mundo fosse bom como Deus é bom, na relação, ou seja, analogicamente.

Então, há que procurar salvar o Mundo. A tentativa puramente lógica operada com e em Job, constructo teórico, falhou: poucos entenderam e Deus não quer salvar apenas poucos, mas todos. Só assim a lógica maior do seu desígnio de bem para o Mundo se pode cumprir.

Falhada a ajuda teórica, resta a ajuda prática e pragmática, segundo não já apenas a forma do puro espírito, mas segundo a forma do espírito em forma de carne. Deus tem de vir ao Mundo, Deus tem de vir à carne.

Mas isso não se faz, dignamente, através de magia: faz-se através da mediação própria e a mediação própria da e para a carne é a carne. Deus necessita de carne humana para ser carne humana. Deus precisa de uma Mãe. E essa mãe tem de o ser por amor, tem de dar o seu «Sim» à possibilidade de Deus incarnar, incarnar nela.

E o convite é feito a uma perfeita rapariguinha, perfeita não por especial favor, mas perfeita pela ação perfeita de Deus nela, analogamente perfeita em todos. Mas Maria não desmereceu a perfeição: Maria não é Eva, que também era perfeita, mas que não soube estar ao nível da sua possibilidade de máxima perfeição. Deus escolheu Maria e Maria escolheu Deus ao não se profanar. E é esta relação de mútuo amor que é o ato de eleição de Deus, mas ato de eleição de Maria por Deus e de Deus por Maria – que também é de Maria por Maria, pois, ao escolher Deus em si, escolheu-se no melhor que era.

E Maria disse «Sim». E, através deste sim e apenas através deste sim, o Mundo teve a possibilidade de ser salvo. O «Não» de Maria significaria que não haveria Incarnação. Tal é a importância paradigmática do ato de assentimento da jovenzinha, assim feita Mãe da salvação de tudo.

É esta a importância do nosso sim ao bem. «Sim» que é o único «não» eficaz ao mal: não há outro. O sim de Maria é imediatamente o mediato ventre da salvação.

Salve, Maria!

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa
Publicado em 28.09.2014

 

 
Imagem Fra Angelico | Santa Maria delle Grazie, San Giovanni Valdarno
O Mundo, criado como possibilidade de bem, é, concomitantemente, possibilidade de não-bem, de mal. Só assim pode ser autónomo no seio da relação criadora. Bem e mal são as baias metafísicas para o próprio Mundo como mediação de si próprio. É esta a sua autonomia, absoluta na relação com Deus
Então, há que procurar salvar o Mundo. A tentativa puramente lógica operada com e em Job, constructo teórico, falhou: poucos entenderam e Deus não quer salvar apenas poucos, mas todos
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