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Leitura: "O amor tem um rosto - Um grande ator fala de Jesus"

Imagem Capa (det.) | D.R.

Leitura: "O amor tem um rosto - Um grande ator fala de Jesus"

Michael Lonsdale, ator francês de 85 anos, conhecido do grande público pela interpretação no filme "Dos homens e dos deuses", onde incarnou o irmão Luc, pela qual ganhou vários prémios, é o autor do livro "O amor tem um rosto".

«Foi de tal modo profunda a assunção dessa personagem, que lhe marcou uma espécie de nova identidade. Essa transfiguração é narrada de forma emocionante nas paginas deste livro com paixão», escreve o cónego António Rego no prefácio da obra recentemente lançada pela Paulinas Editora.

Nos treze capítulos do livro, com títulos de uma só palavra, Michael Lonsdale «não tem apenas uma história. Tem muitas histórias dentro dos diversos lugares por onde passou», sobretudo Marrocos e Paris, «marcadas pelo meio artístico em que viveu, pelas dúvidas sobre a forma de confessar publica e militantemente a sua fé, pela arte e beleza que o envolveram até ao âmago e a que se entregou por inteiro».

Para o sacerdote e jornalista, este volume é uma «narrativa de vários percursos e personagens, num universo deslumbrante de fé, procura e beleza, num homem que aparentemente pouco teria a dizer entre câmaras, claquetes, holofotes, estúdios, cenários impensáveis, cenas de todo o género – inclusive de expressão raivosa que quase não conseguia extrair da alma por a ter povoada de outros sentimentos».

 

Oração
In "O amor tem um rosto"
Michael Lonsale

Não sou muito ligado a lugares de oração: para muitos, as celebrações são momentos privilegiados. E claro que isso ajuda a oração silenciosa. Mas eu não tenho necessidade deste enquadramento particular: na rua, no autocarro, posso rezar em todo o lado, em qualquer momento. Por vezes, e simplesmente o nome de «Jesus» que me vem aos lábios. A oração é uma relação imediata com Deus, e Ele une-se a nós onde quer que estivermos, não vale a pena correr para mais longe! Posso rezar no teatro, enquanto o meu colega me dá a réplica. Acontece-me rezar ao mesmo tempo que estou a falar com uma pessoa. Pode parecer que estou na lua... mas é assim: estou com Jesus. E falo-lhe daqueles que amo. A minha oração está povoada de rostos daqueles pelos quais intercedo, as pessoas que conheço, em particular aquelas que sofrem. Falo delas com Jesus, confio-as ao seu amor transbordante.

São Paulo convida-nos a orar «sem cessar»... Durante bastante tempo tive dificuldade em compreender esta palavra. É muito perturbador! E depois descobri a oração do coração, que tem um nome erudito, «o hesicasmo». Com o ator Claude Laugier – ja falecido - montei um espetáculo a partir dos "Relatos de um peregrino russo". Este texto escrito no século XIX, cujo autor é desconhecido, é um tesouro espiritual da ortodoxia e, mais do que isso, de todos os cristãos. Este peregrino terá mesmo viajado ou será um relato imaginário dessa busca junto de monges e de eremitas? De qualquer modo, este pobre caminhante que procura compreender Deus recebe de um "starets", um mestre, o segredo da oração do coração. Trata-se de recitar lentamente e sem fim uma oração muito simples: «Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim, pecador.» São Serafim de Sarov praticava o hesicasmo. A repetição contínua da mesma frase conjuga-se com a respiração. Pouco a pouco, a oração «oxigena» a minha alma. Não só eu entro no coração de Deus, como todo o meu dia fica irrigado, o meu olhar para os outros fica transformado. Cada um pode tentar: é muito fácil!

E compreendo melhor São Paulo, que não nos pede para pararmos tudo, de permanecer em oração com as mãos cruzadas e passar todo o nosso dia em oração, não! Teresinha do Menino Jesus rezava enquanto fazia limpezas, varrendo o claustro do Carmelo de Lisieux. «É lá que eu rezo melhor», confia ela aos seus cadernos! E também me acontece a mim estar a rezar enquanto arrumo o meu apartamento, enquanto cozinho... Santa Teresinha é formidável: esta rapariguinha, que morreu aos vinte e quatro anos, recebeu tudo de Deus com uma simplicidade e uma inspiração incríveis. Então, porque não acreditar nela? É possível rezar de imediato, não importa em que circunstâncias. A oração conjuga-se no presente! Santa Teresinha não para de repetir: «Para amar, só tenho hoje.» É preciso viver no presente, onde nós estamos, e tudo pode acontecer, pois Deus esta lá. É inútil procurar noutro sitio!

Eu rezo a toda a hora, mas também gosto do silêncio que abre à contemplação. No silêncio a escuta torna-se mais atenta as intenções de Deus. Como Maria, que «conservava todas as coisas, ponderando-as no seu coração», diz-nos o evangelista Lucas. Ela é um modelo de presença silenciosa, amante, maternal. Conheço cristãos que têm necessidade de silêncio, de recolhimento, que só conseguem rezar verdadeiramente quando estão numa igreja. Lembro-me perfeitamente da minha emoção na catedral de Chartres ou na capela do Rosário, pintada por Matisse, em Vence, e mesmo no Mont-Saint-Michel, quando não há muita gente. Mesmo gostando de me sentir elevado pela arquitetura de uma igreja, pelo silêncio de uma capela, a cidade não me incomoda. A minha oração é interior, não faz barulho. A vida à minha volta não me impede de rezar. Até o fiz quando, no outro dia, fui derrubado por um autocarro. Comecei imediatamente a rezar.

A nossa oração é muitas vezes a expressão de um pedido: «Senhor, ajuda-me!» Porventura isso não será importante? Encontro tantas pessoas em sofrimento... Pedir ajuda para si, para os outros, é um grito no coração da oração e Deus pode ouvi-lo. Algumas pessoas pedem-me que reze por elas: a oração de intercessão é muito bela, é sinal da nossa vida fraterna. Na oração, falo com Deus da pessoa, do nosso mundo de hoje. Um dia pediram-me que escrevesse as minhas orações: não tenho o hábito de fazer longas frases, mas tentei dizer, nestas "Oraisons" como é que eu falava com Deus sobre o que acontece na minha vida. E Ele pode tudo ouvir... Mesmo quando fiz algo de mal, posso dirigir-me a Ele. Eu sei que o Senhor me vem buscar onde eu estiver, mesmo no mais negro da existência. «Senhor, ajuda-me, cura a minha fraqueza, a minha pobreza. Tu mergulhaste no meu lodo espesso para me repescar, a mim, ferido, ignorante, perdido. O que fazer sem ti?»

É claro que não é um diálogo, dado que Ele não responde verdadeiramente. Aliás, muitos ficam dececionados: Deus não atende as suas orações... Mesmo não podendo dialogar com Deus, posso falar com Ele como com um amigo, posso dizer-lhe tudo. E a minha oração torna-se: «Que seja feita a tua vontade!»

Outros, talvez, sentem a sua presença na oração. Ele não me responde diretamente, mas há muitos sinais de ordem espiritual que me manifestam a existência de Deus. Eu sinto a sua presença através dos seres humanos que encontro, em muitos acontecimentos... A mensagem de Cristo passa primeiro pelo amor do próximo. Todo o ato de amor é Deus. As relações humanas dizem-nos qualquer coisa de Deus, desde que sejam boas, generosas. Saber que Deus esta em todas as pessoas é uma responsabilidade sagrada e uma felicidade incrível: todo o encontro merece ser vivido. Nós podemos viver com o cuidado da felicidade do outro. E é Deus que passa.

Eu não estou só na oração: outros crentes precederam-me, e as suas palavras ajudam-me a rezar. Rezo com Francisco de Assis, com Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, com Serafim de Sarov, com Teresa de Ávila, com São Bernardo de Claraval e ate mesmo com Santo António de Pádua, quando perco alguma coisa, ou Santa Rita, a santa das causas desesperadas...

 

Publicado em 02.07.2016

 

Título: O amor tem um rosto - Um grande autor fala de Jesus
Autor: Michal Londsdale
Editora: Paulinas
Páginas: 64
Preço: 5,30 €
ISBN: 978-989-673-525-8

 

 
Imagem Capa | D.R.
Este livro é uma «narrativa de vários percursos e personagens, num universo deslumbrante de fé, procura e beleza, num homem que aparentemente pouco teria a dizer entre câmaras, claquetes, holofotes, estúdios, cenários impensáveis, cenas de todo o género
Compreendo melhor São Paulo, que não nos pede para pararmos tudo, de permanecer em oração com as mãos cruzadas e passar todo o nosso dia em oração, não! Teresinha do Menino Jesus rezava enquanto fazia limpezas, varrendo o claustro do Carmelo de Lisieux. «É lá que eu rezo melhor», confia ela aos seus cadernos
Mesmo gostando de me sentir elevado pela arquitetura de uma igreja, pelo silêncio de uma capela, a cidade não me incomoda. A minha oração é interior, não faz barulho. A vida à minha volta não me impede de rezar
Encontro tantas pessoas em sofrimento... Pedir ajuda para si, para os outros, é um grito no coração da oração e Deus pode ouvi-lo. Algumas pessoas pedem-me que reze por elas: a oração de intercessão é muito bela, é sinal da nossa vida fraterna. Na oração, falo com Deus da pessoa, do nosso mundo de hoje
Todo o ato de amor é Deus. As relações humanas dizem-nos qualquer coisa de Deus, desde que sejam boas, generosas. Saber que Deus esta em todas as pessoas é uma responsabilidade sagrada e uma felicidade incrível: todo o encontro merece ser vivido
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