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O rosto e o rasto (para uma leitura cristã das criações culturais)

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O rosto e o rasto (para uma leitura cristã das criações culturais)

Todas as criações das artes – da música ao cinema, da literatura ao teatro, da pintura à escultura etc. – distinguem-se por um conjunto de processos a que W. Iser chamou estrutura de solicitação à resposta do leitor. Nelas, o sentido não é só plural e, por isso, aberto à diversidade de leituras; nelas, o sentido surge parcialmente indeterminado, incompletamente definido, e apela ao leitor para vir cooperar na criação da mensagem estética - ou preenchendo os espaços em branco, ou associando de modo novo os elementos captados no “texto” artístico. Grande responsabilidade atribuída ao leitor (cristão ou não): as virtualidades do texto ficam dependentes das virtudes do leitor!

Os cristãos sabem de há muito que assim é também com o texto do mundo. Sabem-no melhor desde que Santo Agostinho falou da natureza vestigial do mundo: pela face da vida da Terra e do Cosmos se disseminam, patentes ou velados, determinados ou indeterminados, os vestígios da criação amorosa de Deus, afinal "in fieri". E o Homem, tentado à distracção e à diversão, é chamado a ver, a interpretar e a reconfigurar - em suma, a colaborar na inconclusa Criação divina. Grande doação aos filhos de Deus, grande responsabilidade do Homem: tornar-se co-criador do sentido do texto do Mundo!

Os cristãos também sabem que, ainda mais do que nessa face da Terra e do Cosmos, é no ser humano que vive a imagem e semelhança de Deus. Sabem-no melhor desde que E. Levinas fecundou o pensamento contemporâneo com a centralidade do rosto do outro e do rasto de Deus. Olhar esse rosto é ler a diferença e combater a indiferença; é aumentar o sentido do rasto de Deus nos caminhos da vida com o outro. Olhar, reconhecer e amar como próximo o rosto do outro também é colaborar na inconclusa Criação divina. Grande convocação dos filhos de Deus, grande responsabilidade do Homem: tornar-se co-criador do sentido do texto da História!

As artes e todas as criações culturais alcançam as mais altas formas simbólicas de representação da natureza vestigial do mundo e do rosto fraterno dos humanos. E, abrindo o seu potencial de sentido à nossa cooperação interpretativa, oferecem-nos extraordinárias hipóteses de comparticipar na criação “in progress” desse sentido apelativo.

Eis aí o lugar para a “inscrição”: uma leitura cristã das criações culturais - também forma de fundar o Seguimento no rosto e no rasto do Outro.

 

Texto redigido segundo o anterior Acordo Ortográfico.

 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Publicado em 21.11.2014

 

 
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