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No amor não há temor

No amor não há temor

Imagem "Mulher unge os pés de Jesus | Rubens

Jesus foi um dia convidado para a mesa de Simão, um fariseu, um homem religioso, observante da Lei e justo, irrepreensível no seu comportamento (cf. Lucas 7, 36-50). Ele aceita o convite, entra em sua casa e acomoda-se à mesa para este banquete reservado só a homens. E eis que uma mulher, notoriamente uma prostituta, e portanto uma pecadora manifesta e reconhecida como tal pelos habitantes daquela cidade, sabendo que Jesus se encontra à mesa naquela casa, apresenta-se audaciosamente no banquete levando um vaso de alabastro cheio de perfume.

Entra furtivamente, ocultamente, detém-se «por detrás» de Jesus, dobra-se aos seus pés (em posição de escuta, de discípula, como Maria de Betânia) e faz aquilo que muitas vezes fazia por mester: lavar os pés dos clientes e perfumá-los. Faz também assim com Jesus, mas com uma novidade significativa: fá-lo gratuitamente, não requerida, e lava os seus pés com as próprias lágrimas, beijando-os com todo o amor de que é capaz. Ouviu falar de Jesus, escutou-o e ama-o ao ponto de ousar com audácia um gesto extraordinário.

É uma mulher anónima não porque não tenha dignidade, mas para que cada um dos leitores e leitoras do Evangelho não se sinta estranho à sua condição, por ela representada. E aqui o leitor esqueça a tradição, devida a S. Gregório Magno, que individua nesta mulher quer Maria de Magdala quer Maria de Betânia, que fará a unção dos pés (ou da cabeça) de Jesus na vigília da sua paixão. Esta é uma mulher sem nome, que vive no pecado da prostituição. Atividade que, ao tempo de Jesus na Palestina, não era escolhida, mas à qual eram destinadas desde pequenas as crianças abandonadas pelos pais ou compradas como escravas. Sim, esta é antes de tudo uma pobre mulher, vítima do abandono ou do domínio dos homens, por outros destinada à prostituição.



Por fim, tira um frasco de perfume, esparge com o unguento os pés de Jesus. Isto é verdadeiramente excessivo! Esta eloquência do corpo feminino em relação ao corpo de Jesus, um rabi e um profeta, é inédita e mete medo! Jesus, ao contrário, lê tudo diferentemente



E eis que, à vista dos gestos realizados por esta mulher, se cria subitamente um grande embaraço e os homens religiosos presentes, em primeiro lugar o fariseu que tinha convidado Jesus, ficam escandalizados: Jesus é um rabi que não lhe imputa nada, não a acusa e deixa-se palpar por esta mulher, reconhecida como uma prostituta pela roupa. A intimidade imprópria com uma mulher é uma grave ofensa à Lei porque aquela mulher é impura, é uma prostituta.

O fariseu é forçado pela sua ética a pensar: ou Jesus não é um profeta e não sabe o que está a acontecer nem quem é aquele mulher, ou então é alguém que na verdade aprecia aqueles gestos, a companhia das prostitutas, o seu comportamento. A cena é intolerável, embaraça porque tem indubitavelmente uma qualidade erótica: aquela prostituta toca e palpa os pés de Jesus, beija-os, banha-os com as lágrimas e depois enxuga-os com os seus longos cabelos. É uma mulher não velada como todas as outras e realiza os gestos nos quais as prostitutas são especialistas para seduzir e dar prazer.

Por fim, tira um frasco de perfume, esparge com o unguento os pés de Jesus. Isto é verdadeiramente excessivo! Esta eloquência do corpo feminino em relação ao corpo de Jesus, um rabi e um profeta, é inédita e mete medo! Jesus, ao contrário, lê tudo diferentemente: é uma mulher aninhada aos seus pés que toca o seu corpo, chora até lavar os seus pés com as lágrimas, enxuga-os com os seus cabelos, beija-os sem dizer uma palavra e perfuma-os.



Num silêncio absoluto deixa que seja o seu corpo a exprimir a sua linguagem afetiva: audácia, humildade, amor, tudo é sintetizado «nas suas lágrimas, o verdadeiro significado escondido naqueles gestos»



Jesus vê uma mulher que sofreu e que sofre, que ama, uma mulher à procura de amor, enquanto o fariseu vê uma pecadora. Aqui está a diferença entre o rabi Jeshu'a e os outros peritos da Lei, os homens religiosos: Jesus não vê primeiro o pecado, mas o sofrimento, e aqui, sobretudo, vê alguém que pode ser amado apesar dos seus pecados e que ainda ama; os homens religiosos exercitam-se primeiro a espiar, a medir o pecado, a emitir um juízo, depois, eventualmente, veem o sofrimento, que impõem aos outros, como resultado do pecado.

Segundo a Lei e o pensamento dominante, aquela mulher impura, tocando o corpo de Jesus, comunicar-lhe-ia a sua impureza, mas o Evangelho sublinha antes que ela sabe transformar numa manifestação de amor para com Ele aquilo que tinha sempre realizado como prestação paga. Impelida pelo amor, age sem temor: «no amor não há temor» (1 João 4, 18)! O que faz está no registo amoroso, e Lucas descreve as ações no imperfeito, isto é, como gestos repetidos, caracterizados por uma longa duração: «enxugava, banhava, ungia»... As mãos desta mulher tomam e abraçam os pés de Jesus, as suas lágrimas banham-nos até os lavarem, os seus cabelos enxugam-nos, os seus beijos narram com a boca os seus sentimentos, as suas mãos derramam perfume e espalham-no nos seus pés: gestos que são um conjunto de carícias, de beijos, de experiência tátil entre dois corpos.

A mulher chora porque sente a culpa dos pecados cometidos, ou talvez chore de alegria, porque encontrou finalmente um homem que pode verdadeiramente amar e por ele ser amada. Num silêncio absoluto deixa que seja o seu corpo a exprimir a sua linguagem afetiva: audácia, humildade, amor, tudo é sintetizado «nas suas lágrimas, o verdadeiro significado escondido naqueles gestos» (François Bovon). É muito feminina esta atitude de intimidade, marcada pelo tocar Jesus com as mãos e os cabelos soltos: finalmente alcançou-o!



 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.04.2017

 

 
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