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Cinema: “O exame”, prémio para melhor realizador em Cannes 2016

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Imagem Póster (det.) | D.R.

Romeo é um médico de quase 50 anos que vive numa pequena cidade da Transilvânia. Desiludido por um matrimónio que é um falhanço e por um país reduzido a farrapos, o homem coloca toda a esperança na sua filha Eliza (Maria-Victoria Dragus), de 18 anos, que em breve concluirá o ensino secundário e prosseguirá os estudos em Inglaterra. Porém, no dia antes do exame, a jovem é agredida na rua de caminho para a escola, e Romeo começa a pôr em causa todos os princípios em que sempre acreditou.

Presença regular em Cannes, o cineasta romeno Cristian Mungiu, já vencedor da Palma de Ouro em 2007, com “4 meses, 3 semanas, 2 dias”, regressou em 2016, quatro anos depois de “Para lá das colinas”, com que venceu o prémio de Melhor Argumento, tendo desta vez saído de França com o prémio para Melhor Realizador, ex-áqueo com “Assyas”, com “Personal shopper”.

“O exame” é um filme seguro, menos “poderoso” do que os dois acima citados, mas não menos importante. Não é por acaso que a narrativa abre com uma pedra que parte uma janela da casa da família de Romeo (Adrian Titieni): um gesto inexplicável, seguido durante o filme por outros pequenos sinais, como os limpa para-brisas do automóvel levantados.

Estes fenómenos são, de alguma forma, a voz da consciência, da inocência, talvez, como se compreenderá a caminho do fim do filme, no parque infantil, onde o filho de Sandra, amante do protagonista, atira uma pedra para quem «não queria respeitar as regras».



«Os seres humanos são impacientes, querem tudo e já. Não sabem construir aos poucos uma sociedade melhor para o futuro. São como o pai do filme, disposto a fazer tudo para fazer a filha sair do país. Como se a felicidade estivesse já preparada noutro lugar»



Devedor, sobretudo na primeira parte da narrativa, de uma certa marca do realizador polaco Krzysztof Kieślowski no que diz respeito ao desenvolvimento das situações e dos personagens (a centralidade do caso, a presumível integridade do personagem central, a desarmante apatia da mãe de Eliza, as dúvidas desta sobre o que, na realidade, queria que fosse a sua vida após o diploma), Mungiu demonstra mais uma vez ser um hábil argumentista e um formidável cineasta, capaz de indagar nas dobras da humanidade sem nunca abdicar dos princípios sagrados de uma encenação radical e reconhecível.

Da clandestinidade de um direito, passando pelos dolorosos erros cometidos em nome da fé, o realizador detém-se desta vez na hipocrisia sistemática de quem, em nome do resultado, está pronto a reconsiderar todas as convicções. Não é o caso de Eliza, porém cuja decisão final abre uma espiral de esperança para que as coisas possam realmente mudar.

Entre a solidez moral e o compromisso que abre para a corrupção, Mungiu não cessa de antepor a dúvida: ir embora seria, seguramente, um bem para si próprio; pelo contrário, permanecer poderá tornar-se em amanhã para o destino de todo um país.

«Os seres humanos são impacientes, querem tudo e já. Não sabem construir aos poucos uma sociedade melhor para o futuro. São como o pai do filme, disposto a fazer tudo para fazer a filha sair do país. Como se a felicidade estivesse já preparada noutro lugar», declarou o cineasta no contexto da apresentação do filme em Itália.



«Vejo indivíduos cada vez mais irracionais, vejo crescer os fanatismos. E, honestamente, não sei dizer se as novas gerações saberão inverter a rota. Educando-as segundo a justiça, agirão em consequência; espero-o, mas não estou certo disso»



Mungiu, de 48 anos, não acredita no país da utopia nem em situações fáceis para o futuro: «Realizo filmes, procuro a verdade, não um final consolador. O que vejo é um mundo que, apesar de globalizado, se torna cada vez mais pequeno, um mundo no qual é impossível encontrar um abrigo».

«Vejo indivíduos cada vez mais irracionais, vejo crescer os fanatismos. E, honestamente, não sei dizer se as novas gerações saberão inverter a rota. Educando-as segundo a justiça, agirão em consequência; espero-o, mas não estou certo disso», afirmou.

Deste círculo vicioso não é possível sair «se o indivíduo não se interrogar seriamente, racionalmente, sobre o seu lugar no mundo, sobre a possibilidade de o influenciar e de o mudar para melhor. Não basta um só homem, é preciso um esforço coletivo».









 

Valerio Sammarco (cinematografo.it), Gianluca Arnone (cinematografo.it)
Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 25.11.2016

 

Título: O exame
Realização: Cristian Mungiu
Interpretação: Vlad Ivanov, Maria Dragus, Ioachim Ciobanu
Género: Drama
Origem/ano: Roménia/2016
Duração: 128 min.
Classificação etária: M/12
Estreia em Portugal: 24/11/2016

 

 
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