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O espiritual no desenho: Agosto, mês de escolhas, divisões e deserto?

Em Florença, é inevitável que as figuras de Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo Buonarroti ofusquem muitos outros artistas incríveis que ajudaram a tornar a cidade numa das mais belas de Itália. Como ponto de partida para um exercício de desenho com o tema do deserto-escolhas-divisões, outros dois nomes incontornáveis, mas não tão conhecidos, vieram à tona: Filippo Brunelleschi e Giovanni da Bologna. Presentes na Piazza Santissima Annunciata, o primeiro, com o projeto do Hospital dos Inocentes, organizado com toda a lógica racional do Renascimento, planta em cruz latina e repetição das colunas nas galerias exteriores a formarem quadrados perfeitos - local visitado por qualquer amante da arquitetura -, o segundo, que ficou conhecido apenas por Giambologna, um dos maiores nomes do Maneirismo, estilo que se seguiu ao Renascimento, tem, nesta mesma praça, uma das suas últimas obras; a escultura equestre do Médici Fernando I. Portanto, a dúvida instala-se… começar pela escultura ou pela arquitectura? Qual a mais importante? Numa pequena praça, dois grandes nomes a dividir a nossa atenção…

Antes de mais, a leitura da primeira semana da Quaresma, que vem mesmo a calhar agora em agosto:

«Naquele tempo, o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo:
"Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e
acreditai no Evangelho"» (Marcos 1, 12-15).

É o deserto que nos divide ou une? E será o local geográfico que faz a diferença? Engraçado como agora no mês de agosto as dúvidas também se instalam. Descansar ou sair para visitar? A quebra na rotina do trabalho liberta tempo útil para conhecer outros lugares, alargar horizontes, mas não será caso único a sensação de se precisar de férias das férias…

Numa aula de História da Arte sobre o Renascimento e Florença, na Faculdade de Belas-Artes, a prof.ª Maria João Ortigão, numa análise fria ao tema religioso perguntou aos alunos: «Sabem quem é o Diabo?». O silêncio imperou, mas ela continuou: «Podem não lembrar-se de mais nada, mas disto não podem esquecer-se. A palavra Diabo remete para duo, aquele que divide, o oposto daquele que une. Portanto, tudo o que divide remete para o Diabo e tudo o que une remete para Deus». Simples e eficaz. São assim os grandes professores. Jesus saiu do Deserto unido ou dividido? É fácil a resposta.



Imagem © Mário Linhares


Voltando à Piazza Santissima Annunciata, sendo um quadrado quase perfeito, coloquei-me num canto, dentro da galeria para abrigar-me do sol. Comecei a desenhar ainda sem saber se seria a escultura ou a arquitetura que teria maior protagonismo. No papel deveria desenhar certezas. Depois, por cima, utilizando um papel vegetal, as incertezas. Fui para o vértice oposto do quase quadrado. Procurei um lugar para me sentar e fiquei muito impressionado com a perspetiva praticamente idêntica à anterior. “São assim as dúvidas, de facto” - lembro-me de  pensar. Não são as certezas ou os valores que nos fazem vacilar, eles são a base. A mudança de ponto de vista é que nos pode dividir e essa deslocação do nosso lugar para procurar olhar de fora o que sempre se viu por dentro pode até amedrontar.

Este exercício foi uma verdadeira meditação e aprendizagem. O que nos divide nunca é o massivo, mas antes as ligeiras diferenças, aquelas quase imperceptíveis e que só em situação de deserto podem ser identificadas.

Utilizei fita-cola para prender o papel vegetal. Desenhei por cima. Se antes não se via a Basílica, agora ela era evidente. Se antes a escultura equestre se diluía na arquitectura, agora tinha maior clareza. Se antes tinha dúvidas sobre por onde começar, agora era claro que a sobreposição e conciliação das diferenças me satisfazia.

Dias depois voltei lá, tal como nas férias voltamos muitas vezes aos mesmos sítios, mas desta vez entrei no Hospital dos Inocentes. Ali, num (agora) museu quase deserto, encontrei uma pintura de Sandro Botticelli em lugar de destaque, embora fosse uma pintura da sua juventude. Num canto, sem dignidade especial, um maravilhoso fresco de Cenni di Francesco. A pintura de Botticelli era uma Nossa Senhora com o menino e um anjo. O Jesus menino está numa procura ativa pelo leite da mãe. O fresco de Cenni di Francesco era uma Nossa Senhora do Leite. O Jesus menino já estava saciado. Interessante como a juventude de Botticelli indicia apenas aquilo que Cenni di Francesco já consegue mostrar.



Imagem © Mário Linhares


Será o mês de agosto bom para pensar no deserto, nas escolhas e divisões? Diria que sim, mas mais importante ainda é procurar o que nos une e modos de o fazer. Conciliar o aparentemente impossível, porque nós, humanos, somos isso mesmo, iguais, ou seja, irmãos. Apenas estamos espalhados por lugares geográficos e desertos diferentes.



 

Mário Linhares
Designer, desenhista
Imagem de topo: © Mário Linhares
Publicado em 27.08.2018

 

 

 
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