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O Papa telefonou a Jesus… e foi notícia!

Imagem D.R.

O Papa telefonou a Jesus… e foi notícia!

No dia 11 de janeiro, o Papa pegou no telefone e ligou a Stella Maris Kriger. Stella, cidadã argentina, tal como o Papa, tinha 61 anos e estava internada no Hospital de Santo André, em Leiria. Francisco ligou-lhe mas não conseguiu falar à primeira com esta mulher que sofria de cancro da mama em fase terminal. Ela não atendeu, Francisco voltou a ligar mais tarde. Segundo a diocese de Leiria relatou, o Papa «fez questão de ligar segunda vez, tão determinado estava em reconfortar esta imigrante e dizer-lhe que iria rezar por ela e a iria mencionar nas intenções da eucaristia» do último domingo. Stella comentou que o telefonema feito a partir de Roma tinha sido "um dos momentos mais marcantes" da sua vida. Uma vida que durou apenas mais dois dias. Na terça-feira seguinte, depois de ter falado com o Santo Padre, Stella Maris Kriger morreu.

O gesto de Francisco caiu nas redações dos jornais através da nota da diocese de Leiria. De imediato fez primeiras páginas na imprensa portuguesa. E porquê? Pelas leis do jornalismo, porque tudo o que faz uma figura com a dimensão do Papa é potencialmente notícia. Porque é inédito. Que se saiba, não há registo de um sucessor de Pedro tenha feito algo parecido, ou seja, ter conhecimento de um caso como este e telefonar a uma estranha, esta argentina emigrada em Portugal há 17 anos, e falar com ela nessa intimidade de quem sofre com quem sofre. Mas numa época em que se fazem milhares de milhões de telefonemas por dia, que tem este telefonema de tão diferente que justifique um lugar de destaque na imprensa? Para a maioria das pessoas talvez a justificação principal continue a ser a importância do cargo de Francisco.

Muitos comentarão este telefonema “improvável” e não deixarão de reconhecer em Francisco qualidades extraordinárias. Mas ligar e Stella não atender e voltar a ligar dá uma intencionalidade ao gesto do Papa que dá que pensar. Francisco sentiu que aquele telefonema fazia todo o sentido, não à luz das leis do jornalismo, mas à luz das leis do amor de Deus. Francisco leu Marcos 9, 33-37: «Quando chegaram a Cafarnaúm e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: "Que discutíeis no caminho?" Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-se, chamou os Doze e disse-lhes: "Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos". E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: "Quem receber uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber não me recebe a mim, mas àquele que me enviou"». 

Jesus não disse para fazermos aos outros como se estivéssemos a fazer a Ele. Disse muito mais, que ao fazermos aos outros é a Ele próprio que fazemos. É este o mistério mais profundo do cristianismo. Deus está no outro e se quero fazer bem a Deus é ao outro a quem eu tenho que fazer o bem. Aos olhos do mundo descrente e ateu Francisco telefonou a Stella, mas aos nossos olhos, crentes a caminho de Cafarnaúm, Francisco telefonou ao próprio Jesus. Por isso, por ter tanta vontade em ser seguidor desse Cristo, em ser ostensivamente cristão, Francisco voltou a ligar, não desistiu perante a ausência de resposta. Ligou de novo e fez-se último, tornando-se primeiro.

Francisco deu-nos uma lição. Lembrou-nos como andamos mais preocupados em discutir uns com os outros sobre qual de nós é o maior do que em olhar para os outros.

Não sabemos o que disse a Stela Krieger mas sabemos o que ela disse, que tinha sido um dos momentos mais marcantes da sua vida. Disse, com certeza, coisas grandes a alguém que estava a precisar de as ouvir. A isto chama-se caridade. No momento da morte vai-se a Fé, vai-se a Esperança, fica o Amor.

Que pena que nos nossos dias, tão ocupados com o que andamos a fazer, não saibamos parar para ver quais são os telefonemas fundamentais da nossa vida e, principalmente, que não tenhamos a humildade de voltar a ligar quando do outro lado ninguém atende.

Telefonamos muito e a muitas pessoas, mas telefonamos essencialmente aos nossos e esquecemo-nos dos outros. Se fizéssemos o contrário, talvez o mundo fosse melhor, mais próximo da Nova Jerusalém. Mas porque isso não acontece, o telefonema de Francisco voltará a ser notícia, outra e mais outra vez…

 

Paulo Nogueira
Jornalista
Publicado em 04.02.2015

 

 
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Muitos comentarão este telefonema “improvável” e não deixarão de reconhecer em Francisco qualidades extraordinárias. Mas ligar e Stella não atender e voltar a ligar dá uma intencionalidade ao gesto do Papa que dá que pensar
Que pena que nos nossos dias, tão ocupados com o que andamos a fazer, não saibamos parar para ver quais são os telefonemas fundamentais da nossa vida e, principalmente, que não tenhamos a humildade de voltar a ligar quando do outro lado ninguém atende
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