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O cineasta dos últimos, dos pobres e dos derrotados vence em Cannes

Imagem I, Daniel Blake | Fotograma | D.R.

O cineasta dos últimos, dos pobres e dos derrotados vence em Cannes

O cineasta Ken Loach ganhou prémio mais importante do Festival de Cinema de Cannes, que terminou este domingo, recebendo a Palma de Ouro pelo filme “I, Daniel Blake”, história do encontro entre um marceneiro vítima de um enfarte e uma jovem mãe desempregada.

Cinquenta anos após “Cathy come home”, o seu filme para a televisão dedicado às pessoas sem-abrigo, o realizador britânico volta a falar dos trabalhadores, dos pais, pessoas que inesperadamente se acham na rua por causa de um infortúnio, uma doença, um caso da vida.

Prestes a completar 80 anos, que celebrará no próximo mês, Loach narra novamente as vivências humanas, reais e tocantes, de pessoas comuns que têm de lutar pela sua simples sobrevivência.

Dez anos depois de ter ganho a primeira Palma de Ouro, com “The wind that shakes the barley”, sobre a guerra civil na Irlanda, Loach, que passa a fazer parte do conjunto de sete realizadores a ganhar por duas vezes o galardão, denuncia a miséria dos últimos e dos invisíveis das sociedades ocidentais consideradas “avançadas”.

“I, Daniel Blake” centra-se nos pobres, nos marginalizados, naqueles que, por diferentes motivos, são deixados para trás por uma sociedade voltada para o dinheiro, para a beleza, para a juventude e para o sucesso a todo o custo.

O filme de Loach não se rende às injustiças do mundo, apontando-as através de uma linguagem realística que parte da observação participada dos acontecimentos que narra. Um cinema à altura da pessoa de quem mostra a dignidade e a integridade, inclusive perante situações que a tendem a privar da própria respeitabilidade.

Em 2012, o Ente dello Spettacolo, organismo ligado à Igreja católica em Itália, entregou ao realizador, durante o festival de Veneza, o prémio Bresson, reservado aos cineastas que, como o autor francês evocado pelo galardão, apresentaram filmes que narram o ser humano, a moralidade e a espiritualidade.

«Para Ken Loach, o cinema ainda pode mudar o mundo: pode entrar na fábrica e nas periferias, na marginalidade e no desespero, para deles sair mais forte e consciente», revelando uma «luz que corta as trevas da desigualdade, do “homo homini lupus” (homem lobo do homem)», referia a declaração da instituição eclesial transalpina.

Os jurados consideraram que entregar a Ken Loach o prémio Robert Bresson estabelece uma ponte entre os dois cineastas, ligados pela vontade partilhada de dizer o aqui e agora do Homem e dos seus desejos mais profundos, da luta diária por um futuro melhor e digno.

Ao distinguir “I, Daniel Blake”, a 69.ª edição do festival de Cannes oferece novo tributo a um cineasta dos últimos, dos pobres e dos derrotados, que reafirma sempre a sua profunda dignidade e humanidade.

O júri ecuménico cristão presente no festival também concedeu à película uma menção honrosa, anuncia um comunicado enviado hoje ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura pela Signis, Associação Católica Mundial para a Comunicação.

«Apoiado pelas extraordinárias qualidades artísticas do realizador, este filme retrata um homem no fim da sua vida, que põe de lado o seu próprio sofrimento para estar ao serviço de uma família afrontada pela marginalização e pobreza. Como um bom samaritano, ele leva-lhes a atenção e o afeto que são tão necessárias aos seres humanos como as necessidades materiais», lê-se na declaração do júri.

Nas palavras que proferiu após receber a Palma de Ouro, Loach defendeu o cinema como forma de protesto contra um mundo em perigo pelas ideias neoliberais que implicaram uma vaga de austeridade «que provocou a miséria de milhões de pessoas desde a Grécia a Portugal, com uma pequena minoria que enriquece de maneira vergonhosa», acrescentando que «outro mundo é possível e necessário», refere a agência Lusa.

 




 

Agência SIR
Com SNPC
Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 08.03.2017

 

 
Imagem I, Daniel Blake | Fotograma | D.R.
Para Ken Loach, o cinema ainda pode mudar o mundo: pode entrar na fábrica e nas periferias, na marginalidade e no desespero, para deles sair mais forte e consciente», revelando uma «luz que corta as trevas da desigualdade, do “homo homini lupus” (homem lobo do homem)
Este filme retrata um homem no fim da sua vida, que põe de lado o seu próprio sofrimento para estar ao serviço de uma família afrontada pela marginalização e pobreza. Como um bom samaritano, ele leva-lhes a atenção e o afeto que são tão necessárias aos seres humanos como as necessidades materiais
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