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O escândalo dos “virtuosos”: Ai de quem só julga

O tema do escândalo dos “virtuosos” está a tornar-se numa questão que se repete com insistência numa cultura secularizada onde, paradoxalmente, a ética assume importância cada vez maior.

Há um fio comum que une as corporações que dão escândalo, os abusos de membros de organizações humanitárias (com casos recentes a nível nacional e internacional), a crise de bancos, os escândalos ligados aos comportamentos de altos responsáveis religiosos e os comportamentos de políticos que declaram um comportamento moralmente superior e depois não o respeitam.

O campo alarga-se se considerarmos que a responsabilidade social e ambiental está a tornar-se uma variável competitiva cada vez mais importante. As empresas recordam-nos quase diariamente a sua atenção ao impacto social e ambiental, até porque sabem que os cidadãos podem premiá-las com o seu “voto do porta-moedas”, aceitando pagar preços mais altos por produtos que contêm maiores valores.

Creio que é oportuno apontar quatro pilares fundamentais a propósito desta questão, que tomo emprestados das nossas raízes humanas, espirituais e cristãs, e da sabedoria das gerações que nos antecederam.

 

1. «Ninguém é bom.»

A obsessão pela perfeição ética que invade a nossa sociedade é hipócrita e ignora um dado antropológico fundamental que a tradição cristã tem bem presente. Cada ser humano tem dentro de si uma imperfeição moral da qual podem nascer comportamentos negativos, pelo que deve ter a consciência e a humildade de reconhecer os próprios limites e fragilidades.

Todos temos dentro de nós princípios e estímulos para o bem, mas também tentações e estímulos para o mal. A sabedoria não está em procurar pessoas 100 por cento boas, ou ainda pior, proclamar-se tal. Mesmo a vida dos santos e dos heróis foram consteladas de pausas, incertezas, dúvidas, retrocessos, quedas. A sua virtude não consistiu em viver sem mácula e num percurso desumanamente reto e linear, mas no não ter perdido a direção do horizonte do bem nas dificuldades, em terem sabido reerguer-se depois das quedas e no terem mantido no cumprimento do seu existir esse horizonte e direção.

Portanto, o facto de poderem emergir de quando em vez factos negativos e escândalos numa percentagem limitada de “virtuosos” faz parte da normalidade “estatística” do nosso existir (embora nada tire à gravidade dos atos). As tradições religiosas não teriam de outro modo desenvolvido conceitos e reflexões sobre o mal moral, o pecado, o arrependimento e a redenção.

 

2. O facto de não existirem bons e maus a 100 por centro não quer dizer que não exista o bem e o mal

A nossa civilização religiosa e laica disso é testemunha em mil aspetos (da gradação das penas desde o âmbito civil ao penal, aos critérios que estão na base de recompensas e méritos, da maior ou menor gravidade de culpas ou pecados). Por isso o escândalo e a queda dos “bons” não deve levar-nos a negar aquele horizonte. Não só devemos tê-lo presente nas nossas vidas, como devemos esforçar-nos por construir e percorrer caminhos que nos conduzam para eles, porque é disso que é feito o progresso humano, civil e social (de outro modo não teria sentido sequer as eleições, em que cada partido desafia o outro defendendo as suas propostas como as mais apropriadas para esse horizonte).

 

3. Quem se esforça por alcançar o horizonte do bem e procura indicar e percorrer que a ele conduzam, deve evitar a tentação de se colocar sobre um pedestal.

A punição de quem se exalta em vez apontar para o horizonte do bem é a derrisão e o ataque à primeira queda.

 

4. Todos aqueles que parecem regozijar-se com a queda do “virtuoso” minam o seu sentido de vida

Aqueles que se deleitam com o escândalo dos bons, porque dá força ao álibi da sua preguiça e alimenta a convicção de que «todos fazem assim», devem saber que dessa forma, negando o horizonte do bem e uma tentativa de caminho árduo para ele, minam pela raiz a riqueza de sentido da sua existência.

O erro do “virtuoso” mantém toda a sua gravidade e merece uma “condenação” moral e civil. Mas o erro de quem o julga e aproveita para encontrar conforto para a própria passividade é uma autocondenação igualmente grande.



 

Leonardo Becchetti
In Avvenire
Trad. / edição: SNPC
Imagem: PathDoc/Bigstock.com
Publicado em 24.02.2018

 

 
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