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O crucifixo de Germaine Richier

Imagem Germaine Richier | D.R.

O crucifixo de Germaine Richier

Escultora francesa nascida em 1902, Germaine Richier frequentou a Escola de Belas-Artes em Monpellier. Tinha já uma reputação bem estabelecida quando, em 1949, é contactada para participar nos trabalhos de interior de uma nova igreja, em Plateau d'Assy, França.

Resolutamente inovador, este projeto arquitetónico e artístico nasceu do desejo de dois padres dominicanos, Marie-Alen Couturier e Pie_Raymon Régamey, de «apelar à vitalidade da arte profana para reanimar a arte cristã», então demasiado marcada pelo estilo "saint-sulpice" ["naïf" e de fraco rasgo artístico] e a produção em massa de esculturas em gesso.

Germaine Richier encontra-se ao lado de Georges Braque, Marc Chagall, Fernand Léger, Henri Matisse e Georges Rouault, e como alguns deles não é católica, nem sequer cristã.

Os responsáveis pela construção da igreja encomendam-lhe o crucifixo, a instalar atrás do altar-mor. Ela esboça rapidamente um projeto, que será aceite sem reservas.

A igreja é consagrada a 4 de agosto de 1950 pelo bispo de Annecy, com todo o mobiliário litúrgico no seu lugar. Cinco meses mais tarde, a 4 de janeiro de 1951, um grupo de católicos pede e consegue a retirada do crucifixo de Germaine Richier, que só será reinstalado nas festas pascais de 1969, 18 anos depois, quatro após o encerramento do Concílio Vaticano II.

O que é que nesta escultura terá causado tanto choque? O que é que nesta escultura é para mim sinal da beleza de Cristo? Estas duas perguntas são paradoxais. Elas mostram-nos que é difícil, por vezes, traduzir concretamente o mistério da Beleza, o mistério de Deus.

Quando esboça o seu projeto, Germaine Richier (m. 1959) está ainda marcada, como muitas pessoas do seu tempo, pelas imagens de libertação dos campos da morte da Alemanha nazi. Esses homens, essas mulheres, essas crianças esqueléticas, rapadas, já não tinham figura humana, e todavia representavam a humanidade que tinha resistido à barbárie.

Este Cristo em bronze bruto, cujos traços são como que fundidos pelo fogo, o fogo dos fornos crematórios, os braços humanos que se confundem com os braços da cruz, e ao mesmo tempo estendidos para rasgar o céu, é o signo do dom absoluto, do dom total por amor.

Neste crucifixo, é o amor que é dado a contemplar e que vem transformar o que pode ferir o nosso olhar. Muitas vezes fico espantado quando, ao cruzar-me com um casal enamorado, digo para mim mesmo: "O que é que a terá atraído, dado que ele não é bonito?" (segundo os meus critérios pessoais!). Mas o seu olhar depressa me responde: ela ama-o e olha-o com os olhos do amor que fazem esquecer totalmente os critérios de uma época, de uma moda ou de uma visão unicamente estética.

É seguramente isso que nos dá a ver Germaine Richier: a beleza de Cristo é a do amor que se dá. Santo Agostinho já nos dizia o mesmo no séc. IV: «Quando o amor cresce em ti, a beleza faz o mesmo. Porque o amor é a beleza da alma».

 

Bertane Poitou
Delegado de Comunicação, Diocese de Saint-Claude, França
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.10.2015

 

 
Imagem Germaine Richier | D.R
Este Cristo em bronze bruto, cujos traços são como que fundidos pelo fogo, o fogo dos fornos crematórios, os braços humanos que se confundem com os braços da cruz, e ao mesmo tempo estendidos para rasgar o céu, é o signo do dom absoluto, do dom total por amor
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