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No átrio da poética existencial de Vasco Graça Moura

Imagem Vasco Graça Moura | D.R.

No átrio da poética existencial de Vasco Graça Moura

No ano em se perfaz meio século sobre a carta apostólica "Altissimi cantus", dada a conhecer por Paulo VI sob a forma de "motu proprio" sobre a importância única de Dante na tradição da cultura católica (e, a esse propósito, texto doutrinário de referência no que respeita às relações profundas e fecundas entre espiritualidade e poesia, teologia e arte), será bom lembrarmos quanto devemos a Vasco Graça Moura - ao tradutor e ao poeta, ao erudito e ao ensaísta - na propiciação de novos meios de acesso ao conhecimento da "Commedia" e à reperspetivação das complexas implicações de toda a obra do seu autor.

Será bom lembrarmos também que esse labor inestimável em torno de Dante não constituiu iniciativa ocasional, nem trabalho isolado no rico trajeto criativo e crítico de Vasco Graça Moura. Inseriu-se, pelo contrário, numa orientação permanente de busca orgânica das fontes de sentido e de beleza, em todos os quadrantes e, em particular, na melhor tradição de cultura europeia, onde naturalmente se lhe impunham ao estudo e à receção valorativa os elementos de matriz cristã.

Nesse quadro, também assim procedeu e legou Vasco Graça Moura em relação à cultura portuguesa e aos seus grandes criadores e acontecimentos artísticos - especialmente no seio do Humanismo renascentista e do Maneirismo, bem como da Modernidade pós-baudelairiana, para ele culminantes nos dois grandes escritores católicos que são Camões e Nemésio.

É sabido que a personalidade do Dr. Vasco Graça Moura e os seus desassombrados pronunciamentos nos contextos em que se moveu, com espírito polémico, o autor empírico de "Babel sobre Babel", não podem ser sofismados com vista a qualquer veleidade de incorporação póstuma na comunhão dos crentes. E não faltam na existência imanente da poesia e da ficção narrativa do autor textual do "testamento de VGM" marcas de contínua erosão da formação católica, na lírica, e de progressiva rasura sociocultural do religioso, na novelística. Sobre tudo isso («não creio em deus, não me atingiram /seus metafísicos engodos. / ... / mas recebi, por formação, / os sacramentos quase todos / e só me falta a extrema-unção.») veio ferir-nos, em termos que julgamos de infundada assertividade, o conhecido texto "Contra Deus" e a decisão de o inserir no livro "Discursos Vários Poéticos".

Cremos, porém, que a obra de criação estético-literária de Vasco Graça Moura ainda alberga, uma e outra vez, no seu peculiar registo de melancolia sacudida, rastos e gestos de tocante nostalgia da harmonia existencial sob o signo da Fé e da Esperança. Como não ler esse aceno, pelo menos como um dos vetores da sua semântica da incerteza, no «domingo de páscoa» de "Poemas com pessoas" (1997), na «canção da foz do douro» de "Laocoonte, rimas várias, andamentos graves" (2005) e em poemas idênticos?!

E cremos que, sobrepujando a sua pragmática de situação, o próprio negacionismo de "Contra Deus" permite hoje uma receção similar à que (...) José Manuel Ventura convincentemente propôs para o propalado antipessoanismo de Vasco Graça Moura: tal como aí se evidencia que, longe de ignorar ou depreciar Pessoa, fundamentalmente lhe interessava reagir contra a estereotipada idolatria e lançar sobre a obra pessoana uma luz liberta dos triviais "abat-jours", assim os estigmas da descrença de Vasco Graça Moura não devem impedir nem empobrecer o nosso encontro com quanto - na sua poesia, na sua novelística, nos seus ensaios e estudos - nos abre caminhos de Sentido e de Beleza, que "nolens volens" conduzem ao valor divino do humano.

 

José Carlos Seabra Pereira
Professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In "Brotéria", março 2015
Publicado em 09.06.2015

 

 
Imagem Vasco Graça Moura | D.R.
Não faltam na existência imanente da poesia e da ficção narrativa do autor textual do "testamento de VGM" marcas de contínua erosão da formação católica, na lírica, e de progressiva rasura sociocultural do religioso, na novelística
Os estigmas da descrença de Vasco Graça Moura não devem impedir nem empobrecer o nosso encontro com quanto - na sua poesia, na sua novelística, nos seus ensaios e estudos - nos abre caminhos de Sentido e de Beleza, que conduzem ao valor divino do humano
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