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"O coração do assassino", multipremiada história de perdão, exibida com presença da realizadora

"O coração do assassino", multipremiada história de perdão, exibida com presença da realizadora

Imagem "O coração do assassino" | Catherine McGilvray | D.R.

«Tu és o meu filho, ainda bem que vieste»: Como é humanamente possível receber o assassino da filha em casa? O poderoso impulso do perdão está no centro do documentário "O coração do assassino", que vai ser exibido a 8 de abril, em Braga, com a presença da realizadora, Catherine McGilvray.

O filme de 56 minutos gravado na Índia e estreado em 2013 narra a história verdadeira de Samundar Singh, um fanático hindu de 22 anos que em 1995 assassinou a religiosa católica Rani Maria, missionária franciscana de Kerala, esfaqueando-a 54 vezes e deixando-a à morte à beira da estrada.

Condenado a prisão perpétua, Samundar passou 11 anos em reclusão antes de ser libertado, na sequência do pedido da família de Rani, que o perdoou. Converteu-se ao cristianismo, mas também perdeu o primeiro filho e a mulher divorciou-se.

Samundar é o narrador principal do filme. Viajando de comboio ao encontro da família da irmã Rani, revive os detalhes da tragédia, ao mesmo tempo que nele acontece uma transformação espiritual. De jovem tomado pelo ódio e pela ignorância, muda-se em homem livre que vive o amor.



«Não se tratou de uma atitude prepotente, do género “nós somos cristãos tão bons, que te perdoamos”. O que fizeram foi entrar na cultura dele e dar-lhe este perdão na forma mais natural à compreensão dele; construíram uma ponte»



Os outros narradores escutam-se nas vozes da mãe e irmã de Rani, unidas no amor, na mágoa e na paz. Os seus rostos e gestos são calmos, revelando a extraordinária capacidade para perdoar. A mãe, que ao princípio não suportava a decisão de a filha se tornar religiosa, acaba por compreender o sentido da morte.

A quarta voz é a de Swami Sadanand, o padre da paz - «onde houver conflito, eu irei» - o primeiro a visitar Samundar na prisão, tornando-se o seu diretor espiritual.

O filme da italiana McGilvray (n. 1965) conta a história sem retórica, não explorando nem exagerando os factos, mas revela respeitosamente uma histórica trágica e, artisticamente, confere-lhe significado universal, escreveu o jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano".

A cineasta sublinha que o perdão a Samundar foi concedido, por parte da família de Rani, através do Raki, rito hindu «Não se tratou de uma atitude prepotente, do género “nós somos cristãos tão bons, que te perdoamos”. O que fizeram foi entrar na cultura dele e dar-lhe este perdão na forma mais natural à compreensão dele; construíram uma ponte».



«Eu não conseguia encaixar este perdão; era uma coisa extraordinária, divina, fora de tudo. Era mais fácil perceber que a graça tocasse o coração de alguém caído. Nenhum de nós é assassino; mesmo assim, percebe-se melhor que ele queira ser perdoado do que alguém que seja capaz de aceitar quem matou a própria filha»



Em entrevista ao padre português Teodoro Medeiros, publicada na página Igreja Açores, a realizadora falou da dificuldade em encontrar um produtor: «A história era considerada de teor demasiado religioso e isso, infelizmente, era considerado um obstáculo. Depois havia ainda a questão da língua, aliás duas, do norte e sul da Índia, e que tornavam difícil a aceitação do filme».

«Decidi que queria apresentar o ponto de vista do assassino. Eu não conseguia encaixar este perdão; era uma coisa extraordinária, divina, fora de tudo. Era mais fácil perceber que a graça tocasse o coração de alguém caído. Nenhum de nós é assassino; mesmo assim, percebe-se melhor que ele queira ser perdoado do que alguém que seja capaz de aceitar quem matou a própria filha», afirmou McGilvray.

A fidelidade aos acontecimentos dominou a intenção da realizadora: «Não foi um filme sobre aquelas pessoas mas com aquelas pessoas. No sentido que não fiz um plano, não escrevi o filme para depois eles representarem».

«Tivemos de cortar a cena do Batismo de Samundar (é proibida aos locais a conversão a outras religiões). Era um momento muito belo mas teria sido muito perigoso mantê-lo; Samundar poderia até ser morto por uma coisa dessas. De modo que Swami propôs que se mostrassem só algumas partes. O que se vê no filme são os panos que se afastam: tornou-se um rito de purificação, e gosto do resultado», explicou.



O padre Swami também foi ter com os alegados mandantes, mas não aceitaram a oferta do perdão, embora tivessem deixado de perseguir e pressionar os cristãos. «Pode-se dizer que nasceu uma grande paz depois deste caminho percorrido por Samundar, depois do perdão que lhe deram»



O perdão propagou-se a muitas outras pessoas do lugar onde vivem os protagonistas: «As próprias irmãs do convento começaram a ser melhor aceites pela população geral; cessaram as intimidações (às vezes andavam pelas ruas e viam gente com varapaus na mão à volta delas)».

«O próprio grupo de padres que vive naquela aldeia também se sentiu mais acolhido; a desconfiança que se respirava antes desapareceu. Até os notáveis, os que tinham provocado o homicídio, pararam com as suas atividades de combate a estes agentes religiosos. Quase que se pode dizer que se envergonharam das atitudes anteriores», assinalou a cineasta.

O padre Swami também foi ter com os alegados mandantes, mas não aceitaram a oferta do perdão, embora tivessem deixado de perseguir e pressionar os cristãos. «Pode-se dizer que nasceu uma grande paz depois deste caminho percorrido por Samundar, depois do perdão que lhe deram», realçou Catherine McGilvray.

O filme venceu vários prémios, nomeadamente de melhor documentário, melhor realizador, melhor história e melhor mensagem de fé, em festivais como o "International Christian Filme Festival 2014" (EUA), o "Dhaka International Film Festival 2016" (Bangladesh), o "Religion Today Film Festival 2014" (Itália) e o "Fresco International Filme Festival 2015" (Arménia). 

O documentário é exibido a 8 de abril, pelas 21h15, no Auditório Vita. A entrada é gratuita.









 

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