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O papa, a Igreja e a vida dos últimos

O que conquista as almas nos discursos do papa é o ponto de vista: um olhar inédito «fora de muros», que pensa a Igreja a partir do mundo, e não ao contrário. O dia de hoje, 23 de fevereiro, de oração e jejum pela paz na República Democrática do Congo e no Sudão do Sul, para a qual Francisco convida todos, insere-se neste contexto e deverá induzir cada pessoa a um sério discernimento em relação ao que está a acontecer no submundo da história. Com efeito, os dois países da África subsariana, duramente provados pela violência, constituem o emblema daquelas que o papa, no seu ensinamento, chama «periferias do mundo».

E é precisamente a história daquelas terras ensanguentadas, mesmo passando pelos relatos da memória por mãos sempre diferentes quantas as gerações, que nos devem ajudar a compreender o quão aberrante é o egoísmo humano. Ela, com efeito, continua a constituir a narração permanente, modulada com géneros literários vários, de modelos de civilização que geraram sempre, além das guerras, exclusão à desmesura.

O Congo de que estamos a falar, antiga possessão pessoal do rei Leopoldo da Bélgica, é um país onde as injustiças e as prepotências mais terríveis representaram uma constante desde os tempos do colonialismo. E o mesmo pode ser dito do Sudão do Sul, a mais jovem nação africana, nascida na sequência de uma consulta referendária em 2011. Mas também neste caso, seja antes ou após a independência, são os violentos a ditar as regras do jogo. Portanto, a licença para matar, espezinhando a dignidade humana, deve ser condenada e, acima de tudo, evitada, promovendo caminhos de paz. Isto é, não basta invocar o fim das hostilidades perpetradas pelos senhores da guerra.



O compromisso deve ser o do descentramento, olhando para o mundo do lado dos últimos. Não ser capaz disso equivaleria ao sonambulismo de uma fé desencarnada, opiácea, relegada para as vetustas sacristias, que são a antítese da fronteira do Evangelho



Como dizia o desaparecido arcebispo de Milão, cardeal Carlo Maria Martini, «a paz tem um custo, a paz paga-se. Mesmo o Evangelho, quando diz “a quem quer tirar-te a túnica, deixa também o manto”, faz compreender que há um preço a pagar, que não basta invocar a paz». É preciso estar disposto a sacrificar alguma coisa de próprio para Indo sobretudo além do conformismo endémico do nosso tempo, através do qual as misérias do mundo são cobradas, paradoxalmente, às próprias vítimas da miséria, seria oportuno questionar-se sobre as causas, quase nunca mediatizadas, que geram morte e destruição. Eis que descobriríamos então intrigas de todo o género ligadas ao “diktat” do interesse, pouco importa se desta ou daquela oligarquia, desta ou daquela multinacional.

É evidente que uma vasta humanidade dolorida, vítima de abusos sem fim, padece antes de tudo e sobretudo as consequências de relações interesseiras, maliciosas e adulteradas que dependem da ganância de quem olha só e unicamente para a maximização dos seus lucros. É então necessário perguntar, orando e jejuando, se o nosso presente e o nosso futuro não estão encurralados nas estruturas de pecado, de que a exploração e o abandono das «periferias» são o sinal mais evidente.

O compromisso deve ser o do descentramento, olhando para o mundo do lado dos últimos. Não ser capaz disso equivaleria ao sonambulismo de uma fé desencarnada, opiácea, relegada para as vetustas sacristias, que são a antítese da fronteira do Evangelho.

Um percurso de conversão, que a mística quaresmal propõe, na consciência de que «ser moral significa saber que as coisas podem ser boas ou más. Mas não significa saber, e muito menos saber por certo, quais são as boas e quais são as más. (…) Ser moral significa nunca se sentir suficientemente bom», como assinala o grande sociólogo Zygmunt Bauman. O mistério da predileção de Jesus pelos pobres e a sua centralidade nos dinamismos do Reino e da missão sugerem a cada Igreja, tanto no Norte como no Sul do mundo, partilhar a vida dos pobres, e este dia de oração e jejum recorda-nos disso.



 

Giulio Albanese
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: Congo | Liz Lucas/Oxfam America
Publicado em 23.02.2018

 

 
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