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Orhan Pamuk, Nobel da Literatura: «Nos museus temos História, mas o que precisamos é de histórias»

Imagem D.R.

Orhan Pamuk, Nobel da Literatura: «Nos museus temos História, mas o que precisamos é de histórias»

Orhan Pamuk, escritor turco vencedor do Prémio Nobel da Literatura, fundador do Museu da Inocência, em Istambul, foi um dos intervenientes na conferência que o Conselho Internacional dos Museus (ICOM) realizou esta semana na cidade italiana de Milão.

Na mensagem em vídeo que dirigiu aos participantes, Pamuk defendeu que os museus devem ser mais pequenos, começando por se estabelecer nas próprias casas familiares, e vincou que a medida do seu sucesso «não deve ser a sua aptidão para representar um Estado, uma nação, uma sociedade ou uma história particular» mas a «capacidade para revelar a humanidade de indivíduos», dando lugar ao «romance» em vez do «épico».

 

Manifesto
Orhan Pamuk

Todos os museus são genuínos tesouros da humanidade, mas eu sou contra essas instituições preciosas e monumentais usadas como modelos para as instituições que virão. Os museus devem explorar e desvelar a população como um todo e a humanidade do homem novo e moderno que emerge das economias em crescimento de países não ocidentais. Eu dirijo este manifesto em particular aos museus asiáticos que estão a experienciar um período de crescimento sem precedentes.

O objetivo dos grandes museus patrocinados pelo Estado é representar o Estado, e esse não é nem um objetivo bom nem inocente. Aqui estão as minhas propostas para um novo museu, algumas das quais devemos refletir agora mais do que nunca.

Os grandes museus nacionais como o Louvre e o Hermitage assumem a forma de instituições turísticas com a abertura de palácios reais e imperiais ao público. Estas mesmas instituições, hoje símbolos nacionais, apresentam a narrativa da nação, História com “H” maiúsculo, como sendo muito mais importante do que as histórias dos indivíduos. Isto é uma pena, dado que as histórias individuais retratam muito melhor as profundezas da nossa humanidade.

A segunda reflexão que quero introduzir é que as transições de palácios para museus nacionais e do épico para o romance são processos paralelos. O épico é como um palácio: fala de gestos heroicos dos reis que nele habitaram. Os museus nacionais devem ser como romances, mas não tem sido o caso.

Terceiro: não precisamos de mais museus que tentem construir uma narrativa histórica da nossa comunidade e sociedade como uma narrativa de fação, nação e Estado. Todos nós sabemos que as histórias normais e do dia a dia são mais ricas, mais humanas e, acima de tudo, mais alegres.

Quarto: demonstrar a riqueza da história e cultura chinesa, indiana, mexicana, iraniana ou turca está fora de questão. Deve, seguramente, ser feita, e não é difícil de fazê-la. O verdadeiro desafio é utilizar museus para dizer com o mesmo brilho, poder e profundidade as histórias dos seres humanos que vivem nesses países.

Quinto: a medida do sucesso de um museu não deve ser a sua aptidão para representar um Estado, uma nação, uma sociedade ou uma história particular. Deve ser antes a sua capacidade para revelar a humanidade de indivíduos. Temos de julgar os museus segundo esse critério.

Sexto: É imperioso que os museus se tornem mais pequenos, mais orientados para o individual e mais económico. Esta é a única maneira de alguma vez poderem contar histórias a uma escala humana. Os grandes museus convidam-nos a esquecer a nossa humanidade e aceitar o Estado e as suas massas humanas. É por isso que há milhões, fora do Ocidente, que se assustam com os museus. É por isso que os museus estão associados aos Governos.

Sétimo: o objetivo dos museus do presente e do futuro não pode ser o de representar o Estado mas recriar o mundo dos seres humanos individuais, os mesmos seres humanos que sofreram sob a opressão tirânica durante centenas de anos.

Oitavo: os recursos canalizados para os grandes museus monumentais e simbólicos devem ser redirigidos para pequenos museus que contam a história dos indivíduos. Estes recursos devem também ser usados para apoiar e encorajar as pessoas a transformar as suas pequenas casas e pequenas histórias em espaços de narrativa.

Nono: se os objetos não são desenraizados dos seus contextos e ruas, mas situados cuidadosamente nos seus espaços naturais, podem ter uma maneira de independentemente contarem as suas próprias histórias. Precisamos de museus modestos que possam honrar as ruas, casas e lojas à sua volta e transformá-las em momentos da sua narrativa.

Em resumo, o futuro dos museus começa em casa. A situação é muito simples: estamos habituados a ter épicos, mas o que precisamos é de romances. Nos museus estamos habituados à representação, mas o que precisamos é expressão. Estamos habituados a ter monumentos, mas o que precisamos é de casas.

Nos museus temos História, mas o que precisamos é de histórias. Nos museus temos nações, mas o que precisamos é de pessoas. Temos grupos e fações nos museus, mas o que precisamos é de indivíduos. Temos museus grandes e caros e continuaremos a ter ainda mais, especialmente na Ásia, onde o dinheiro dos Governos está a fundar esses museus. Todavia o que precisamos é de museus mais pequenos e económicos que se dirijam à nossa humanidade.

 

In "The Art Newspaper"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 06.07.2016

 

 
Imagem D.R.
Demonstrar a riqueza da história e cultura chinesa, indiana, mexicana, iraniana ou turca está fora de questão. Deve, seguramente, ser feita, e não é difícil de fazê-la. O verdadeiro desafio é utilizar museus para dizer com o mesmo brilho, poder e profundidade as histórias dos seres humanos que vivem nesses países
Os recursos canalizados para os grandes museus monumentais e simbólicos devem ser redirigidos para pequenos museus que contam a história dos indivíduos. Estes recursos devem também ser usados para apoiar e encorajar as pessoas a transformar as suas pequenas casas e pequenas histórias em espaços de narrativa
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