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Nova Ágora: Memória e futuro de uma iniciativa aberta a não crentes

Há um ditado popular que refere que «os avós trabalham e fazem fortuna; os filhos desfrutam-na e os netos desperdiçam-na». Recorremos a esta expressão para dizer que nos sentimos afortunados porque somos herdeiros de uma grande história, de uma memória que vem de longe, muito de trás e que nós, herdeiros desse legado, sentimos o dever de o transmitir aos que venham depois de nós.

Podíamos perguntar, quem são os filhos que hoje se esforçam por erguer a sociedade e, sobretudo, quem são os netos que a construirão amanhã?

Karl Jaspers fez uma observação, em meu entender, muito curiosa: há no mundo antigo um período de grandes desenvolvimentos, que vai entre o ano 800 a 200 a.C. e que é a época de Homero, dos grandes profetas do Antigo Testamento, a época de Buda, dos Cantos de Shiking, por Lao Tsé e Confúcio, até Chang-Tsé. É o tempo das grandes culturas orientais da China, Índia, Pérsia e Israel. Imediatamente a seguir, surge a cultura grega, romana e o cristianismo. Somos herdeiros de todo este património, falado, escrito, transmitido, vivido, etc. Somos herdeiros da Constituição Europeia, desse património espiritual e moral, fundado, tal como refere a sua Constituição, sobre os valores indivisíveis e universais da dignidade humana, da liberdade, da igualdade e da solidariedade, que se baseia nos princípios da democracia e do Estado de Direito. Somos legatários de Schuman, Monnet, Gasperi e Adenauer. Estes constituem parte da história, um ontem que já passou.



Corremos o risco de forjar uma mentalidade com muitos diplomas, mas com uma consciência débil, que procura mais a diversão do que a integração social, integração esta que se encontra, sobretudo, não na vida real, mas nas redes sociais



Hoje, temos que olhar em frente para o futuro com expetativa, com tudo o que de bom temos e podemos. É nos jovens da nossa sociedade que temos que centrar o nosso olhar, é neles que devemos pôr a esperança. São estes jovens com inquietudes, alegrias e angústias que vão transmitir os sonhos e as realizações que vamos deixar. 

Ao olhar para trás, recuando até que a memória curta assim o permita, encontramos, em 2012, o Senhor Dom Jorge Ortiga, a patrocinar a iniciativa do Átrio dos Gentios, que decorreu em Guimarães e Braga, promovida conjuntamente pelo Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) e pela Arquidiocese de Braga, e que teve como objetivo suscitar o diálogo entre crentes e não crentes.

Desde então, Dom Jorge Ortiga tomou a iniciativa de dar continuidade a este diálogo, promovendo um conjunto de sessões culturais sobre diversas temáticas a que chamou Nova Ágora, inspirado na praça pública da antiga Grécia (Agorá), onde se discutiam diferentes assuntos ligados à vida da cidade (Pólis). Assim nasceu este Ciclo de conferências atento às grandes questões da sociedade e promovendo uma relação aberta entre Igreja, sociedade e cultura.

Na sua I edição, em 2015, o nosso olhar dirigiu-se para a economia, cultura, política e família, e contámos com a presença de João Lobo Antunes, Silva Peneda, Fernando Santos, Henrique Leitão, Assunção Cristãs, António Pinto Leite, Rosário Carneiro, Margarida Cordo, entre bastantes outros.



É prioritário voltar a propor um pensamento humanista de conteúdo social e de inspiração cristã. Nada de novo, dirão muitos, mas é isso mesmo em que acreditamos



Na II edição, em 2016, o nosso olhar estendeu-se para o trabalho, educação e arte, e tivemos a alegria de refletir com Manuel Cabral, Manuel Carvalho da Silva, Marques Mendes, Laborinho Lúcio, Marçal Grilo, António Guterres e Rui Chafes.

Na III edição, no ano passado, olhámos para o multiculturalismo, saúde e qualidade de vida e era digital, e estivemos com Ângelo Correia, Francisco Seixas da Costa, João Cardoso Rosas, Maria Leonor Beleza, Maria do Céu Patrão Neves, António Figueiredo, Alexandre Caldas, entre outros.

Nós somos, no presente, herdeiros deste diálogo e responsáveis por lhe dar continuidade.

A sociedade de amanhã dependerá das propostas que cada um de nós hoje apresentar, defender e interiorizar. Se as propostas forem construtivas, possivelmente, teremos uma sociedade mais confiante, próspera e com gente mais animada; se, pelo contrário, as nossas propostas forem inaptas, a sociedade retrocederá, tornar-se-á mais desumanizada e, seguramente, mais doente.

