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O gosto amargo da agressão

Imagem D.R.

O gosto amargo da agressão

«Raparigas que frequentavam a minha escola gozavam com um rapaz com deficiência no autocarro, levando-o a fazer coisas estúpidas de que todas riam, ou então colocavam fora da janela o seu boneco preferido, fazendo-o acreditar que o tinham deitado fora, e ele chorava...»

Se na internet procurar por "histórias de "bullying" (intimidação)", esta é a mais "inocente" que se pode encontrar: uma criança com deficiência que chora porque os companheiros se riem dele e o fazem sofrer, ameaçando também o seu peluche. Há bem pior, humilhações, vexações e, como se não bastasse, gravadas por quem as comete.

Em agosto foi divulgada uma sondagem realizada pela UNICEF segundo a qual dois em cada três jovens de 18 países afirmavam ter sido vítimas de "bullying", e nove em dez afirmavam acreditar que esse é um problema generalizado nas suas comunidades. E em 2015 mais de um terço dos inquiridos num estudo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima admitia conhecer situações de crianças ou jovens vítimas de violência, mas menos de metade denunciou o caso.

Não estamos já perante episódios isolados, tratando-se antes de uma estranha crueldade que se espalha entre os mais jovens. O próprio Presidente da República de Itália pronunciou-se esta semana sobre o tema, referindo-se ao «odioso fenómeno de fúria contra quem não se conforma, ou simplesmemente é visto e perseguido como fraco ou como "diferente"».

Também nestes dias apareceu nos jornais e na internet a história de Emilie, jovem de 17 anos francesa que pôs termo à vida após uma longa série de perseguições na aula. Ela morreu mas os pais tornaram público o seu diário: é incrível como nenhum professor viu e como em casa ninguém se apercebeu de nada. Como é possível morrer-se aos 17 anos porque os companheiros te atormentam enquanto não te vestes, falas e és como eles?

A emergência de notícias de tragédias como esta, que não sucedem pela primeira vez, leva a geração dos adultos a colocar-se perguntas. Será que nós, quando jovens, éramos assim tão cruéis?, perguntamo-nos. E voltando atrás com a memória recordamos que também então havia os grupos, as divisões intransponíveis, os hábitos que marcavam a pertença a determinados bandos; que havia maldade e marginalização, frequente, dos mais tímidos; e todavia não recordamos que se chegasse a maltratar alguém com deficiência, a persegui-lo metódica e organizadamente como aquele que lemos hoje.

Parece quase que às novas gerações falta o sentido de um limite, de uma linha inultrapassável entre a brincadeira de mau gosto e a autêntica perseguição. E, ao mesmo tempo, que se tenha difundido em tantos uma espécie de perceção de impunidade, de tal maneira que não hesitam filmar as cenas que manifestamente os acusam.

É verdade que o advento dos telemóveis revolucionou também a adolescência, e um "smartphone" ou um computador na mão de rapazinhos podem tornar-se um jogo destrutivo. Mas para além das dramáticas derivas da agressão cibernética, permanece uma pergunta de fundo: esta crueldade espalhada, de onde vem e porquê?

Quando quem comete certas violências são jovens de 15 ou 16 anos, e até menos, parece claro que pais e mães devem questionar-se. Ter-se-á sido talvez demasiado condescendente com esta geração de filhos, muitas vezes únicos, a que se deu materialmente também demasiado? Um filho assemelha-se a um rio: precisa de uma direção e de duas margens.

Ora, lendo estas histórias, parece que a direção dada é muitas vezes confusa e faltam as margens. As margens, os limites inultrapassáveis, eram nas velhas famílias uma tarefa paterna; e talvez este nosso tempo, que combateu e atropelou tanto o pai como todo o princípio de autoridade, nos deixe agora ver o que resta, quando se destrói completamente um eixo fundamental da educação.

Ou até mesmo a desordem que vemos é o fruto de um elo interrompido na transmissão geracional: no domínio do relativismo absoluto alarga-se uma aura de incerteza sobre o que está bem e sobre o que está indiscutivelmente mal.

Contra a deriva do "bullying" «é necessário um grande pacto entre escola, família, forças da ordem, magistratura, mundo das comunicações sociais e do espetáculo. Uma ação conjunta, capaz não apenas de reprimir mas, sobretudo, de prevenir, com uma verdadeira e própria campanha educativa que chegue ao coração e à mente dos jovens», declarou o Presidente italiano.

Será bem-vinda esta ação conjunta, partilhada e incisiva. Sem esquecer que cada um de nós que tem filhos sabe o quão pouco se educa com as palavras, inclusive com as melhores; e quanto, ao contrário, com o próprio ser, com o que os filhos veem em nós.

Um rapaz que atormenta um companheiro mais fraco ou "diferente" - pela pele, pela personalidade ou por qualquer outro motivo - deverá, antes de tudo, colocar uma iniludível pergunta aos seus pais: onde e como aprendeu esse desprezo e esse amargo gosto de prevaricar, de humilhar. E apelar a uma resposta útil e reconstrutiva.

 

Marina Corradi
In "Avenire"
Trad./adapt.: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.10.2016

 

 
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Parece quase que às novas gerações falta o sentido de um limite, de uma linha inultrapassável entre a brincadeira de mau gosto e a autêntica perseguição. E, ao mesmo tempo, que se tenha difundido em tantos uma espécie de perceção de impunidade, de tal maneira que não hesitam filmar as cenas que manifestamente os acusam
Quando quem comete certas violências são jovens de 15 ou 16 anos, e até menos, parece claro que pais e mães devem questionar-se. Ter-se-á sido talvez demasiado condescendente com esta geração de filhos, muitas vezes únicos, a que se deu materialmente também demasiado? Um filho assemelha-se a um rio: precisa de uma direção e de duas margens
Será bem-vinda uma ação conjunta, partilhada e incisiva. Sem esquecer que cada um de nós que tem filhos sabe o quão pouco se educa com as palavras, inclusive com as melhores; e quanto, ao contrário, com o próprio ser, com o que os filhos veem em nós
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