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O longo fio condutor do pensamento económico do papa Francisco

Na sua pastoral “económica”, o papa não deixa para trás nada nem ninguém. É clara na compreensão mas complexa na argumentação. E muito incisiva nas conclusões. Na entrevista ao diretor do “Sole 24 Ore”, a primeira a um jornal económico e financeiro, Francisco percorre a sua vasta doutrina social, retomando o fio da primeira mensagem, a mais forte de todas, a “Evangelii gaudium”, de 2013, “manifesto” do pontificado: «Esta economia mata” porque coloca no centro de tudo o dinheiro e obedece apenas à sua lógica».

Palavras que então atordoaram e ainda hoje desorientam os puros e duros do mercado. Após esse documento seguiram-se outros fundamentais, entre os quais a encíclica de 2015 “Laudato si’”, fortemente contestada por poderes financeiras norte-americanas, e mais recentemente o texto “Oeconomicae monetária et quaestiones” (com a supervisão da Congregação para a Doutrina da Fé, que no passado se ocupava apenas das heresias...) precisamente sobre a finança.

Todos estes pronunciamentos foram intercalados por uma longa, e totalmente sem precedentes para um papa, série de discursos a recordar sempre a centralidade da pessoa e do trabalho.

Todos os conceitos expressados por Bergoglio em cinco anos e meio de pontificado, e agora reforçados em síntese na entrevista ao “Il Sole 24 Ore”, fundam as raízes na Doutrina Social da Igreja, a arquitrave do pensamento económico católico.



A “Caritas in veritate” representou um passo em frente em relação ao anterior documento económico, a célebre “Centesimus annus”, de João Paulo II, encíclica escrita no centenário da “Rerum novarum”, de Leão XIII, a pedra angular da Doutrina Social da Igreja, um manifesto de justiça no meio da revolução industrial



Francisco não inaugurou um canal de pensamento próprio, como muitas vezes o sublinhou, talvez fruto do substrato cultural latino-americano, como querem fazer passar os seus detratores, especialmente norte-americanas. Tudo está dentro da doutrina: diferente é a maneira de a propor aos católicos e não católicos, em suma, a sua pastoral.

É verdade que nem todos os pontífices declinaram a doutrina da mesma maneira, mas é indubitável que há um fio condutor que os une. Bento XVI, o papa-teólogo, guiou a Igreja num período atormentado não só por questões internas do mundo eclesial, mas também no período da explosão e posterior desenvolvimento da crise financeira e económica: já em 2008 pensou publicar um documento, mas esperou alguns meses por causa do progresso devastador da conjuntura. E em junho de 2009 publicou a encíclica “Caritas in veritate”, onde enfrentou de peito aberto as questões da desigualdade e da imoralidade das especulações financeiras. Um texto decisivo, em que era clara a marca de Ratzinger era clara, com a presença dos temas do ateísmo, relativismo e sexualidade.

O pronunciamento representou um passo em frente em relação ao anterior documento económico, a célebre “Centesimus annus”, de João Paulo II, encíclica escrita pelo papa polaco no centenário da “Rerum novarum”, de Leão XIII, a pedra angular da Doutrina Social da Igreja, um manifesto de justiça no meio da revolução industrial, que tinha criado uma classe de explorados, presas fáceis, entre outras coisas, das galopantes ideias socialistas. A “Centesimus annus” é um documento fundamental, talvez o ponto de maior proximidade entre a doutrina católica e o capitalismo clássico.



A encíclica “Quadragesimo anno”, de 1931, ainda estudada a fundo e capaz de inspirar o nascimento de uma fundação para o estudo do pensamento económico da Igreja, descreve os danos de um capitalismo incontrolado. Ao lê-lo, parece um texto escrito hoje ou há 10 anos, no máximo



O contexto é importante: estávamos em 1991, o Leste de onde o papa vinha tinha recentemente aberto as portas, e no pensamento da Igreja global de João Paulo II tinha espaço a influência de filósofos e economistas norte-americanos, que haveriam de ter acolhimento (ainda que em menor medida) de Bento XVI.

Não foi esse o único documento económico-social de João Paulo II: antes tinha redigido, em 1981, a “Laborem exercens” – que remetia o trabalho para o centro da vida social, tema por ele bem conhecido, tendo em conta o seu passado de operário – e “Sollicitudo rei socialis” (1987), sobre a livre iniciativa económica, a ler com um olhar crítico para os sistemas centralizados comunistas.

Foi, portanto, um caminho bastante rápido, dados os tempos da Igreja, a anos de distância da fundamental “Populorum progressio”, de Paulo VI, amplamente citada pelo papa Francisco na entrevista ao “Sole 24 Ore”, em que Montini, pouco tempo após ter encerrado o concílio Vaticano II (1962-1965) (que grandes esperanças tinha acendido no mundo católico), enfrentou os problemas do mundo, antecipando, de alguma maneira, a globalização, exortando os estados a enfrentar os desafios da humanidade, dividida entre ricos e pobres. A novidade é forte: passa-se de uma abordagem "caritativa", portanto circunscrita, para o envolvimento das responsabilidades das nações, numa fase de desenvolvimento económico impetuoso e desordenado.

Para reencontrar um pilar da Doutrina Social da Igreja é preciso remontar a Pio XI e à sua encíclica “Quadragesimo anno”, redigida por ocasião dos 40 anos da “Rerum novarum”. Um documento que sai em 1931, menos de dois anos depois da queda da bolsa de Wall Street e do início da grande depressão. O texto do papa Ambrogio Ratti, ainda estudado a fundo e capaz de inspirar o nascimento de uma fundação para o estudo do pensamento económico da Igreja, descreve os danos de um capitalismo incontrolado. Ao lê-lo, parece um texto escrito hoje ou há 10 anos, no máximo. Precisamente quando começou a última crise, com a queda da Lehman Brothers.


 

Carlo Marroni
In Il Sole 24 Ore
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kasto/Bigstock.com
Publicado em 07.09.2018

 

 
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