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O grande mistério da visitação

Imagem Visitação (det.) | Jacopo Pontormo | C. 1529 | Igreja de S. Francisco e Miguel, Carmignano, Itália

O grande mistério da visitação

Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio. Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor» (Lucas 1, 39-45, Evangelho do 4.º Domingo do Advento).

O quarto Evangelho confessa de modo doxológico, isto é, glorioso: «A Palavra fez-se carne e pôs a sua tenda entre nós» (João 1, 14), e também os Evangelhos sinóticos testemunham que a Palavra de Deus se humanizou no meio de nós em Jesus de Nazaré.

Lucas, em particular, é o evangelista que quer determinar quando e como esta Palavra, bem antes de aparecer publicamente, habitou no meio de nós, e com audácia narra-nos o próprio momento em que, segundo as palavras do mensageiro de Deus, o poder do Espírito Santo estende a sua sombra sobre Maria (cf. Lc 1, 35), uma jovem virgem de Nazaré, e a torna mãe de um filho de Adão que só Deus nos podia dar: o seu Filho!

Assim, no escondimento, no silêncio acontece a humanização de Deus: desde aquela conceição a Palavra de Deus está no meio de nós e Maria, a mãe de Jesus, é a tenda na qual Ele toma morada.

Segundo Lucas, esta Palavra, este “lógos toû theoû”, inicia uma viagem, vive entre os homens, de Nazaré a Jerusalém e de Jerusalém até aos extremos confins do mundo, até Roma. Eis o curso da Palavra, a evangelização que começa – esquece-se isto demasiadas vezes – com o caminho, a viagem de uma mulher, de Maria, a mãe do Filho de Deus.

Sim, porque Maria, logo que recebeu o anúncio da sua gravidez, por um impulso interior causado pelas palavras do anjo, que ao revelar a sua maternidade lhe revelou também a fecundidade do ventre de Isabel, sua prima, mete-se a caminho, apressadamente, a pressa escatológica, em direção à montanha da Judeia.

Da Galileia à Judeia, de Nazaré à periferia de Jerusalém, uma viagem de poucos dias. O que é que motiva Maria? A caridade para com a idosa Isabel, que todos dizem ser «a estéril», mas também a ânsia de comunicar a boa notícia, o evangelho recebido do anjo, bem como o desejo de ouvir a prima enquanto mulher na qual Deus fez maravilhas.

Maria surge logo como mulher de caridade, mulher missionária. E eis o encontro entre as duas mulheres: Maria entra na casa de Zacarias, marido de Isabel, sacerdote que está sem voz, pelo que não pôde dar a bênção ao povo no templo, após o anúncio do anjo sobre o nascimento de um filho da sua mulher (cf. Lc 1, 8-22).

Entrando em casa, Maria saúda Isabel: uma mulher grávida diante de outra mulher grávida, ambas nesta condição em virtude da graça e do poder de Deus, que tornou fecundo os seus ventres, um virgem, outro estéril; ambos portadores de um filho querido por Deus, tendas para dois embriões nos quais vive uma extraordinária e única vocação da parte de Deus.

O filho de Maria manifestar-se-á como Messias, Filho do Deus Altíssimo, rei sobre o trono de David; o filho de Isabel como aquele que «caminhará à frente do Messias com o espírito e o poder de Elias», profeta repleto de Espírito Santo ainda antes de nascer. Eis assim duas mulheres e duas promessas.

E logo que a saudação de Maria chega a Isabel, comunicando-lhe o “shalom”, o bebé, ao sexto mês no ventre desta última, começa a dançar, exulta, dá pontapés de alegria, como só as mães sabem reconhecer... Nesse preciso momento, o Espírito Santo desce sobre Isabel para a encher, e ao menino, da sua presença e da sua força. Assim, de facto, Maria causa o primeiro Pentecostes cristão: o Espírito descido sobre ela na hora da anunciação, agora, graças à sua presença, desce sobre Isabel e sobre o próprio João.

Esta narrativa provoca vertigens: o Messias Jesus, ainda não nascido mas presente no ventre da mãe Maria, encontra o percursor, profeta presente também ele no ventre da mãe Isabel, e, reconhecido, causa a alegria, a exultação, a dança, como a de David diante da arca da presença do Senhor (cf. 2 Samuel 6, 12-15).

