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O que resta do Ano da Misericórdia?

O que resta do Ano da Misericórdia?

Imagem ©L'Osservatore Romano

Há um ano estávamos no coração desse tempo de graça aberto a pedido do papa Francisco para melhor nos reapropriarmos de um dos fundamentos da nossa fé e sermos capazes de reafirmar em qualquer circunstância a infinita misericórdia de Deus.

Para além dos jubileus vividos em Roma, nas dioceses, nas paróquias, em comunidade, em família, aquando da Jornada Mundial da Juventude..., a misericórdia impregna doravante de uma maneira nova a nossa forma de viver e o concreto das nossas existências, das nossas relações, a partir do olhar mais ajustado que temos sobre o próprio Deus.

Neste segundo domingo da Páscoa, que desde o ano 2000 o papa S. João Paulo II quis que fosse o Domingo da Misericórdia, somos convidados a reconsiderar a maneira como as nossas vidas estão enxertadas na de Cristo ressuscitado.

Não é preciso voltar a falar hoje do clima da sociedade em que vivemos. Cada pessoa terá desde há muito tempo feito a experiência das tensões sofridas em todos os níveis da nossa vida e que não poupam o crente que procura colocar a sua vida sob a influência do Espírito Santo.



Sonhamos mais o mundo e a nossa vida do que os investimos do amor de Deus, de tal maneira isso nos parece difícil. O nosso próprio sentido da justiça, dos nossos direitos, o nosso egoísmo parecem prevalecer muitas vezes sobre o exercício concreto da misericórdia



Sabemos que as críticas que estamos prontos a dirigir aos outros, às instituições, são muitas vezes reveladoras dos lugares da nossa própria contradição que não queremos olhar frontalmente para não sermos esmagados por um conflito interior. São muitos os lugares onde a misericórdia ainda tem de finalizar a sua obra.

Sim, somos apanhados na armadilha dos nossos julgamentos, das nossas exigências, dos nossos temperamentos inconstantes, de uma perfeição ilusória, de uma história que seja isenta de toda a crítica... Em resumo, muros que erguemos instintivamente e que renunciamos ver mais ou menos subtilmente.

Sonhamos mais o mundo e a nossa vida do que os investimos do amor de Deus, de tal maneira isso nos parece difícil. O nosso próprio sentido da justiça, dos nossos direitos, o nosso egoísmo parecem prevalecer muitas vezes sobre o exercício concreto da misericórdia.

O individualismo e a ilusória capacidade de erigir a opinião própria como verdade confortam aquele sentimento. Ora, «uma verdade que não é caritativa procede de uma caridade que não é verdadeira», lembra-nos S. Francisco de Sales.



A misericórdia coloca-nos de novo diante da atitude de Deus que torna possível aquilo que, aos nossos olhos, era da ordem do inimaginável. Ela evita que vivamos numa esquizofrenia entre a vida segundo o Evangelho a que aspiramos e o nosso envolvimento no mundo



Diante do convite de Cristo a viver a misericórdia, somos provocados hoje a manifestar toda a sua atualidade. A misericórdia inscreve-nos no real. Ela é um apelo a considerar as quedas da nossa existência que não ousamos expor demasiadamente à luz da ressurreição.

Ora, nunca há nada a temer da infinita bondade de Deus. Num mundo onde nos agarramos a sonhos ou à nostalgia, Cristo, na sua misericórdia, transfigura o real do nosso quotidiano porque Ele o tomou no seu poder de amor infinito que nos abre as portas da vida eterna.

A misericórdia coloca-nos de novo diante da atitude de Deus que torna possível aquilo que, aos nossos olhos, era da ordem do inimaginável. Ela evita que vivamos numa esquizofrenia entre a vida segundo o Evangelho a que aspiramos e o nosso envolvimento no mundo. Longe de ser um logro, a misericórdia faz-nos sair da ilusão da nossa omnipotência e mobiliza os nossos pobres impulsos para aprofundar o exercício da nossa caridade.

Com efeito, as nossas forças são limitadas e nós contamos ainda demasiadamente connosco próprios. Uma das virtudes da nossa Quaresma não terá sido a de perceber que as nossas boas resoluções só palidamente foram cumpridas? Assim sendo, talvez não seja tarde para tomar resoluções de Tempo Pascal!



A misericórdia não é uma palavra onde cabe tudo que se impõe quando não temos mais nada a dizer



Se a nossa responsabilidade é a de levar ao mundo o anúncio da ressurreição e de fazer entrever a misericórdia que nós próprios vivemos, a quem iremos nós falar, para lá do nosso círculo de convencidos, da ressurreição? A quem iremos levar este testemunho que funda toda a esperança e que a misericórdia muda a história?

A misericórdia não é uma palavra onde cabe tudo que se impõe quando não temos mais nada a dizer: ela reenvia para a fonte do amor de Deus que nos estabelece numa atitude nova onde o real não é um obstáculo ao encontro com o Ressuscitado, mas o próprio lugar onde Ele se faz reconhecer, incluindo com as suas feridas.

A misericórdia está em curso. Quem a anunciará? Bom Domingo da Misericórdia, junto dos novos batizados!



 

P. Emmanuel Coquet
Secretário-geral adjunto da Conferência Episcopal Francesa
In "Église catholique en France"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.04.2017

 

 

 
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