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O Evangelho da vocação cristã

Imagem Chamamento de Pedro e André (det.) | Duccio | 1308-11 | National Gallery of Art, Washington, EUA | D.R.

O Evangelho da vocação cristã

Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram Jesus. Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertar as redes; e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus. (Marcos 1, 14-20, Evangelho do 3.º Domingo do Tempo Comum)

Cada um de nós, sobretudo se é idoso, vive muitas vezes com as suas lembranças do passado, em particular aquelas que remetem para um início, o começo de uma sequência de acontecimentos importantes, um amor que marca para toda a vida.

Também o cristão realiza esta operação de procurar no passado, como que para o reviver, a hora da conversão; ou melhor, a hora da vocação, quando ele se tornou consciente, no seu coração, de que talvez Jesus desejasse um maior envolvimento na sua vida do que até então.

A página do Evangelho deste domingo quer ser precisamente uma narração da vocação, em que pode espelhar-se quem se predispõe a tudo para escutar o chamamento de Jesus, ou constituir a oportunidade para a recordar como um acontecimento do passado, que pode continuar ou não a ter força ou significado.

Jesus regressa à Galileia, a terra da sua infância, para iniciar a proclamação de uma mensagem que sentia dentro de si como uma missão da parte de Deus Pai.

Começa esta vida de pregação e de itinerância depois que João, o seu rabino, aquele que o educou na vida conforme à aliança com Deus, e que também o imergiu nas águas do rio Jordão (cf. Marcos 1, 9), foi metido na prisão com Herodes. É o fim de quem é profeta, e Jesus desde logo se apercebe de que se quer continuar o caminho do seu mestre, mais cedo ou mais tarde conhecerá a perseguição e a morte violenta.

Jesus começa a proclamar a boa notícia, o Evangelho de Deus, consciente de que o tempo da preparação, para Israel o tempo da expetativa dos profetas, que o tempo da paciência de Deus chegou ao seu cumprimento, como o tempo de uma mulher grávida.

No fim da gestação acontece o parto, e assim Jesus anuncia: «Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e acreditai no Evangelho». Eis a síntese da sua pregação: é o início de um tempo novo em que é possível fazer reinar Deus na vida dos homens.

Para que isto suceda, é preciso converter-se, voltar a Deus, e depois acreditar na boa notícia que é a presença e a palavra do próprio Jesus. Sim, é apenas um versículo que diz esta novidade, e todavia é o início de um tempo que chega até hoje e aqui: é possível que Deus reine em mim, em ti, em nós, e assim acontece a vinda do Reino de Deus.

Perante esta jubilosa notícia, mas também perante esta nova possibilidade oferecida pela presença de Jesus, estamos nós, homens e mulheres, que continuamos hoje a escutar o Evangelho. O que fazemos? Como reagimos?

Estamos talvez a viver o nosso dia a dia dedicados ao nosso trabalho, às nossas ocupações quotidianas, quaisquer que sejam, para ganhar o nosso sustento; ou estamos num momento de pausa; ou estamos a falar com outros… Não há uma hora pré-estabelecida. De repente, no nosso coração, sem que os outros se apercebam, acende-se uma chama.

«Será? Será que escuto uma voz? Conseguirei responder “sim”? Será uma voz que me chama a partir? Para onde? A seguir quem? Jesus? E como faço? Será possível?»

Muitas perguntas que se intersetam, desaparecem e regressam; mas se são escutadas com atenção, pode acontecer que nelas se ouça uma voz mais profunda em nós mesmos, uma voz que vem de fora de nós mesmos e, todavia, através de nós mesmos: a voz de Jesus. É assim que se inicia uma relação entre cada um de nós e Ele, sim, Ele, o Senhor, presença invisível mas viva, presença que não fala de maneira sonora, mas atrai…

Aqui, no Evangelho de domingo, este processo de vocação é sintetizado e, por assim dizer, estilizado pelo autor, que narra só o essencial: Jesus passa, vê e chama; alguém escuta e leva a sério a sua palavra «segue-me», e envolve-se na sua vida.

É isto que é verdadeiro para todos, e é inútil dizer mais: seria apenas ir atrás de processos psicológicos… Mas o essencial está dito, de uma vez por todas: escuta-se a vocação, abandona-se as redes, isto é, a profissão, deixa-se o pai e a barca, ou seja, a família, e assim, no despojamento, segue-se Jesus.

Atenção, porém: a vocação é uma aventura repleta de grandeza, mas também de miséria. Para compreendê-lo, é suficiente seguir nos Evangelhos a vida dos primeiros quatro chamados.

O primeiro, Pedro, em quem Jesus muito confiou, vivendo próximo dele muitas vezes nada entende dele (cf. Marcos 8, 32; Mateus 16, 22), ao ponto de Jesus o ter chamado de “Satanás” (Marcos 8, 33; Mateus 16, 23); chega a estar tão distante de Jesus que o contradiz (cf. João 13, 8); abandona-o para ir dormir (cf. Marcos 14,37-41 e paralelos); e, por fim, renega-o, diz que nunca o conheceu (cf. Marcos 14, 66-72 e par.; João 18, 17.25-27).

André, Tiago e João não compreendem Jesus em muitas situações, interpretam mal as suas palavras e desconhecem o seu coração; os dois filhos de Zebedeu, em particular, são asperamente criticados por Jesus quando invocam um fogo do céu para punir quem não os ouviu (cf. Lucas 9, 54-55); e também eles, no Getsémani, adormecem juntamente com Pedro.

Mas há mais, e Marcos sublinha-o implacavelmente: aqueles que «abandonando tudo seguiram Jesus», na hora da paixão, «abandonando Jesus, fugiram todos» (14, 50)…

Pobre seguimento! Sim, o meu seguimento, o teu seguimento, caro leitor. Não teremos muito de que nos vangloriar. Devemos apenas invocar da parte de Deus muita misericórdia e agradecer-lhe, porque, não obstante tudo, continuamos ainda atrás de Jesus, e tentamos ainda, dia após dia, viver com Ele.

 

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In "Mosteiro de Bose"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 24.01.2015

 

 
Imagem Chamamento de Pedro e André (det.) | Duccio | 1308-11 | National Gallery of Art, Washington, EUA | D.R.
Não há uma hora pré-estabelecida. De repente, no nosso coração, sem que os outros se apercebam, acende-se uma chama
Muitas perguntas que se intersetam, desaparecem e regressam; mas se são escutadas com atenção, pode acontecer que nelas se ouça uma voz mais profunda em nós mesmos, uma voz que vem de fora de nós mesmos e, todavia, através de nós mesmos
Pobre seguimento! Sim, o meu seguimento, o teu seguimento, caro leitor. Não teremos muito de que nos vangloriar. Devemos apenas invocar da parte de Deus muita misericórdia e agradecer-lhe
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