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O gesto de transmitir: Do interior para o limiar, dos códigos às testemunhas

Transmitir uma herança cultural faz parte das tarefas de cada geração em relação àquelas que vêm depois, e envolve totalmente uma instituição de longa tradição como a Igreja, que neste processo acumulou uma experiência milenar, mas que hoje se ressente das dificuldades que caracterizam todo o tipo de transmissão na sociedade contemporânea.

O pequeno mas intenso livro de Nathalie Sarthou-Lajus, “Le geste de transmettre”, enfrenta o coração do problema, que se pode sintetizar num verso do poeta René Char: «A nossa herança não é precedida de qualquer testamento». Numa sociedade que perdeu toda a certeza cultural, com efeito, a transmissão deixou de ser enquadrada por um testamento que lhe explique o sentido e a função na vida humana.

A Igreja tem obviamente esse testamento, e é bem claro a todos, mas isso não impede que também seja contagiada pela crise global que esvazia de significado este gesto. Antes de tudo porque transmitir significa inscrever o ser humano na cadeia de gerações, fazer-lhe compreender que ele é um entre os outros. É um gesto difícil de aceitar para uma cultura que faz da especificidade individual o seu mito, especificidade que se constrói através de um processo solitário, muitas vezes imitando modelos veiculados pelos meios de comunicação social, e não entendida como possibilidade autónoma de se ser amado pessoalmente por Deus.

Os jovens, assim, desinteressam-se pela transmissão codificada e que opera através de canais tradicionais, e hoje podem receber uma tradição só de testemunhas verdadeiras, que saibam fazer passar alguma coisa de si mesmas aos outros. A transmissão, então, pode ocorrer exclusivamente no interior de uma relação fundada na confiança pessoal. E, como sublinha a autora, o lugar da transmissão, hoje, pode ser apenas um limiar, uma porta que cada um pode abrir pessoalmente se tem a sensação de que, fazendo-o, terá acesso à verdadeira vida. Só num limiar, mais do que no interior de um espaço definido, podemos dar lugar ao outro, às suas inquietudes existenciais, às suas preocupações afetivas. Trata-se de uma forma de reconhecimento pessoal que pode abrir as portas à promessa e à esperança.

Devemos, além disso, recordar que grande parte da transmissão ocorre de forma inconsciente. Vem à minha mente o comentário da minha filha, que via comigo a transmissão televisiva da abertura da porta santa na basílica de S. Pedro, no Vaticano, para o Jubileu da Misericórdia, e que no fim me perguntou: «Mas o ano santo é só para os homens? Não vi nenhuma mulher atravessar a porta…». Faltavam precisamente aquelas mulheres que durante séculos transmitiram a fé em silêncio, ensinando os filhos a rezar e a participar na missa, dando importância ao momento da iniciação aos sacramentos com uma festa especial. Essas mulheres que souberam transmitir a fé «no dialeto da família», como observou o papa Francisco.

Hoje essas mulheres estão a afastar-se da Igreja, e a transmissão já não pode continuar a ser entendida como «a conservação de uma ordem fixada antecipadamente», mas como «um processo dinâmico e criativo» que coloca em jogo o desejo e a decisão de cada indivíduo. No que diz respeito aos outros, sobretudo aos jovens, todos devemos colocarmo-nos no limiar e estar sempre em tensão, na posição daquele que transmite numa dinâmica perene, porque a herança só é viva se é recolhida num percurso de reapropriação pessoal que permite construir um ser humano livre.



 

Lucetta Scaraffia
In L'Osservatore Romano
Trad.: SNPC
Imagem: Mia6/Bigstock.com
Publicado em 14.01.2018

 

 
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