Ocorre então o encontro com Cristo da parte de toda a profecia que o precedeu, profecia de Israel mas também dos gentios, que discerne a vinda daquele que vem, tão desejado e profetizado; e este reconhecimento provoca a dança adorante e jubilosa pelo cumprimento das promessas de Deus.

Tudo isto sucede graças a duas mulheres que se encontram. Isabel, repleta de Espírito Santo, torna-se capaz de interpretar a dança do seu bebé no ventre, e assim exclama, com uma aclamação litúrgica: «Tu, Maria, és bendita entre todas as mulheres, és bem-aventurada porque acreditaste na Palavra do Senhor, és a mãe do meu Senhor!».

Isabel não reconhece naquela gravidez só a fecundação divina, mas confessa que aquele embrião é o Senhor concebido por Maria através do poder do Espírito Santo. Sim, o filho de Maria é o Cristo Senhor anunciado pelo Salmo 110, e por isso Maria é o Israel abençoado, a terra abençoada porque contém a bênção plena e definitiva de Deus para toda a humanidade.

São tantas as mulheres abençoadas na história da salvação, mesmo se as esquecemos com demasiada facilidade: de Sara a Isabel, com efeito, a sua presença nas Escrituras é contínua. Mas Maria, precisamente enquanto mãe do senhor, é a bendita entre todas, é ela que todas as gerações proclamarão “bem-aventurada”!

Isabel, ainda que consciente do que Deus realizou no seu ventre estéril, sabe compreender esta diferença: Maria é a arca da aliança, o lugar da presença de Deus no mundo, o sítio em que é localizável, individuável o Deus feito carne.

Aqui o mistério é grande: mistério do Deus escondido, escondido num bebé ainda anónimo, isto é, ainda sem a imposição humana do nome, mas com um nome que agrada a Deus: Jesus, “o Senhor salva”. Ao mesmo tempo, mistério da profecia, em João, ainda sem voz, mas que nele já sabe indicar aquele que vem, o Senhor, porque sabe desde já viver a vocação de precursor.

Tudo isto no útero de duas mulheres que falam uma à outra, que se escutam e se alegram, louvando Deus. O som da voz de Maria chega a Isabel, que “canta” para ela e por ela; a confissão da fé de Isabel chega a Maria, que canta o Magnificat.

Estas não são pré-histórias do Messias, mas é a história do Messias, do Filho de Deus feito humano entre nós: disto são eloquentes duas mulheres, Isabel e Maria, mulheres capazes de fé na Palavra do Senhor.

E como não dizer alguma coisa dos dois homens implicados nesta história? Zacarias está mudo, sem voz por causa da sua pouca fé; José pensa repudiar Maria em segredo. Certamente não eram capazes de fé como as suas esposas, nem eram capazes de relacionamentos, de cuidado do outro e de caridade, como são estas duas mulheres.

 




 

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In Monastero di Bose
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.12.2015

 

 
Imagem Visitação | Jacopo Pontormo | C. 1529 | Igreja de S. Francisco e Miguel, Carmignano, Itália
Entrando em casa, Maria saúda Isabel: uma mulher grávida diante de outra mulher grávida, ambas nesta condição em virtude da graça e do poder de Deus, que tornou fecundo os seus ventres, um virgem, outro estéril; ambos portadores de um filho querido por Deus, tendas para dois embriões nos quais vive uma extraordinária e única vocação da parte de Deus
E logo que a saudação de Maria chega a Isabel, comunicando-lhe o “shalom”, o bebé, ao sexto mês no ventre desta última, começa a dançar, exulta, dá pontapés de alegria, como só as mães sabem reconhecer... Nesse preciso momento, o Espírito Santo desce sobre Isabel para a encher, e ao menino, da sua presença e da sua força
São tantas as mulheres abençoadas na história da salvação, mesmo se as esquecemos com demasiada facilidade: de Sara a Isabel, com efeito, a sua presença nas Escrituras é contínua. Mas Maria, precisamente enquanto mãe do senhor, é a bendita entre todas
Estas não são pré-histórias do Messias, mas é a história do Messias, do Filho de Deus feito humano entre nós: disto são eloquentes duas mulheres, Isabel e Maria, mulheres capazes de fé na Palavra
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