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Fascinante e tremendo é “O sagrado” de Rudolf Otto

Fascinante e tremendo é “O sagrado” de Rudolf Otto

Imagem Rudolf Otto | D.R.

Na memória coletiva o ano de 1917 é o da revolução russa de outubro, mas para quem se ocupa das ciências da religião é também o ano da primeira edição de “Das Heilige” (“O sagrado”), de Rudolf Otto (1869-1937), livro unanimemente reconhecido como um clássico da ensaística religiosa do século XX e um dos poucos “best-sellers” pertencentes ao género que resistem no tempo.

O seu autor, até agora um teólogo luterano pouco conhecido fora do âmbito académico, tornou-se, graças à obra, uma das figuras centrais do pensamento filosófico-religioso contemporâneo, e a sua teoria das religiões uma das mais discutidas entre os investigadores das religiões de todo o mundo.

O sucesso de “O sagrado”, que em Portugal foi publicado em 1992 pelas Edições 70 (232 pp., 15,90 €), deve-se a algumas razões e equívocos. Uma primeira razão é que o livro oferece uma original fenomenologia da experiência religiosa, que tem o mérito seguro de iluminar as dimensões constitutivas daquela.

Entre estas dimensões está o sentido do mistério que caracteriza a relação do homem com o divino ou o «numinoso» (neologismo cunhado por Otto), a dúplice polaridade da experiência do «totalmente outro», que por um lado atemoriza e repele (é o momento do “tremendum”) e por outro fascina e atrai (é o momento do “fascinosum”), a coexistência no sentimento religioso de um aspeto irracional e de um racional que distingue a religião de outros fenómenos culturais e ao mesmo tempo mostra a continuidade com eles.



Uma das razões do sucesso de “O sagrado” é a capacidade de Otto de se mover em diversos planos disciplinares, conhecimento que lhe permitiu ter uma visão global do fenómeno religiosos, colhendo afinidades e aspetos comuns onde muitas vezes apareciam apenas diferenças e divisões



Uma segunda razão é devida ao relevo dado ao conceito de «sagrado», que em Otto indica tanto um objeto da experiência religiosa (o divino) como a disposição interior que está presente em todos os homens que fazem esse tipo de experiência.

O conceito de sagrado já era utilizado por alguns investigadores da religião nos primeiros anos do séc. XX para caracterizar a experiência religiosa em contextos culturais diferentes do ocidental, onde não está presente a crença num único Deus ou numa pluralidade de deuses, ou onde, como nas religiões primitivas, as potências naturais são concebidas como manifestações de anónimas potências sobrenaturais que dominam o ser humano.

Todavia, é apenas graças ao livro de Otto que este conceito se afirmou na ciência das religiões do séc. XX, até resultar num dos seus conceitos-chave, para depois transitar para a linguagem comum, como é testemunhado pelo facto de que muitos contemporâneos nossos preferem falar de experiência do “sagrado” mais do que de experiência de “Deus” ou do “divino”.

Por fim, uma das razões do sucesso de “O sagrado” é a capacidade de Otto de se mover em diversos planos disciplinares (teológico, filosófico, histórico, psicológico) de múltiplas tradições religiosas, um conhecimento que lhe permitiu ter uma visão global do fenómeno religiosos em tempos que ainda não eram caracterizados pela globalização, colhendo afinidades e aspetos comuns onde muitas vezes apareciam apenas diferenças e divisões.



O livro, nas intenções de Otto, devia ser apenas uma etapa de um mais amplo programa teológico de matriz liberal que pretendia compreender o cristianismo na sua relação total com o fenómeno religioso e cultural



É verdade, todavia, que o sucesso desta obra depende também de alguns equívocos: o principal é o de ter considerado a obra como a expressão paradigmática em âmbito religioso do clima de “crise das religiões”, que caracteriza os primeiros anos do séc. XX, enquanto que Otto, através do relevo dado ao irracional na ideia do divino, pretendia principalmente questionar a atitude racionalista da teologia e da filosofia das religiões modernas, e não nutria simpatia alguma por correntes “irracionalistas” do pensamento, como a filosofia da vida ou o nascente existencialismo.

O livro, nas intenções de Otto, devia ser apenas uma etapa de um mais amplo programa teológico de matriz liberal que pretendia compreender o cristianismo na sua relação total com o fenómeno religioso e cultural, sem todavia renunciar à sua peculiaridade e superioridade no quadro das religiões mundiais.

O confronto de Otto com o naturalismo de tipo científico, nos primeiros anos de Novecentos, assim como a sua reflexão sobre a fundação religiosa da ética que caracteriza os últimos anos da sua atividade, são momentos igualmente significativos da sua reflexão que merecem ser indagados porque, provavelmente, manifestam melhor do que a sua obra-prima a real intencionalidade do seu trabalho.

Desta forma, a memória da notável história dos efeitos de “O sagrado” no pensamento religioso contemporâneo pode abrir-se às dimensões escassamente exploradas da obra de Otto, que dão efetivamente razões, ainda hoje, da sua relevância como erudito do fenómeno religioso.



 

Andrea Aguti
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 28.12.2017

 

 

 
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