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O meu tesouro é o rosto de Deus, pastor de corações que fecha a porta da noite e abre a janela da luz

Imagem Coreografia de Boris Charmatz | © Tate Modern

O meu tesouro é o rosto de Deus, pastor de corações que fecha a porta da noite e abre a janela da luz

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». (Do Evangelho do 19.º Domingo do Tempo Comum, 7.8.2016, Lucas 12, 32-48)

Três vezes é repetido um convite: estai prontos, estai preparados. Para quê? Para o esplendor do encontro. E não com um Deus ameaçador, ladrão da vida, que é a projeção dos nossos medos e dos nossos moralismos violentos; mas com o impensável de Deus: um Deus que se faz servo dos seus servos, que «os mandará que se sentem à mesa» e «os servirá». Que se inclina diante do homem, com estima, respeito, gratidão.

A inversão da ideia de um Deus dominador absoluto. O ponto comovente, sublime, desta parábola, o momento extraordinário é precisamente quando acontece o inconcebível: o Senhor faz-se servo, põe-se ao serviço da minha vida.

E eis que Jesus reafirma, para que se imprima bem, esta atitude revolucionária do Senhor: «Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar». E passará a servi-los. Porque ficou encantado.

Que os servos permaneçam na expetativa, despertos até ao amanhecer, não é pedido; não é ditado nem pelo dever nem pelo medo, porque só se espera assim se se ama e se se deseja, e não se vê a hora que chegue o momento dos abraços: «Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração». Um mestre-tesouro para quem aponta diretamente a seta do coração, como o amado do Cântico dos Cânticos: Durmo, mas o meu coração vigia (5,2).

Para o servo infiel, ao contrário, o tesouro é o gosto do poder sobre os outros servos, aproveitando-se da demora do mestre para «começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se».

Para esse servo, que pôs o tesouro nas coisas, o encontro ao fim da noite com o seu senhor será a dolorosa descoberto de ter mortificado a própria vida no momento em que mortificava os outros; a triste surpresa de ter entre as mãos não mais que o choro, os cacos de uma vida equivocada.

A nossa vida é viva quando cultiva tesouros de esperança e de pessoas; vive se guarda um capital de sonhos e de pessoas amadas, pelas quais se preocupar, vibrar e alegrar.

Mas ainda mais, o nosso tesouro de ouro fino é um Deus que tem confiança em nós, ao ponto de nos confiar, como a servos competentes, a casa grande que é o mundo, com todas as suas maravilhas.

Que ventura ter um Deus assim, que nos repete: o mundo é para vós! Podereis cultivar e admirar-lhe a beleza, podereis proteger cada sopro de vida. Sede também guardiães do vosso coração: cultivai-o ao gosto do belo, à arte da sabedoria.

O meu tesouro é o rosto de Deus, a imagem extraordinária, clamorosa, que só Deus ousou: Deus, nosso servidor, que tem como nome Amor, pastor de constelações e de corações, que vem, fecha a porta da noite e abre a da luz, que nos sentará à mesa e passará a servir-nos, as mãos cheias de dons.

 

Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 05.08.2016

 

 
Imagem Coreografia de Boris Charmatz | © Tate Modern
O nosso tesouro de ouro fino é um Deus que tem confiança em nós, ao ponto de nos confiar, como a servos competentes, a casa grande que é o mundo, com todas as suas maravilhas
Que ventura ter um Deus assim, que nos repete: o mundo é para vós! Podereis cultivar e admirar-lhe a beleza, podereis proteger cada sopro de vida. Sede também guardiães do vosso coração: cultivai-o ao gosto do belo, à arte da sabedoria
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