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O risco de adormecer mesmo quando se anda apressado

O risco de adormecer mesmo quando se anda apressado

Imagem Jaffar Ali Afzal/Bigstock.com

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento. Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse. Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!» (Evangelho do I Domingo do Advento, Marcos 13, 33-37).

Primeiro domingo do Advento: recomeça o ciclo do ano litúrgico como um estremecimento, um clarão de futuro dentro do ciclo lento dos dias sempre iguais. A recordar-nos que a realidade não é só isto que se vê, mas que o segredo da nossa vida está além de nós. Alguma coisa está a mover-se, alguém está a caminho e à nossa volta «o céu prepara oásis aos nómadas de amor» (Ungaretti). Entretanto na Terra tudo está na expetativa, «também o trigo espera, também a pedra espera» (Turoldo), mas a expetativa nunca é egocêntrica, não se aguarda a bem-aventurança do singular, mas novos Céus e nova Terra, Deus tudo em todos, a vida que floresce em todas as suas formas.

«Quem dera que rasgasses os céus e descesses» (Isaías 63, 19). Espera de Deus, de um Jesus que é Deus caído na Terra como um beijo (B. Calati). Como uma carícia sobre a Terra e sobre o coração. O tempo que começa ensina-nos o que nos cabe fazer: ir ao encontro. O Evangelho mostra-nos como fazê-lo: com duas palavras que abrem e fecham o trecho, como dois parêntesis: acautelai-vos e vigiai.

Um proprietário parte e deixa tudo nas mãos dos seus servos, a cada um a sua tarefa. Uma constante de muitas parábolas, uma história que Jesus conta muitas vezes, narrando um Deus que coloca o mundo nas nossas mãos, que confia todas as suas criaturas à inteligência fiel e à ternura combativa do homem. Deus põe-se de lado, fia-se do homem, confia-lhe o mundo. O homem, por seu lado, é investido de uma enorme responsabilidade. Já não podemos delegar nada a Deus porque Deus delegou-nos tudo.

Acautelai-vos, tende atenção. A atenção, primeira atitude indispensável para uma vida não superficial, significa-se colocar-se em modo “acordado” e ao mesmo tempo “sonhador” diante da realidade. Nós pisamos tesouros e não nos apercebemos, caminhamos sobre jóias e não nos damos conta. Viver atentos: atentos à Palavra e ao grito dos pobres, atentos ao mundo, ao nosso planeta bárbaro e magnífico, às suas criaturas mais pequenas e indispensáveis: a água, o ar, as plantas. Atentos ao que acontece no coração e no pequeno espaço de realidade em que me movo.

Vigiai, com os olhos bem abertos. O vigiar é como olhar em frente, um escrutinar a noite, o espiar o lento emergir da aurora, porque o presente não basta a ninguém. Vigiar tudo o que nasce, os primeiros passos da paz, a respiração da luz, os primeiros vagidos da vida e dos seus rebentos. O Evangelho entrega-nos uma vocação ao despertar: que não chegue aquele que se espera encontrando-nos adormecidos. O risco do dia a dia é uma vida adormecida, que não sabe ver a existência como uma mãe à espera, prenhe de Deus, grávida de luz e de futuro.



 

Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 30.11.2017

 

 
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