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O que será do cristianismo no Iraque?

Submetidos a provações durante o controlo que o Estado Islâmico impôs à região, os cristãos da planície de Nínive, no Iraque, crucial para o judaísmo e para o cristianismo das origens, interrogam-se sobre o futuro, não obstante o lento regresso a uma situação que pelo menos desde há 15 anos já não era feliz.

O jornal digital “Observador” publicou este sábado uma grande reportagem, com texto, vídeo e fotografia, que começa por situar o leitor em «Qaraqosh, a maior cidade cristã do Iraque, a 15 quilómetros de Mossul». O centro pastoral Mar Bolos (aramaico para São Paulo) é um «edifício imponente», se comparado com o que restou dos escombros, e é um dos trabalhos de reconstrução mais recentes.

«O padre Georges Jahola, responsável pela reconstrução de uma cidade que, durante três anos, foi um dos centros de operações mais importantes do Estado Islâmico no Iraque, explica que, no interior daquele edifício, está o futuro do Cristianismo na região», escreve João Francisco Gomes.

O repórter sublinha que «sem escolas e outros serviços públicos, são as igrejas cristãs (ortodoxas ou católicas) que asseguram os mínimos, incluindo a escolaridade no período letivo e o acompanhamento das crianças no período das férias».



«O objetivo do Estado Islâmico, ao vir a estes lugares cristãos, era eliminar o Cristianismo», afirma um padre. Mas os sofrimentos, ainda que não a esta escala, remontam pelo menos a 2003, ano da invasão pelos EUA



O Estado Islâmico estabeleceu o califado em Mossul a partir do verão de 2014, e não ficou uma única casa inteira; enquanto umas foram incendiadas pelos terroristas, outras foram destruídas pelos bombardeamentos, à semelhança das igrejas. «Uma das primeiras coisas que me pediram, ainda antes de pensarmos na reconstrução das casas, foi que celebrasse uma missa na igreja», lembra um padre.

«O grupo terrorista tinha proposto aos bispos cristãos um acordo: os cristãos pagavam a “jyzia” (imposto pago por outras religiões aos muçulmanos, de acordo com a lei islâmica) e eram deixados em paz pelo Estado Islâmico. Como os bispos recusaram, os cristãos foram feitos prisioneiros.»

A reportagem conta a história de Amal, separada do marido, de quem nunca mais ouviu falar, tal como o irmão. Em Qaraqosh o Estado Islâmico apossou-se de 45 mulheres cristãs, das quais apenas sete regressaram. «Em todo o país, o número de mulheres e crianças raptadas ascende aos vários milhares, entre cristãs e yazidis, apesar de não haver estatísticas oficiais coerentes. Muitas delas tiveram um destino ainda pior que o de Amal e acabaram como escravas sexuais.»

«O objetivo do Estado Islâmico, ao vir a estes lugares cristãos, era eliminar o Cristianismo», afirma um padre. Mas os sofrimentos, ainda que não a esta escala, remontam pelo menos a 2003, ano da invasão pelos EUA: os cristãos «foram associados aos invasores norte-americanos e acabaram por tornar-se num dos principais alvos de perseguição das milícias xiitas e sunitas que se envolveram em confrontos mortíferos, nos anos que se seguiram».



«[Os terroristas] pensaram que podiam destruir a fé destruindo as igrejas, as estátuas, os símbolos espirituais do Cristianismo. Mas esqueceram-se de que o Cristianismo não está no edifício de uma igreja, mas sim no coração das pessoas, na oração e na fé»



Antes de 2003 havia cerca de 1,5 milhões de cristãos no país, cuja população é de 37 milhões. Hoje, as estimativas apontam para 300 mil, ou seja, cerca de 0,8% da população, face a 99% de muçulmanos.

Entre o clero há quem esteja convicto de que o diálogo com os muçulmanos é impossível, e que o Governo quer erradicar da planície de Nínive o Cristianismo, seja ele católico ou ortodoxo.

«[Os terroristas] pensaram que podiam destruir a fé destruindo as igrejas, as estátuas, os símbolos espirituais do Cristianismo. Mas esqueceram-se de que o Cristianismo não está no edifício de uma igreja, mas sim no coração das pessoas, na oração e na fé», assinala um sacerdote, que acrescenta: «E ser um cristão no Iraque não é apenas ser chamado cristão ou não cristão, praticar ou não praticar o Cristianismo. Aqui é precisa a fé».








 

Rui Jorge Martins
Fonte: Observador
Imagem: HomoCosmicos/Bigstock.com
Publicado em 24.09.2018

 

 
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