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O "habitat" artístico de Joaquim Simões da Hora

O "habitat" artístico de Joaquim Simões da Hora

Imagem Capa | D.R.

A editora Portugaler – com o trabalho de produção, direção e masterização de Tiago Manuel da Hora, Jorge Simões da Hora e Paulo Jorge Ferreira – fez chegar ao público uma nova edição discográfica, num suporte material muito cuidado, com gravações inéditas do organista Joaquim Simões da Hora (1941-1996): «Joaquim Simões da Hora: in concert». Trata-se de registos constantes no arquivo da RDP-Antena 2 e no Espólio Hora.

Joaquim Simões da Hora faleceu de forma "apressada" em 1996, depois de se ter tornado uma das mais importantes referências da arte organista em Portugal, impacto que se alargou ao circuito ibérico e a outras redes internacionais. Desde 1976 que dava aulas na Escola de Música do Conservatório Nacional, exercício que se contratualizou, de forma estável, a partir de 1977. Nessa altura estabeleceu uma forte relação com Rui Vieira Nery – membro da Comissão Diretiva – e com Manuel Morais, triângulo decisivo, sob a inspiração de Santiago Kastner, na construção de um campo interpretativo para a chamada Música Antiga Ibérica, em Portugal. O seu trabalho pedagógico não se reduziu à esfera da classe de órgão da EMCN. Simões da Hora, com o grupo antes referido, está na origem das «Semanas de Música Antiga Ibérica», mais tarde «Semanas Internacionais de Música Antiga», que a par dos cursos de música antiga da "Casa de Mateus" marcaram renovação interpretativa da chamada Música Antiga, com uma particular atenção a critérios de verosimilhança histórica.

Para além do seu trabalho no âmbito da interpretação, da docência e da programação, não podemos esquecer a sua relevância no domínio da edição discográfica. Fez parte do projeto Nova, editora que, na década de 80 viria a ser comprada pela Dacapo, onde permaneceu até ao final da década. Em 1989, abraçou o projeto da Movieplay Portuguesa, onde construiu um projeto de edição de música erudita. As gravações da Nova Filarmónica Portuguesa,sob a direção de Álvaro Cassuto, constituem uma das faces mais conhecidas deste projeto.



No espírito de comemoração do ano de 2016, quando passavam 20 anos da sua morte e 75 sobre o seu nascimento, encontramo-nos com Joaquim Simões da Hora na intimidade do que lhe era mais natural: o jogo da interpretação em concerto. O reencontro com esse habitat artístico faz deste objeto um exercício singular de rememoração e transmissão cultural



Quando o conheci, como aluno, na Escola de Música do Conservatório Nacional, o seu vasto interesse pelo domínio da edição discográfica revelava-se a cada recanto de conversa. O diálogo sobre reportórios remetia imediatamente para uma apreciação das interpretações disponíveis. A conversa era generosa. E os gestos também. Como a minha era, na Escola, a sua última aula, beneficiava com frequência de uma boleia até à avenida de Berna, onde, na igreja de Nossa Senhora de Fátima, estudava diariamente. Essa viagem era, para mim, uma montra de novidades editoriais, que ele carregava no carro, equipado de acordo com as mais elevadas exigências audiófilas. A sua atenção centrada na capacidade inventiva do intérprete marcava, de forma impressiva, todos os seus comentários. Privilegiando um reportório histórico onde era relativamente dilatada a margem de decisão deixada ao intérprete – nomeadamente, no que concerne à ornamentação –, Joaquim Simões da Hora tinha uma consciência desenvolvida do papel do intérprete musical. A poética da interpretação estava, para ele, muito para além da ideia de execução.

O contacto com esta nova edição da Portugaler tem, para mim, aquele «ar de família» que nos traz um conforto incomparável. Encontramos de forma muito evidente «o seu som». De facto, descobre-se neste CD um conjunto de obras que estão no centro da sua atividade pedagógica e interpretativa: entre outros, o rigor afetuoso da sua leitura das obras de António Carreira, a profundidade interior da sua visita a Frescobaldi, a ductilidade métrica da sua interpretação da célebre Batalha de 5º tom de Diogo da Conceição, subtilidade da sua visão da arte de glosar de Francisco Correa de Arauxo, a visão colorística da Messe pour les couvents de Couperin, ou a festa das suas próprias improvisações, ingrediente canónico na dramática própria dos concertos de órgão.

Resultando da gravação de concertos realizados na sé de Lisboa, na sé de Évora e na igreja de São Vicente de Fora, este CD é, pois, um lugar de autenticidade. No espírito de comemoração do ano de 2016, quando passavam 20 anos da sua morte e 75 sobre o seu nascimento, encontramo-nos com Joaquim Simões da Hora na intimidade do que lhe era mais natural: o jogo da interpretação em concerto. O reencontro com esse habitat artístico faz deste objeto um exercício singular de rememoração e transmissão cultural.

Na minha própria atividade de composição, a celebração desta memória deu origem à estreia da obra «Diferencias II», que dediquei a Simões da Hora, pelo agrupamento «Entre Madeiras Trio» (Concerto aberto, Antena 2, 8.10.16).  O trabalho composicional explorou os materiais melódicos de um canto recolhido no Llibre Vermell de Monserrat, sinalizando a lembrança do meu encontro, na companhia do organista, com os enigmas de diversos reportórios históricos. («Diferencias II» acontece, também, 20 anos depois de «Diferencias I», obra muito marcada pelo itinerário de descoberta que percorri com o compositor Jorge Peixinho –  é, portanto, uma obra entre-mundos).









 

Alfredo Teixeira
Antropólogo e compositor
Publicado em 23.03.2017

 

 
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