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O discernimento cultural e evangélico na literatura

O discernimento cultural e evangélico na literatura

Imagem Jovem lendo um livro (det.) | Pierre-Auguste Renoir | 1875-1876 | Museu de Orsay, Paris, França

O que é o discernimento cultural? Podemos defini-lo como a capacidade crítica de ler a realidade (pessoal e social) e a cultura que ela encarna, apreendendo atitudes profundas, significados, tensões fundamentais. Para usar a imagem de Marcel Proust (...), o discernimento é a câmara escura que permite revelar as chapas fotográficas que, de outro modo, permaneceriam negras: é a vida que toma consciência de si mesma, do que é e do seu mistério. Em suma, é verdadeiro o que escreveu o teólogo René Latourelle:

«A literatura [...] provém da pessoa naquilo que ela tem de mais irredutível, no seu mistério [...] É a vida que toma consciência de si, quando alcança a plenitude de expressão, apelando para todos os recursos da linguagem».

Assim, «o típico problema do escritor de contos – confirmaria a grande escritora católica americana Flannery O’Connor  – é como fazer com que a ação descrita revele o mais possível do mistério da existência».

Quando este discernimento é levado a cabo à luz do Evangelho, pode então falar-se distintamente de um discernimento cultural evangélico. Este tenta reconhecer a presença do Espírito na realidade humana e cultural, a semente já lançada da sua presença dos acontecimentos, nas sensibilidades, nos desejos, nas tensões profundas dos corações e dos contextos sociais, culturais e espirituais. No discernimento cultural cristão nunca se trata de escolher ou Deus ou o mundo, mas antes de buscar e reconhecer Deus no mundo, que atua para levá-lo à sua realização e consumação. O discernimento cultural evangélico dá testemunho da criatividade do Espírito que opera em toda a parte. Cristo ressuscitado atua, de facto, constantemente em todas as dimensões do crescimento do mundo, na diversidade das suas culturas e na variedade das suas experiências espirituais.



Paulo revela-se radicalmente «leitor» de poesia e deixa intuir o seu modo de se acercar do texto literário, que não pode deixar de refletir em vista de um discernimento cultural evangélico



Mostremos um exemplo bíblico concreto que diz respeito à leitura de um texto literário. A dinâmica que descrevemos é, de facto, uma dinâmica interpretativa que podemos reconhecer no próprio texto bíblico. Ao folhearmos a Bíblia, deparamos com muitos textos poéticos, desde os Salmos ao Cântico dos Cânticos e aos hinos paulinos. Talvez seja ainda possível descobrir lugares em que aparecem textos poéticos que são uma reescrita teológica de hinos pagãos, como por exemplo o Salmo 29, que era originalmente um cântico a Baal. Claro que por detrás de semelhante operação se entrevê uma leitura atenta, fruto de um discernimento cultural, que leva a entender que os louvores a Baal podem ser plausivelmente atribuídos ao Deus de Israel, e isto indicia um processo de reescrita. Mas não se trata, decerto, de episódios em que explicitamente se fale de um processo de leitura de textos literários.

Em contrapartida, podemos reconhecer esta leitura nos Atos dos Apóstolos, nas passagens onde se fala da presença de Paulo em Atenas (cf. At 17,16-34). Aqui, o apóstolo «fremia de indignação, ao ver a cidade repleta de ídolos». No Areópago, porém, Paulo fala de Deus nestes termos: «É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas: “Pois nós somos também da sua estirpe”» [v. 28]. Neste versículo aparecem duas citações: uma indireta, na primeira parte, onde se cita o poeta Epiménides (século VI a.C.), que ecoa e alude à tríade platónica: vida, movimento, ser; e outra direta, onde cita os "Fenómenos"do poeta Arato de Silos (século III a.C.), que canta as constelações e os sinais do bom e do mau tempo.



Na primeira atitude, vemos um Paulo não livre de discernir, possuído pela consternação do juízo. Na sua subida ao Areópago, talvez na oração, Paulo adentra-se num discernimento de consolação, capaz de quebrar as lentes negativas de leitura, que enxergam apenas decadência e falsidade, para ver Deus já em ação e presente de modo criativo na cultura humana e nos textos poéticos e literários



Em suma, Paulo revela-se aqui radicalmente «leitor» de poesia e deixa intuir o seu modo de se acercar do texto literário, que não pode deixar de refletir em vista de um discernimento cultural evangélico. Ele foi apelidado pelos atenienses de "spermologos", ou seja, «gralha, fala-barato, charlatão », ou, literalmente, «recolector de sementes». O que era certamente uma injúria afigura-se, de forma paradoxal, uma verdade profunda. Paulo recolhe as sementes da poesia pagã e, ao sair de uma precedente atitude de profunda indignação (cf. At 17,16), chega a reconhecer os atenienses como «muitíssimo religiosos», e vê naquelas páginas uma verdadeira e até genuína "praeparatio evangelica". Não é este o lugar para indagar e explorar a perícope nos seus pormenores, mas não se pode passar por alto o facto de que entre a indignação e o conhecimento existe um salto aparentemente injustificado. Que é que leva Paulo a passar de uma posição inicial – e indignada – de recusa manifesta e apriorística da «leitura», em suma, de uma dissonância radical, para uma leitura atenta e acolhedora? O texto bíblico não no-lo diz diretamente; mas, mais do que em razões políticas ditadas pela "captatio benevolentiae", pode pensar-se num processo espiritual e profundo de discernimento. Paulo torna-se atento à fundamental experiência humana do desejo de Deus. Na primeira atitude, vemos um Paulo não livre de discernir, possuído pela consternação do juízo. Na sua subida ao Areópago, talvez na oração, Paulo adentra-se num discernimento de consolação, capaz de quebrar as lentes negativas de leitura, que enxergam apenas decadência e falsidade, para ver Deus já em ação e presente de modo criativo na cultura humana e nos textos poéticos e literários, como neste caso.

 

A poesia «descobre os abismos»

Que fez Paulo? Podemos responder com as palavras de João Paulo II: ele entende que a poesia «descobre os abismos que habitam o homem, enquanto a revelação e, em seguida, a teologia, os acolhem para mostrar como Cristo consegue penetrar neles e iluminá-los».

A literatura é, pois, a «via do acesso» a estes abismos. O lugar onde se abre esta via de acesso é a consciência do leitor, implicado diretamente no processo da leitura. Eis, pois, o desdobrar-se do cenário do discernimento espiritual pessoal.



Trata-se de escritores «teólogos», que não se poderiam compreender como artistas, pondo entre parêntesis a sua fé. No entanto, se virmos bem, a teologia, enriquecida por estes contributos, pode igualmente olhar com extremo interesse para autores que não são reconhecidos como «seus»



Um exemplo evidente deste alumiação do abismo é constituído pelos versos de Bartolo Cattafi, o qual apreende muito bem este poder da poesia. De facto, ele adverte que «o lado funéreo» das coisas – o que oculta o seu «verdadeiro desígnio», o seu «rosto horroroso» – é desvelado em versos. Efetivamente, escreve:

«Tudo é paciência e expectação
que a pedra pascal revolva
o lado funéreo das coisas
do outro lado o verdadeiro desígnio
o rosto luminoso
o reino o reino o reino»

Cattafi começa a ver na superfície, mas o seu ângulo de visão é tal que continua a ver após tê-la ultrapassado. O escritor chega, então, ao que reside no fundo do real, levantando a «pedra tumular» e desvelando o «outro lado da vida». Possivelmente, só a poesia consegue captar estas «palavras impalpáveis/perdidas no outro lado da vida».

O enigma do mundo é patenteado, e o lado «tumular» é revolvido e virado numa esplêndida poesia, simultaneamente concreta, sonora e visual, com o título "Constrição":

Estamos agora constritos ao concreto
a uma crosta de terra
a uma paragem de inseto
no rompante segredo da papoila.



Toda a literatura digna deste nome, pela sua índole peculiar, não «explica» a vida, mas «desfralda» e desenrola, apura e afina a perceção, descobre abismos, revela dinâmicas interiores e profundas. É, em certo sentido, um concentrado de vida



Nestes versos sóbrios, muito densos, Cattafi parece definir a condição humana como «constrição» e atadura ao concreto. A «terra» não é opcional para o homem: é o espaço, o lugar em que ele deve afundar as suas raízes e a sua precariedade. Os versos são incisivos com a subsequência dos sons: or... strit... cret... crost... err... Mas não é suficiente. Surge então uma outra imagem, a do tempo. O homem está constrangido e apenso à terra pela duração de uma paragem de inseto. O tempo do homem sobre a terra não é nem a eternidade nem o esvoaçar de uma borboleta ou de uma ave, mas o ínfimo e aturdido apoiar-se de um inseto. No entanto, a crosta da Terra e a paragem de um inseto estão circunscritos num mistério em que a palavra do poeta afunda sonoramente a lâmina: o «rompante segredo da papoila». O verso é uma explosão, porque contém em si os sons «pan... pa... poi». A realidade é sondada e perquirida, não na dimensão da superfície, mas na vertente profunda, abissal, do mistério que é a salvação radical do «lado funéreo», de uma obscura constrição ao «concreto». O enigma do mundo está confiado ao deflagrar da papoila, isto é, àquela imagem vermelha, aberta, solar.

Cattafi experimentou um gradual caminho de conversão. E, sem dúvida, haveria que dedicar-se à leitura de autores que fizeram, como ele, uma opção clara e temática de fé: Dante, Manzoni, Julien Green, Flannery O’Connor, Charles Péguy, F. Dostoievsky, Paul Claudel, George Bernanos, Léon Bloy, K. G. Chesterton, François Mauriac, Giovanni Papini... cada um segundo as suas categorias culturais. A escolha seria correta. Trata-se de escritores «teólogos», que não se poderiam compreender como artistas, pondo entre parêntesis a sua fé. No entanto, se virmos bem, a teologia, enriquecida por estes contributos, pode igualmente olhar com extremo interesse para autores que não são reconhecidos como «seus»; e isso pode acontecer justamente pela feição expressiva própria das artes e da literatura, de acordo com a indicação forte da "Gaudium et spes", quando afirma que «a literatura e as artes [...] tentam exprimir a índole própria do homem» e «dar a conhecer as suas misérias e alegrias, as suas necessidades e as suas capacidades». A literatura mana e irrompe da quotidianidade da vida, das suas paixões e das suas vicissitudes reais, «a ação, o trabalho, o amor, a morte e todas as pobres coisas que enchem a vida», inclusive  da incredulidade cética. Toda a literatura digna deste nome, pela sua índole peculiar, não «explica» a vida, mas «desfralda» e desenrola, apura e afina a perceção, descobre abismos, revela dinâmicas interiores e profundas. É, em certo sentido, um concentrado de vida.



Rahner não está efetivamente a «batizar» toda a literatura nem a «anexá-la» ao Cristianismo, como poderia sugerir e fazer crer uma leitura superficial das suas palavras. Está apenas a reafirmar que todos os homens têm uma vida espiritual, e não apenas os crentes



Karl Rahner, talvez melhor do que outros, ajuda-nos acompreender a amplitude desta abertura quando resolutamente afirma que «ser autor é, para o homem, um facto relevante na perspetiva cristã», porque ele está exposto ao apelo da graça de Cristo. Nas suas palavras, a graça parece ser uma só coisa com a inspiração do escritor, entendida na sua aceção mais intensa, transtornante, dramática. Escreve o teólogo:

«Ela, desde o fundo do coração do homem, difunde-se de mil maneiras em todas as dimensões, torna-o inquieto, leva-o a desesperar de angústia e de finitude da existência, enche-o da exorbitante pretensão que só pode ser satisfeita pela infinidade de Deus, e torna desmedidas todas as experiências que faz de si mesmo, equívocas, abertas ao indizível e ao imprevisível».

Rahner não está efetivamente a «batizar» toda a literatura nem a «anexá-la» ao Cristianismo, como poderia sugerir e fazer crer uma leitura superficial das suas palavras. Está apenas a reafirmar que todos os homens têm uma vida espiritual, e não apenas os crentes. Por isso, a realidade da ação da graça é verdadeira para cada homem, também para a vida de um escritor, o qual pode acolhê-la ou rejeitá-la com refinamento e reduzi-la ao silêncio. Neste caso, pois, experimenta-a, esquivando-se a ela. Flannery O’Connor fornece-nos uma das confirmações mais claras desta visão «teológica » da literatura:

«Ao ler o que escrevo, constatei que o tema da minha narrativa é a ação da graça num território dominado, em grande parte, pelo diabo».

Neste sentido, a literatura oferece uma verdadeira e genuína palestra de discernimento.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.



 

Antonio Spadaro
In "O batismo da imaginação", ed. Paulinas
Publicado em 24.11.2016

 

 
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