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O mais pequeno órgão soa de maneira fascinante

O mais pequeno órgão soa de maneira fascinante

Imagem D.R.

De abençoada memória continua a noite de 4 de outubro, na qual se procedeu à inauguração do restauro do órgão de armário da igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga, construído por Manuel de Sá Couto, segundo os registos do livro de termos da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, do Colégio de S. Paulo, ou das Chagas, no ano de 1832.



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Sietze De Vries, que veio da Holanda, deu nova vida ao órgão restaurado pela Bottega Organara Giovanni Pradella. O programa constou de cinco momentos musicais: após um ‘Prelúdio’ de órgão, seguiram-se variações sobre o cântico “O Corpo de Jesus é alimento” de A. Cartageno, cujo refrão, emitido em proposição de ‘tema’ para o organista, foi cantado por um grupo de cantores da Schola Cantorum do Seminário, desde o coro alto da igreja. De seguida, em estilo próximo daquele que se designa por ‘prática alternada’, foi interpretada a Salve Regina, em diálogo entre o órgão e o coro. Depois desta atmosfera mística, que transportou os silentes-ouvintes, nas visões segundo o Espírito, aos olhos de Maria, voltaram as variações, agora sobre o cântico “Como o veado anseia” de M. Luís, segundo o modo usado antes para o cântico de A. Cartageno. O quinto momento musical foi dedicado à partita sobre o coral “Von Gott will ich nicht lassen”. No final, depois de demorada salva de palmas, condizente com a gratidão de quem se viu ultrapassado nas mais generosas expectativas, Sietze voltou ao órgão e improvisou sobre a melodia de Johannes Brahms - Op.49 No.4 Wiegenlied.









O concerto desenvolveu-se sobremaneira na prática de ‘alternar’ coro-órgão, motivo pelo qual se perguntou, numa breve entrevista, a Sietze De Vries, se a ‘prática alternada’, amplamente adotada na liturgia católica até aos inícios do século XX, quando cai fora de uso, poderia voltar a ser um recurso contemporâneo e, em caso afirmativo, se seria importante voltar a reintroduzi-la. Conforme se pode constatar pela agenda (sietzedevries.nl/agenda/alle/), Sietze De Vries toca por todo o mundo em órgãos com outros ‘atributos’, que o órgão de armário inaugurado não dispõe. Sendo assim diferente, seria de imaginar que este lhe tivesse colocado desafios. Na sequência da breve entrevista que se lhe fez, ele acaba por referir alguns, cuja importância merece o devido relevo, pois abundam os órgãos ibéricos com semelhantes características.









Naquela melodiosa noite, viveu-se uma hora de grande fascínio, porque do ‘armário’ saiam sons improváveis, segundo a imaginação visionária de Sietze De Vries, que nos tocavam mais o coração e o espírito do que a razão. É admirável o que se pode fazer com escassos recursos. Modestos, claro, mas ainda assim vale a pena apresentar o órgão tal como é, sem adjetivar, para não o reduzir e, desta forma, proporcionar também mais conhecimentos sobre o mesmo.



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O órgão possui 10 meios-registos, que se encontram partidos, segundo a tradição ibérica, entre Dó3 – Dó#3. Além disso, eles dispõem de um mecanismo de pisantes que permite acionar ou silenciar os Cheios. A distribuição fónica é a seguinte: Mão esquerda C1 – c3 (oitava curta): 1 – Violão de 12 (8’); 2 – Flautado de 6 (4’); 3 – Quinzena (2’); 4 – Dezanovena (1.1/3’); 5 – Cheio de 3 vozes. Mão direita cx3 – d5: 6 – Flautado de 12 (8’); 7 – Flauta Doce (tapada de metal) (8’); 8 – Oitava Real (4’); 9 – Dozena (2.2/3’); 10 – Cheio de 3 vozes. Incluída no corpo do próprio órgão, a consola possui um teclado manual, registos com os respetivos manúbrios, e pisantes. No que concerne ao teclado, o órgão tem um Manual com 47 teclas (de Dó1 a Ré5), isto é, de oitava curta. Os manúbrios dos registos encontram-se distribuídos de forma alinhada nos dois lados do teclado, cinco para cada mão. Do ponto de vista das mecânicas, teclas e notas, todos os sistemas para acionar os mecanismos pautam-se por uma notável simplicidade, típica dos órgãos ibéricos, que, de forma direta e também por isso económica, atingem os efeitos pretendidos. A tubaria do órgão conserva-se na íntegra: um total de 322 tubos, dos quais 29 são tapados de madeira, e 293 de metal; destes, 26 são tapados e 267 abertos.



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Segundo as técnicas mais idóneas para instrumentos históricos, o órgão foi restaurado na organaria italiana Giovanni Pradella, que possui longa experiência no restauro de vários órgãos emblemáticos (pradella-organi.it/restauri). Durante o restauro, foram recolhidos cerca de 30 fragmentos manuscritos: correspondência a propósito da aquisição de materiais, litígios e encomendas; desenhos da fachada de um órgão e de sistemas de condução do vento; recibo de dinheiro entregue por um órgão feito para Ponte de Lima; etc. A seu tempo serão publicados, em livro sobre este restauro filológico, com o estudo do conteúdo de todos eles.









Entretanto, o órgão fica ao serviço da liturgia na igreja do Seminário, do ensino do instrumento e, quando se proporcionar, de concertos. Porque ao domingo a igreja é aberta à cidade, todos aqueles que desejarem incentivos à participação litúrgica, também pelas melodias do órgão, venham e usufruam. O Seminário Conciliar deseja partilhar este ‘investimento’, que só foi possível graças ao generoso donativo de um benfeitor, a quem profundamente agradece.







 

Texto (pub. in Diário do Minho): Joaquim Félix
Vídeo e edição: Marta Santos e Dina Fernandes
Fotografia: Tiago Silva, Joaquim Félix, Bili Teixeira
Publicado em 15.11.2017

 

 
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