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O que não pode ser pervertido

Imagem Nossa Senhora do Leite - Fuga para o Egito (det.) | Escola Portuguesa | Séc. XVII, 1.ª metade

O que não pode ser pervertido

Temos presentes as obras de arte, inumeráveis, que patenteiam isso que é parte integrante e necessária da teofania cristã, mostrando a Santíssima Virgem amamentando o Menino. Temos também presente a impertinente notícia segundo a qual uma Senhora argentina que amamentava o seu bebé foi importunada pela polícia por estar a realizar tal ato num lugar público.

Tristes sinais dos tempos em que, não se prestando a devida atenção a toda a obscena violência que contra mulheres e crianças existe no mundo, se perde tempo e ato com algo que configura precisamente o ato anti-violento por essência e substância, o ato em que a Mulher – pode não ser a Mãe biológica – dá de mamar a um bebé.

É impossível levar a perversidade humana mais longe: alguém considerar algo menos do que perfeitamente humano este atto revela a baixeza antropológica a que a humanidade chega através de alguns de seus indivíduos.

Na representação da Virgem amamentando o Menino, encontramos o ápice da relação incarnada entre Deus e o ser humano, este dado na excelsa figura – de carne, sim de carne – de Maria. Não é possível Cristo sem Maria: esta é isso que permite que o Deus espírito se metamorfoseie em carne, na nossa carne. E tal ato faz-se, como sempre – mesmo nos milagres – através de mediações. É neste sentido ontológico profundo que Maria é medianeira, não como um meio de comunicação entre homens e Deus, mas como o meio eleito por Deus e por si própria quando deu seu sim a Deus para que o divino pudesse assumir a forma total da humanidade.

De esta mediação faz parte gerar, nutrir em matriz, parir e nutrir extra-matriz, de todos os modos necessários para que um ser humano incoativo se transforme num ser humano perfeito. Tal foi a tarefa a que Maria deu o seu sim. Tal foi a tarefa que cumpriu. Plena e perfeitamente.

Ora, de esta tarefa, como plenitude humana da relação humana entre a Mulher Mãe carnal e espiritual e seu Filho – paradigma para toda a humanidade – faz parte amamentar: o infante (o que não fala) não pode por si só prover ao seu sustento. O leite da Mãe não apenas representa, mas é propriamente isso que dá materialmente vida ao infante.

Mas não apenas materialmente: o contacto carnal da face, da boca do infante com a carne da Mãe – sim, carne, mas santa – é o lugar e o tempo, é, sobretudo, o ato em que a nova vida prova, saboreia, bebe espiritualmente com os lábios, isso que é o que se lhe revela como a absoluta bondade. O bem absoluto para o infante é a mama da Mãe, de onde lhe vem o alimento do corpo e o alimento da alma.

Percebiam isto bem todos os artistas que, sem perversidade, retrataram este momento divino e divino não apenas na relação de Maria com Cristo, mas de todas as Mães com seus infantes. É o momento humano sagrado por excelência, mais importante positivamente do que o do nascimento, em que o infante já está, mas ainda no que é um momento de angústia – o primeiro e padronizador de todos os outros possíveis.

Na amamentação, acompanhando o ganho de isso a que se chama consciência, mas dando-lhe a forma do sabor do calor da maternal carne e do maternal alimento, o infante descobre o mundo como uma promessa de bem: em perfeita paz, tudo se manifesta como uma abundância de prazer. A Mãe é o santo absoluto do prazer, que só tem semelhante na alegria com que Deus contempla cada dia que criou.

Uma Mãe que amamenta um infante é sempre um quadro de infinita beleza, mesmo que tal ato ocorra no meio do ambiente mais degradado. Pois, aí, no meio da infâmia da humanidade condenada pela humanidade ao lixo, é este ato que representa a presença de Deus, na vida que continua, na vida que, líquida, passa da Mãe ao infante. É o ato que impede que Sodoma e Gomorra sejam deixados à inércia do destino que para si criaram.

Quem pode ver em tal ato senão uma epifania de beleza? Que mentes tão perversas por aí andam?

Mas é o mesmo Menino, esse que do santo seio de sua Mãe bebeu o leite da vida, que anuncia o que espera quem assim pensa, quem assim vive: já tem a sua recompensa.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 25.07.2016

 

 
Imagem Nossa Senhora do Leite - Fuga para o Egito (det.) | Escola Portuguesa | Séc. XVII, 1.ª metade
O bem absoluto para o infante é a mama da Mãe, de onde lhe vem o alimento do corpo e o alimento da alma. Percebiam isto bem todos os artistas que, sem perversidade, retrataram este momento divino e divino não apenas na relação de Maria com Cristo, mas de todas as Mães com seus infantes
Na amamentação, acompanhando o ganho de isso a que se chama consciência, mas dando-lhe a forma do sabor do calor da maternal carne e do maternal alimento, o infante descobre o mundo como uma promessa de bem: em perfeita paz, tudo se manifesta como uma abundância de prazer
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