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No tempo do nós

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No tempo do nós

O nosso tempo conhece uma evidente aceleração da história: a desordem global, o terrorismo, o tumultuoso crescimento da Ásia, a interconexão crescente das informações e dos transportes, o crescimento das migrações, o desafio climático... Um mundo novo perfila-se no horizonte, mas ainda não aprendemos a colocar-nos nele, a compreendê-lo perfeitamente e a dominá-lo. Esta aventura que nos é tocada em sorte precisa de uma nova gramática, de uma bússola que nos oriente.

É preciso refletir e voltar a refletir sobre o discurso pronunciado há alguns dias em Assis, durante o encontro internacional por ocasião dos 30 anos do "espírito de Assis", por Zygmunt Bauman: «A história da humanidade pode ser resumida de muitas maneiras, uma das quais é a progressiva expansão do pronome "nós». Um "nós", continuava o grande sociólogo, que se contrapôs durante séculos aos "outros", a um "eles".

Mas, concluía Bauman, «encontramo-nos hoje diante da necessidade iniludível de uma nova etapa desta expansão, de um salto para a abolição do pronome "eles". Vivemos numa realidade cosmopolita, que procuramos gerir com meios desenvolvidos por antepassados que se moviam em territórios limitados, e esta é uma armadilha. Somos todos dependentes uns dos outros e não se pode voltar atrás. É preciso promover uma cultura do diálogo, de uma verdadeira e própria revolução cultural».

Há, é verdade, uma revolução cultural a enfrentar para que o "nós" se expanda consideravelmente. O "nós" do meu avô era a Sardenha, o meu a Europa. Mas o dos nossos netos será cada vez mais o mundo.

Isto representa um desafio para todos, mas para os crentes assume um valor particular. Para os cristãos significa acreditar mais na grande intuição das origens, essa primeira globalização da história expressa de modo claro e surpreendente pelo apóstolo Paulo, filho de duas culturas e capaz já então de circular para além de ambas: «Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus» (Gálatas 3, 28).

Isto significa, por outras palavras, dar-se conta de que não há alternativa. Porque é verdade o que diz Bauman, que não se pode voltar atrás: os povos, as culturas, as religiões, os continentes ou andarão à deriva, com as terríveis consequências que podemos imaginar, ou terão de convergir para uma unidade que não é superação das diferenças, mas consciência de quanto somos todos interdependentes uns dos outros.

A alternativa ao "nós" não é a independência, mas a dependência dos "demónios" da divisão e do recontro, a multiplicação incontrolada dos "eles" que só pode conduzir a um perigoso crescimento dos extremismos e da rivalidade. Escreveu Ban Ki-moon, secretário geral da ONU: «Os extremistas obrigam-nos a decidir em que parte estar usando a dicotomia "nós contra eles"».

Onde escolheremos viver? Em cidades habitadas pelo "demónio" dos "eles", em conflitualidade permanente, ou em cidades cuja marca é o "nós", ainda que com todos os pequenos e menos pequenos problemas que nascem da convivência? Para dar um exemplo concreto: teríamos preferido viver na Sarajevo de algumas décadas ou na de hoje?

O ano passado o papa Francisco, precisamente em Sarajevo, encontrando os jovens dizia: «Vós sois a primeira geração pós-guerra. Flores de primavera que querem seguir em frente e não voltar ao que nos torna inimigos uns dos outros. Vós não quereis ser inimigos uns dos outros. Quereis caminhar juntos, como disse Nadežda. E isto é grande! Não somos "eles e eu", somos "nós". Queremos ser um "nós", para não destruir a pátria, para não destruir o país. Tu és muçulmano, tu és judeu, tu és ortodoxo, tu és católico... mas somos "nós". Isto é fazer a paz. Uma vocação grande: nunca construir muros, só pontes».

Sim, a gramática deste tempo e a da paz precisam de um "nós", de cada um de nós. Só assim seremos mais seguros e mais felizes, não construindo novos muros de tijolos, de arame ou de desconfiança. E também não - segundo a conhecida metáfora de Hegel - voando ao anoitecer, como a coruja de Minerva, isto é, quando já for demasiado tarde para compreender o nosso tempo.

 

Marco Impagliazzo
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 05.10.2016

 

 
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Onde escolheremos viver? Em cidades habitadas pelo "demónio" dos "eles", em conflitualidade permanente, ou em cidades cuja marca é o "nós", ainda que com todos os pequenos e menos pequenos problemas que nascem da convivência? Para dar um exemplo concreto: teríamos preferido viver na Sarajevo de algumas décadas ou na de hoje?
«Não somos "eles e eu", somos "nós". Queremos ser um "nós", para não destruir a pátria, para não destruir o país. Tu és muçulmano, tu és judeu, tu és ortodoxo, tu és católico... mas somos "nós". Isto é fazer a paz. Uma vocação grande: nunca construir muros, só pontes»
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