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O dilema da vida

Naturalmente, não sei bem o que é a vida, mas de terminei-me a vivê-la; e não quero perder nada dessa vida que me foi dada; portanto, não só me oponho a que me privem das grandes experiências, mas também e sobretudo das pequenas. Quero aprender como puder, quero provar o sabor de tudo o que puder. Não estou disposto a cortar as minhas asas nem a que alguém mas corte. Tenho mais de quarenta anos e continuo a pensar em voar por todos os céus que puder, em sulcar todos os mares que venha a conhecer e em procriar em todos os ninhos que me queiram acolher. Desejo ter filhos, plantar árvores e escrever livros. Desejo escalar as montanhas e mergulhar nos oceanos. Cheirar as flores, brincar com as crianças e acariciar os animais. Estou disposto a que a chuva me molhe e a que a brisa me acaricie, a ter frio no inverno e calor no verão. Aprendi que é bom dar a mão aos anciãos, olhar para os olhos dos moribundos, ouvir música e ler histórias. Aposto em conversar com os meus semelhantes, em rezar orações e em celebrar rituais. Levantar-me-ei pela manhã e deitar-me-ei à noite, pôr-me-ei debaixo dos raios do sol, admirarei as estrelas, olharei para a Lua e deixarei que ela me olhe. Quero construir casas e partir para terras estrangeiras; falar línguas, atravessar desertos, percorrer caminhos, cheirar as flores e morder a fruta. Fazer amigos. Enterrar os mortos. Embalar os recém-nascidos. Quereria conhecer todos os mestres que possam ensinar-me e também ser mestre. Trabalhar em escolas e hospitais, em universidades, em fábricas... E perder-me nos bosques e correr nas praias, e olhar para o horizonte a partir dos alcantilados.

Na meditação escuto que não devo privar-me de nada, porque tudo é bom. A vida é uma viagem esplêndida e para vivê-la só se deve evitar uma coisa: o medo. De todos os dilemas que conheço, o melhor é a própria vida. Quem pode resolvê-lo? A vida é tudo menos segura, apesar das nossas absurdas tentativas para que o seja. Ou se vive ou se morre; mas quem se decidir pela primeira hipótese, deverá aceitar o risco. Estamos à mesa, diante do tabuleiro, e tudo se conjugou para que peguemos no copo, o agitemos e lancemos os dados. Mas entristeço-me só de pensar que há muitos que têm o covilhete na mão, que até chegam a agitá-lo, mas não permitem que esses dados, brincalhões e ruidosos, saiam disparados e rolem no tabuleiro. E entristeço-me por haver muitos que passam a vida a olhar para esse tabuleiro, mas sem se decidirem a jogar, muitos que duvidam se deveriam ou não sentar-se à mesa do banquete, posta para eles; muitos que vão ao rio e não tomam banho, ou à montanha e não a sobem, ou à vida e não a vivem, ou aos homens e não os amam. Tenho a impressão de que a meditação só foi inventada para erradicar o medo. Ou, pelo menos, para encará-lo e aceitá-lo, para pôr-lhe o freio necessário para que não se possa tornar em pânico.

Pode-se viver sem lutar contra a vida. Mas, porque se há de ir contra a vida, se se pode ir a seu favor? Porquê apresentar a vida como um ato de combate, em vez de um ato de amor? Basta um ano de meditação perseverante, ou até meio ano, para nos apercebermos de que podemos viver de outra forma. A meditação abre uma brecha na estrutura da nossa personalidade, até que, de tanto meditar, a brecha se alarga e a velha personalidade rompe-se e, como uma flor, começa a nascer uma nova. Meditar é assistir a esse fascinante e tremendo processo de morte e renascimento.

 

O autor deste texto, o padre espanhol Pablo d’Ors, é um dos intervenientes no Simpósio do Clero que decorre em Fátima entre hoje e quinta-feira.



 

P. Pablo d'Ors
In "A biografia do silêncio", ed. Paulinas
Imagem: senkaya/Bigstock.com
Publicado em 03.09.2018

 

 
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