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O que é um poema?

O que é um poema?

Imagem Fernando Pessoa | D.R.

E se a gente ouvisse um texto e entrasse lá dentro e começasse a dizer só para nós que ele tem razão, é um poeta, que já tínhamos aquela teoria mais ou menos arquitetada mas nunca com o jeito e a coragem de a trazer à luz, de apreciar o som e lhe perceber as tonalidades; que parece não ser um poema mas uma teoria, um protesto, uma irreverência com o uso de palavras que costumam ser usadas para dizer o contrário. Por todos, exceto pelos poetas. Que ali, afinal, está um poema, um compêndio da história de ontem e de hoje que poderia ser dita há dez mil anos ou daqui a vinte mil; que até as crianças se deixariam embalar se o ouvissem na voz áspera, clara e doce de Maria Betânia, que não hesita um verbo e acaricia cada sílaba. E se o repetíssemos uma, duas, dez vezes e reparássemos que nenhuma é igual à outra, e se nos deixássemos abismar pelo rolar da palavra sem uma única rima, e sentíssemos que existe apenas para este momento, esta realidade, que descreve este anseio, que exprime esta revolta, que transporta esta recusa tocada de beleza que vai desaguar num infinito abstrato. Ah, é mesmo um poeta, um poema. Tinha-me esquecido que tem asas, se transfigura, se torna em salmo ou impropério, rasga a fronteira dos horizontes, das convenções, atreve-se a passar as nuvens, não se prende a fórmulas, esvoaça, livre como a alma. O poema dá-me uma certeza: a alma existe e está lá discretamente escondida na folhagem das palavras nos tons mesmo azedos que perguntam sem querer resposta, nas dúvidas que se escondem dentro de todos os humanos. O poema não é uma proclamação de direitos, é ele próprio um direito porque nasce da arte nobre de pensar e gritar no tom que entender o que de mais sublime habita o coração do homem. É um hino, um salmo, um versículo, uma prece balbuciada por milhões de seres humanos mas que só os poetas sabem interpretar. E sem dizer que tudo é divino adivinha-se-lhes o traço no subliminar do transcendente.



O poema é, ele mesmo, senhor do seu universo, ímpeto criador, a um tempo santo, sábio e louco, deixando a lógica de lado, só permitindo a fala do coração e a sua inexcedível linguagem



Não sei o poema de cor. Não serei capaz de repetir a maior parte das suas palavras. Os poemas não são para se fixar e cantar com a nossa voz nem para traduzir com as nossas ideias. O poema é, ele mesmo, senhor do seu universo, ímpeto criador, a um tempo santo, sábio e louco, deixando a lógica de lado, só permitindo  a fala do coração e a sua inexcedível linguagem. Gostava de me juntar a todos os nãos deste manifesto, abraçar os sonhos que esboça, o planeta que inventa. Foi isso que o poeta soube desenterrar e me deixou perplexo e feliz porque já sabia aquilo tudo mas nunca o tinha pensado da forma que só os poetas sabem expor. E podem criar. Mesmo em forma de sátira, sublimada pela invenção do dizer. Nunca saberia ir por aquele caminho nem encontrar nas bermas as maravilhas que ele me revelou. No fim percebi que por vezes é preciso “fechar o cofre e deitar a chave fora”. E por isso aceitei humildemente que tudo o que fora dito e escrito não era para compreender mas apenas para sentir. Tinha de ser. Era o Ultimatum de Álvaro de Campos, 1917. Foi há cem anos.



 

P. António Rego
Publicado em 10.01.2017

 

 

 
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