Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

«No centro do cristianismo está Cristo, não o bem-estar próprio»: Discernimento, leitura e implicação nos sinais dos tempos

O fundador da comunidade monástica de Bose, Enzo Bianchi, está «muito preocupado com a espiritualidade católica dominante», caracterizada por um «teísmo vago, católico, antropológico e moralizante que tende para o bem-estar de si».

«Isto já não é cristianismo», frisa o religioso italiano, que fala da premência do «discernimento comunitário», porque tanto ele como o individual têm em vista o «bem comum», o que Deus pede, os «sinais dos tempos a decifrar» e «as urgências dos lugares a assumir».

«Penso que os fiéis já não estão habituados a fazer discernimento», assinala, sublinhando a necessidade de retomar a figura do «acompanhante espiritual», não obstante as conotações negativas que sugere, «porque é um grande ministério visionário: trata-se de suscitar perguntas, estímulos, inspirações», nada pedindo «contra a liberdade e contra a consciência».

 

De onde nasce a urgência do discernimento?

A urgência do discernimento sempre existiu em toda a vida da Igreja nestes dois mil anos. Mas hoje há uma novidade. É a urgência do discernimento comunitário. Ao longo de dois mil anos procurámos, falámos e meditámos sobretudo acerca do discernimento individual, de Orígenes aos padres do deserto até Inácio de Loyola. Mas negligenciámos o discernimento comunitário eclesial. Se a Igreja tem de fazer um caminho sinodal, o discernimento é a condição “sine qua non” para poder fazer um caminho em conjunto. De outra maneira não haverá nem convergência nem possibilidade de chegar a opções eclesiais.

 

É dessa urgência que nasce, por exemplo, a opção do papa Francisco indicar “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” como tema para a próxima assembleia geral do sínodo dos bispos, em outubro?

Não devemos pensar que tudo vai convergir para os jovens e para a vocação [chamamento de Deus]. Se assim fosse trair-se-ia a intenção do papa Francisco. Toda a Igreja vai discernir. E entre os problemas que se colocam está certamente o da presença dos jovens na Igreja – que hoje são a parte ausente – e o seu caminho nas diferentes vocações que devem fazer. Mas o primeiro ponto é o discernimento. É preciso estarmos atentos, porque coloca-se muita ênfase nas vocações e nos jovens e considera-se o discernimento como se fosse apenas instrumental para a escolha vocacional. O discernimento é uma operação muito mais ampla: quer seja eclesial quer pessoal, nem sempre é feito em vista da vocação, mas em vista do bem comum, em vista do que Deus nos pede, em vista dos sinais dos tempos a decifrar, das urgências dos lugares a assumir. É um discernimento muito mais complexo aquele que o papa nos pede para refletir e celebrar no sínodo.

 

Uma figura chave no discernimento é a do pai [padre] espiritual, que parece atravessar hoje um período de crise. Como superar esta situação?

Penso que os fiéis já não estão habituados a fazer discernimento. E depois, infelizmente, tivemos os diretores de consciência que deixaram atrás de si uma má recordação. Por isso hoje, retomar a figura do pai [padre] espiritual – ou melhor, do acompanhante espiritual – tornou-se uma operação difícil. Tem-se medo de alguém que venha espiar a nossa vida, que venha limitar a nossa liberdade. E, na verdade, há uma tentação em muitos pais [padres] espirituais de dizer a quem se dirige a eles: «A ti, a quem o Espírito Santo nada diz, eu digo-te…»; como se o Espírito Santo falasse só a eles. São patologias deste ministério, é preciso refletir. Mas é preciso retomá-lo porque é um grande ministério visionário: trata-se de suscitar perguntas, estímulos, inspirações. Não constranger, não impor, não pedir nada contra a liberdade e contra a consciência.

 

Os fiéis considerados individualmente e as comunidades parecem cada vez menos interessados numa leitura da história pessoal e coletiva. Porque é que isto aconteceu e como ajudá-los a reencontrar o gosto pela leitura dos sinais dos tempos?

Trata-se de ajudá-los a compreender a importância da comunhão e da solidariedade com os homens e a história. O problema é que hoje há um individualismo muito narcisista, e tudo isto impede qualquer coisa que se deva fazer em conjunto, que é, seguramente, também o discernimento, o esperar juntos, o preparar um futuro para o mundo e para a Igreja juntos.

 

Como inverter a rota?

É um processo de longa educação, mas é preciso ter a coragem de dizer não ao narcisismo imperante e fazer sair as pessoas de si mesmas, com vista a um caminho de comunhão e não egocêntrico e simplesmente para o bem-estar de si próprias.

Estou também muito preocupado com a espiritualidade católica dominante, que me parece um teísmo vago, católico, antropológico e moralizante que tende ara o bem-estar de si. Isto já não é cristianismo. No centro do cristianismo está Cristo, não o bem-estar próprio. Porque de outra forma os homens da Escritura como [o profeta] Jeremias ficariam fora de toda a possibilidade de comunhão com Deus e de serem verdadeiros homens de Deus. Mas hoje a espiritualidade de muitos pais espirituais vai naquele sentido e já não é cristã. Já não tem Cristo no centro, mas sobretudo o bem-estar próprio. Domina um narcisismo moralizante.


 

Alberto Baviera
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: tumsubin/Bigstock.com
Publicado em 12.09.2018

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos