Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

O Natal segundo Bergoglio: Dar lugar ao silêncio

Imagem © Stratos Kalafatis

O Natal segundo Bergoglio: Dar lugar ao silêncio

O texto de que apresentamos alguns excertos faz parte de um pequeno livro (64 pp.) de Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco), intitulado "A força do presépio", que a editora italiana Emi lançou esta segunda-feira nas livrarias do país.

O volume, com prefácio do padre Antonio Spadaro, recolhe reflexões natalícias apresentadas em 1987. O extrato que propomos centra-se na importância decisiva do silêncio para a espiritualidade, para a vida, para a valorização da palavra.

 

Jorge Mario Bergoglio
In "A força do presépio"


O abade Arsénio dizia que muitas vezes se arrependia de ter falado, e nunca de se ter calado. Entendia que o silêncio é uma disciplina interior à qual se presta atenção.

«Se alguém não peca pela palavra, esse é um homem perfeito, capaz também de dominar todo o seu corpo. Quando pomos um freio na boca do cavalo para que nos obedeça, dirigimos todo o seu corpo. Vede também os barcos: por grandes que sejam e fustigados por ventos impetuosos, são dirigidos com um pequeno leme para onde quer a vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas.Vede como um pequeno fogo pode incendiar uma grande floresta! Assim também a língua é fogo, é um mundo de iniquidade; entre os nossos membros, é ela que contamina todo o corpo e, inflamada pelo Inferno, incendeia o curso da nossa existência. Todas as espécies de animais selvagens, de aves, de répteis e de animais do mar se podem domar e têm sido domadas pelo homem. A língua, pelo contrário, ninguém a pode dominar: é um mal incontrolável, carregado de veneno mortal. Com ela bendizemos quem é Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procedem a bênção e a maldição» (Tiago 3, 2-10).

Diz Santa Teresa: «É grave culpa quando uma irmã não observa habitualmente o silêncio». Os Padres do Deserto insistiram muito neste ponto. Por exemplo: «Todo o trabalho será fonte de abundância, mas falar com muita frequência será fonte de pobreza»; «aquele que fala muito, faz dano à sua alma»; «o intrujão é sempre ignorante; o sábio fala com parcimónia; falar  muito revela insensatez. A voz do insensato multiplica as palavras e os argumentos»; «o que fazes verdadeiramente, fá-lo em silêncio e em oração». Todas estas sentenças baseiam-se num versículo da Escritura: «No muito falar não falta a culpa» (Provérbios 10, 19).

De facto, a loquacidade em excesso indica sempre uma certa falta de trabalho, um mau ócio. S. Paula recorda-o a propósito das viúvas jovens: «Estando na ociosidade, habituam-se a andar de casa em casa e a ser, não só ociosas, mas também loquazes e indiscretas, falando do que não convém» (1 Timóteo 5, 13).

Os meios de comunicação de massa submergem-nos naquele que podemos chamar um «dilúvio de palavras». Pergunto-me: «Sou capaz de viver sem o rádio? Durante quantos dias?». Há um consumismo de palavras: palavras doces, sedutoras, objetivas, coléricas... de todo o género. Palavras que procuram entrar-nos com rumor no coração e nada trazem à verdade.

A Palavra criou o universo, a Palavra de Deus, que disse e tudo foi feito. A palavra que usamos foi desprovida do seu poder criador. E nós, com efeito, sabemo-lo, porque instintivamente desconfiamos das palavras que nos são ditas, não lhes damos fé, dizemos: «Não são mais que palavras... não têm nada a ver com a verdade». (...)

Eis o coração do problema: se não há solidão, não há silêncio, e sem ambos não há verdade. (...) As verdadeiras palavras forjam-se no silêncio. Mais ainda: o próprio núcleo da palavra deve ser silencioso. Se a palavra é verdadeira, no seu coração aninha-se o silêncio. E a palavra, uma vez pronunciada, regressa ao silêncio abissal e fecundo de onde proveio. A palavra morre para dar lugar ao amor, à beleza, à verdade que ela própria transportou. (...)

A nossa palavra, o nosso falar, que nasce do silêncio, deve contentar-se por morrer, regressando ao silêncio de onde saiu. O silêncio ensina a falar, dá força à palavra, a qual - por este silêncio que contém - não é mero rumor (cf. 1 Coríntios 13, 1). O silêncio ensina a falar porque mantém no nosso íntimo o fervor religioso, a atenção ao Espírito Santo. O silêncio eleva a vida do Espírito Santo em nós.

A este respeito, diz Diádoco de Foticeia: «Tendo continuamente aberta a porta do banho perde-se o calor do ambiente interno; assim também, quando a alma cede ao desejo de falar em demasia, mesmo que seja acertado o que diz, desperdiça a íntima presença a si própria pela porta da voz. (...) Grande coisa é o silêncio oportuno, é o pai do pensamento penetrante». Noutro lugar fala da «ávida procura de silêncio» por parte do coração que deseja guardar a vida divina dentro de si. (...)

Fala de silêncio o apóstolo Tiago quando escreve: «Mas, se tendes no vosso coração uma inveja amarga e um espírito dado a contendas, não vos vanglorieis nem falseeis a verdade» (3, 14). Quando no teu coração não há silêncio, quando há um rumor nocivo, não o exprimas sob as mil formas de vanglória: o sarcasmo, a vaidade, o intimismo, a presunção, o mexerico, o fazer contrariado e atormentado, a necessidade de ter sempre alguma coisa a dizer. Amargura, afetos desordenados, ressentimentos, o embalar-se no próprio egoísmo... todas estas coisas são falta de silêncio interior e corrompem a verdade.

Por fim, o silêncio é a expressão mais alta e mais quotidiana da dignidade. Tanto mais nos momentos de prova e de crucificação, quando a carne deseja justificar-se e subtrair-se à cruz. No momento supremo da injustiça, «Jesus continuava calado» (Mateus 26,63; cf. também Isaías 53,7; Atos 8,32). Não entrou no jogo de responder a quantos lhe diziam para descer da cruz.

Toda a paciência de Deus, a paciência de séculos, e também o seu afeto, emergem aqui, neste silêncio do Cristo humilhado. Na história dos homens irrompe o silêncio eterno da Palavra, a "contemplatividade" amorosa do Pai e do Filho e do Espírito Santo, toda a comunhão trinitária do silêncio dos séculos. É Palavra, mas Palavra que - na hora da aniquilação provocada pela injustiça - se faz silêncio. "Iesus autem tacebat."

Contemplamos toda a "viagem" da Palavra de Deus (cf. João 1,1; 14, 2-3; 14, 10; 16,28); como se faz ternura no seio de uma Mãe. Esta Mãe «guardava todas as coisas, meditando-as no seu coração» (Lucas 2, 19.51). A sede da memória da Igreja está no coração silencioso de Maria. O silêncio "incarnado" do Verbo exprime-se naquele momento de injustiça, de humilhação, de aniquilação, na hora do poder das trevas. Essa é a dignidade de Jesus, e é também a nossa.

 

Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 24.11.2014

 

 
Imagem © Stratos Kalafatis
Há um consumismo de palavras: palavras doces, sedutoras, objetivas, coléricas... de todo o género. Palavras que procuram entrar-nos com rumor no coração e nada trazem à verdade
As verdadeiras palavras forjam-se no silêncio. Mais ainda: o próprio núcleo da palavra deve ser silencioso. Se a palavra é verdadeira, no seu coração aninha-se o silêncio
Por fim, o silêncio é a expressão mais alta e mais quotidiana da dignidade. Tanto mais nos momentos de prova e de crucificação, quando a carne deseja justificar-se e subtrair-se à cruz
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos