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Natal, infinito de misericórdia

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A vinda ao mundo, lugar de espaço e tempo, do divino na forma do Filho, que, assim, assume a espacialidade e a temporalidade e a matéria associada no que, em ato, é a sua carne, carne humana, assim divinizada, é ato de misericórdia por excelência não porque seja reação a um qualquer ato menor – Deus não é reativo, é, precisamente, ativo –, mas porque é o ato que completa e cumpre definitivamente isso que é a criação do mundo – leia-se não o provinciano cosmo moderno, mas o âmbito do ser, dado que Deus é trans-ser (isso já Platão tinha percebido).

Apenas com a vinda do Deus-Cristo ao mundo termina a criação deste último, pois, apenas com esta manifestação em carne se cumpre na perfeição a perfeição do ato do mundo. Cristo não é criatura, mas assume, através da metamorfose no seio da carne de Maria, a perfeição que a criatura humana nunca teve senão como possível. Em Cristo, na sua ação após a assunção da consubstancialidade divina-humana no seio da Mãe, ação sempre perfeita, atingiu o mundo a perfeição que nunca tivera.

Com o sim de Maria, foi possível ao mundo conhecer a mulher perfeita e o homem perfeito, cada um em seu nível ontológico próprio. Maria a mulher perfeita, sem mais. Cristo o homem perfeito como Deus-feito-homem.



Quem adora Deus, como Maria, adora o bem. Mesmo quando a sua carne está morta, adora-o. Não se deixa de amar o bem apenas porque está longe. O bem é eterno e a morte, real, nunca elimina o bem, apenas a distância ao bem, como em Job. O bem ressuscita sempre; sempre se ressuscita no bem



No entanto, é à carne de Maria e de Cristo que se pede perfeição de ato. É a carne de Maria que diz sim a ter na sua carne a carne do Salvador. É a sua carne que o alimenta, que dele cuida, que lhe dá o sim e o não quando tal é necessário – e não deve ser fácil fazê-lo a Deus. É a sua carne que sofre o inferno de um amor dilacerado por um mal absolutamente insano porque absolutamente injusto. É a sua carne que recebe ao seu colo, seu ventre e seu seio, suas mãos, o filho morto. São as mãos desta carne de Maria que, prenhes da vida perfeita que sempre foi, acarinham o seu Menino. É este carinho que é o símbolo da ressurreição. Se o ventre de Maria construiu a carne do Natal, são as suas mãos que servem de ventre à ressurreição: para quê ressuscitar? É um dever mecânico, uma deontologia divina?

E se não houvesse mãos carinhosas de Maria?

Valeria a pena ressuscitar?

Entenda-se o símbolo, se se quiser: é pelo amor de Maria, no seu símbolo de infinito amor pelo Filho, que este ressuscita. Sem este infinito amor de sua Mãe, para quê ressuscitar?



Apenas através do amor que é ato de bem litúrgico permanente para o outro, universalmente entendido, mas universalmente em cada pessoa concreta, definição do que é a misericórdia ativa, pode haver futuro para a humanidade



A ressurreição é o amor em ato. É a caridade, da caridade, para a caridade. Cristo não ressuscita para si próprio, como não morre para si próprio. Tudo isto é demasiadamente humano. Cristo nasce, vive, morre e ressuscita para nós.

Cristo ressuscita pelo amor da Mãe, para o amor da Mãe. É pela Mãe que bebe o cálice, pelo que há de bem na humanidade, não pelo que há de mal. O mal não tem merecimento. O mal nada é.

É o amor de Maria que nos dá o Salvador, não o mal. É o bem que faz Cristo nascer, não o mal. O mal é impotente. O pecado é impotente. A omnipotência é omnipotência de bem.

Quem adora Deus, como Maria, adora o bem. Mesmo quando a sua carne está morta, adora-o. Não se deixa de amar o bem apenas porque está longe. O bem é eterno e a morte, real, nunca elimina o bem, apenas a distância ao bem, como em Job. O bem ressuscita sempre; sempre se ressuscita no bem.

Já os adoradores do mal, esses, vivem sempre no inferno da relação que escolheram, irremíveis se não abandonarem a idolatria do nada, pecado contra o espírito.



É que a misericórdia, exatamente porque é o ato que contraria desde sempre o nada, é sempre contraditória do nada. Tal significa que, sem a misericórdia, sem o seu exercício, a humanidade se encaminha para o nada



É, pois, do amor caridoso de uma misericórdia divina só ato que o Natal de Cristo se trata. De nada mais. Deus criou o mundo através do incomparável ato de misericórdia que foi «tirá-lo» do nada. Na realidade, criou-o a partir do seu amor, posto como misericórdia providente assim que criou – e continua a criar, sempre que há misericórdia (quem não compreende isto encontra-se em situação infernal).

O Natal é o segundo e definitivo momento de Misericórdia, que se espraia na Páscoa da Ressurreição, teofania que sela para o ser humano a perfeição do ato de Deus para com o mundo e solicita a perfeição do ato do mundo, não para com Deus – que dele não necessita –, mas para consigo próprio, como única forma de subsistência.

É que a misericórdia, exatamente porque é o ato que contraria desde sempre o nada, é sempre contraditória do nada. Tal significa que, sem a misericórdia, sem o seu exercício, a humanidade se encaminha para o nada.

A misericórdia é o ato que mantém o ser.

Mantém-no quer através da ação providencial de Deus quer através da acção coprovidencial do ser humano.



O Natal é proposta universal, transcultural, transtemporal, anulando, não magicamente, mas através de atos reais, precisamente mediacionais, o mal, através do bem feito. E é este o único modo não-mágico de o fazer. O mais é magia e crendice, mesmo dita científica, muitas vezes



É, assim, como diz o Papa Francisco, na sua Carta Apostólica Misericordia et Misera. Na conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, «o caminho que somos chamados a percorrer no futuro.» (p. 7). Acrescentamos: ou não temos futuro.

É a misericórdia o ato verdadeiramente ecológico da humanidade. Sem misericórdia não haverá «oikos», casa, lar, para que a humanidade possa viver e exercer o seu «logos». Apenas através do amor que é ato de bem litúrgico permanente para o outro, universalmente entendido, mas universalmente em cada pessoa concreta, definição do que é a misericórdia ativa, pode haver futuro para a humanidade: ecologia como semelhante, pelo menos em tendência, a uma «cidade de Deus». É isto ou o caos, em que não há ecologia possível, pois, sem «logos», não há casa alguma.

No Natal e suas consequências plenas, cumpre-se a caridade misericordiosa de Deus para com o criado. O Natal é proposta universal, transcultural, transtemporal, anulando, não magicamente, mas através de atos reais, precisamente mediacionais, o mal, através do bem feito. E é este o único modo não-mágico de o fazer. O mais é magia e crendice, mesmo dita científica, muitas vezes.

Nada se opõe ou pode opor à graça misericordiosa de Deus; nada com efetividade real: «ainda antes e acima da revelação do pecado, temos a revelação do amor com que Deus criou o mundo e os seres humanos. O amor é o primeiro ato com que Deus Se deu a conhecer e vem ao nosso encontro.» (Papa Francisco, op. cit, pp. 14-15).

O Natal é, então, neste contexto, a forma real da ecologia universal como perene ato de misericórdia que ergue e permite a continuidade do mundo.

Santo Natal.



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 06.12.2016

 

 

 
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