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«Nunca se descansou tanto como hoje, e no entanto nunca se experimentou tanto vazio», diz papa

«O ser humano nunca descansou tanto como hoje, e no entanto nunca experimentou tanto vazio como hoje», declarou o papa na audiência geral desta quarta-feira, no Vaticano.

Na intervenção dedicada ao mandamento sobre o descanso, enganadoramente simples de observar, Francisco frisou que o repouso autêntico caracteriza-se pela contemplação e pelo louvor, e não pela fuga.

O descanso é essencial para ver a vida, ou seja todos os outros dias, com outros olhos – desmentindo assim a difundida expressão «graças a Deus que é sexta-feira», ou seja, mais tempo para o repouso e diversão –, descobrindo-lhe um sentido que aparentemente não tem sentido.

«Quantas vezes encontrámos cristãos doentes que nos consolaram com uma serenidade que não se encontra nos que gozam a vida e nos hedonistas. E vimos pessoas humildes e pobres rejubilar por pequenas graças com uma felicidade que tinha o sabor de eternidade», afirmou.

O descanso e a pausa que proporciona, não só nos prolongados períodos de férias mas todas as semanas, é a oportunidade de reconciliação com a história pessoal, «com os factos que não se aceitam, com as partes difíceis da própria existência», porque a «verdadeira paz não é mudar a própria história, mas acolhê-la e valorizá-la, tal como aconteceu», apontou na alocução, que traduzimos em seguida.



Afastando-se das dobras amargas do seu coração, o ser humano precisa de fazer a paz com aquilo de que foge



«A viagem através do Decálogo leva-nos hoje ao mandamento sobre o dia do descanso. Parece um mandamento fácil de cumprir, mas é uma impressão errada. Repousar-se verdadeiramente não é simples porque há descanso falso e descanso verdadeiro. Como podemos reconhecê-lo?

A sociedade atual está sedenta de divertimentos e férias. A indústria da distração, escutai bem, a indústria da distração é deveras florescente e a publicidade concebe o mundo ideal como um grande parque de jogos onde todos se divertem. O conceito de vida, hoje, não tem o epicentro na atividade e no compromisso, mas na evasão. Poupar para divertir-se, satisfazer-se.

A imagem-modelo é a de uma pessoa de sucesso que pode permitir-se amplos e diversos espaços de prazer. Mas esta mentalidade faz deslizar para a insatisfação de uma existência anestesiada pelo divertimento que não é descanso, mas alienação e fuga da realidade. O ser humano nunca descansou tanto como hoje, e no entanto nunca experimentou tanto vazio como hoje! A possibilidade de divertir-se, viagens, cruzeiros, tantas coisas, não dão a plenitude ao coração, melhor, não dão descanso.

As palavras do Decálogo procuram e encontram o coração do problema, lançando uma luz diferente sobre o que é o descanso. O mandamento tem um elemento peculiar: fornece uma motivação. O descanso no nome do Senhor tem um motivo preciso: “Porque em seis dias o Senhor fez o céu e a terra e o mar e quanto há neles, mas descansou ao sétimo dia. Por isso o Senhor abençoou o dia do sábado e consagrou-o”.

Isto reenvia para a meta da criação, quando Deus diz: “Deus viu quanto tinha feito, era muito bom”. E então inicia o dia do descanso, que é a alegria de Deus por quanto criou. É o dia da contemplação e da bênção.



Quando é que a vida se torna bela? Quando se começa a pensar bem dela, qualquer que seja a nossa história



O que é, portanto, o descanso segundo este mandamento? É o momento da contemplação, do louvor, não da evasão. É o tempo para olhar a realidade e dizer: como é bela a vida! Ao descanso como fuga da realidade, o Decálogo opõe o descanso como bênção da realidade.

Para nós, cristãos, o centro do dia do Senhor, o domingo, é a Eucaristia, que significa “ação de graças”. É o dia para dizer a Deus: obrigado pela vida, pela tua misericórdia, por todos os teus dons. O domingo não é o dia para eliminar os outros dias, mas para os recordar, abençoá-los e fazer a paz com a vida; quanta gente que tem tanta possibilidade de divertir-se não vive em paz; o domingo é o dia para fazer a paz com a vida, dizendo: a vida é preciosa; não é fácil, por vezes é dolorosa, não é fácil, mas é preciosa.

Ser introduzidos no descanso autêntico é uma obra de Deus em nós, mas requer afastar-se da maldição e do seu fascínio. Dobrar o coração à infelicidade, com efeito, sublinhando motivos de descontentamento, é muito fácil. A bênção e a alegria implicam uma abertura ao bem que é um movimento adulto do coração. O bem é amoroso e nunca se impõe. É escolhido.

A paz escolhe-se, não se pode impor e não se encontra por acaso. Afastando-se das dobras amargas do seu coração, o ser humano precisa de fazer a paz com aquilo de que foge. É necessário reconciliar-se com a sua história, com os factos que não se aceitam, com as partes difíceis da própria existência. Pergunto-vos: cada um de vós reconciliou-se com a sua história? A verdadeira paz, efetivamente, não é mudar a própria história, mas acolhê-la e valorizá-la, tal como aconteceu.

Quantas vezes encontrámos cristãos doentes que nos consolaram com uma serenidade que não se encontra nos que gozam a vida e nos hedonistas. E vimos pessoas humildes e pobres rejubilar por pequenas graças com uma felicidade que tinha o sabor de eternidade.

Diz o Senhor no livro do Deuteronómio: “Eu coloquei diante de ti a vida e morte, a bênção e a maldição. Escolhe por isso a vida, para que vivas tu e a tua descendência”. Esta escolha é o “fiat” [faça-se] da Virgem Maria, é uma abertura ao Espírito Santo que nos coloca nas pegadas de Cristo, Ele que se entrega ao Pai no momento mais dramático e abre assim a vida que leva à ressurreição.

Quando é que a vida se torna bela? Quando se começa a pensar bem dela, qualquer que seja a nossa história. Quando faz caminho o dom de uma dúvida: a de que tudo seja graça, e esse santo pensamento desmorona o muro interior da insatisfação, inaugurando o autêntico descanso. A vida torna-se bela quando se abre o coração à Providência e se descobre como verdadeiro o que diz o salmo: “Só em Deus repousa a minha alma”. É bela esta frase do salmo.»


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: Syntheticmessiah/Bigstock.com
Publicado em 05.09.2018

 

 
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