Neste sentido, a Nova Ágora, além de pôr em comum, visa também formar. Formar no sentido de esclarecer, ajudar a que cada um tenha uma opinião mais instruída sobre a sociedade que o rodeia. Cada um de nós é chamado não só a ser um bom profissional, mas a construir o seu meio. A mentalidade contemporânea, tendo em conta o ambiente consumista e hedonista da nossa sociedade, conduz muitas vezes à formação de pessoas cómodas e desinteressadas do bem público. Parece que a sociedade deve ser construída pelos outros, pelos políticos e nós sentámo-nos instalados à espera de que as coisas aconteçam.


Este Ciclo de três conferências constituirá uma oportunidade excelente para recentrar as nossas prioridades e valorizar o que nos une, numa clara vontade de querer abrir a Igreja e humanizar a sociedade



Esta mentalidade presentista está relacionada com a vontade e a necessidade de viver o dia-a-dia; com a preocupação de ganhar dinheiro suficiente para o gastar quase no imediato. Um dinheiro que se investe no conforto e no prazer, procurando vivê-los intensamente, vivência esta muito orientada à satisfação das necessidades vinculadas com a sociabilidade do mundo do ócio e do consumo.

Quando assim é, tornamo-nos um peso para a sociedade, sem dimensão crítica, em que qualquer proposta tem o mesmo valor. Neste aspeto, corremos o risco de forjar uma mentalidade com muitos diplomas, mas com uma consciência débil, que procura mais a diversão do que a integração social, integração esta que se encontra, sobretudo, não na vida real, mas nas redes sociais.

Cremos, por isso, ser prioritário voltar a propor um pensamento humanista de conteúdo social e de inspiração cristã. Nada de novo, dirão muitos, mas é isso mesmo em que acreditamos. Contrariamente à conceção materialista ou economicista da vida, que coisifica o ser humano, propomos a prioridade da pessoa e a salvaguarda da sua dignidade e liberdade.    

É neste contexto de confiança, no poder transformador do ser humano, que propomos a IV edição da Nova Ágora, promovendo três grandes conferências. Na primeira, que se realiza no próximo dia 2 de março, procuraremos estender o nosso olhar sobre as questões da ecologia com o Ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, com Sofia Guedes Vaz, que trabalhou na Agência Europeia do Ambiente, e Francisco Ferreira, da Associação Zero, moderados por Manuel Carvalho, jornalista do Público.



Arnold Toynbee dizia que as sociedades dependem das suas “minorias criativas”. Temos, assim, a partir desta formulação uma saída por onde se pode viver melhor, porém, ela depende de cada um de nós



Na sexta-feira seguinte, dia 9 de março, dedicar-nos-emos à cidadania e responsabilidade social. Para debater este tema teremos o olhar especialista do ex-reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, do historiador Pacheco Pereira e de Isabel Estrada, professora da Universidade do Minho, moderados por Júlio Magalhães, diretor do Porto Canal.

Na última conferência deste Ciclo, que se realizará no dia 16 de março, o nosso olhar vai para uma das questões mais problemáticas que estamos a viver na Europa, e de um modo muito particular em Portugal, refiro-me ao envelhecimento e qualidade de vida. Para nos ajudar a refletir sobre esta problemática, contaremos com a presença do Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, José Vieira da Silva, do Professor Sobrinho Simões, fundador do IPATIMUP, e de Manuel Lopes, Coordenador da Reforma do Serviço Nacional de Saúde para a Área dos Cuidados Continuados Integrados. Esta sessão será moderada por Conceição Lino, jornalista da SIC.

Este Ciclo de três conferências constituirá uma oportunidade excelente para recentrar as nossas prioridades e valorizar o que nos une, numa clara vontade de querer abrir a Igreja e humanizar a sociedade, pelo que o diálogo, tal como já se referiu, é naturalmente a língua materna deste Ciclo.

Até ao momento utilizámos uma fórmula que funcionou bem: vincularam-se as propostas da Nova Ágora à sociedade, aos seus agentes de desenvolvimento, comprometidos com a sociedade civil.  E assim - acreditamos - pode ser que haja uma ação conjunta, uma relação de ida e volta, onde todos ganham e se enriquece a vida pessoal e coletiva.

Arnold Toynbee dizia que as sociedades dependem das suas “minorias criativas”. Temos, assim, a partir desta formulação uma saída por onde se pode viver melhor, porém, ela depende de cada um de nós.



 

P. Eduardo Duque
Coordenador da Nova Ágora
Imagem: Braga | StockPhotosArt/Bigstock.com
Publicado em 19.02.2018

 

 

 
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