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Nas igrejas da Igreja, que saiam os vendedores e entrem os pobres: Meditação sobre o Evangelho de domingo

Imagem Basílica de S. João de Latrão, Roma | Foto: Michal Osmenda

Nas igrejas da Igreja, que saiam os vendedores e entrem os pobres: Meditação sobre o Evangelho de domingo

«Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: "Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio".
Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: "Devora-me o zelo pela tua casa".
Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-lhe: "Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?".
Jesus respondeu-lhes: "Destruí este templo e em três dias o levantarei".
Disseram os judeus: "Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?".
Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.» (João 2, 13-22, Evangelho de 9 de novembro)


Em todo o mundo os católicos celebram este domingo, 9 de novembro, a dedicação da catedral de Roma, S. João de Latrão, como se fosse a sua igreja, raiz de comunhão de um canto ao outro da Terra. Não celebramos, portanto, um templo de pedras, mas a grande casa de um Deus que para sua morada escolheu o vento livre, e fez do homem a sua casa, e da Terra inteira a sua igreja.

No Evangelho, Jesus com um chicote na mão. O Jesus que não esperas, o corajoso cujo falar é sim, sim, não, não. O mestre apaixonado que usa gestos e palavras com combativa ternura. Jesus nunca passivo, nunca desafeto, não se resigna às coisas como estão: Ele quer mudar a fé, e com a fé mudar o mundo. E fá-lo com gestos proféticos, não com uma boa vontade genérica.

Uma hora depois, provavelmente, os vendedores, recuperadas as pombas e as moedas, teriam reocupado os seus lugares. Tudo como antes, então? Não, o gesto de Jesus chegou até nós, profecia que sacode os vigilantes dos templos, e também a mim, do risco de tornar a fé num mercado.

Jesus persegue os vendedores porque a fé tornou-se dinheiro, Deus tornou-se objeto de compra e venda. Os astutos usam-no para ganharem, os piedosos e devotos para se perdoarem: eu dou-te oração, Tu, em troca, dás-me graças; eu dou-te sacrifícios, Tu dás-me salvação.

Persegue os animais das ofertas antecipando a revolução de fundo que trará com a cruz: Deus não nos pede mais sacrifícios, mas sacrifica-se a si próprio por nós. Não pretende nada, dá tudo.

Fora com os mercadores, então. A Igreja tornar-se-á bela e santa não ao acrescentar património e meios económicos, mas se cumprir as duas ações de Jesus no átrio do templo: expulsar os vendedores, deixar entrar os pobres.

Ele falava do templo do seu corpo. O templo do corpo..., templo de Deus somos nós, é a carne do homem. Tudo o resto é decorativo. Templo santo de Deus é o povo, diante do qual «devemos descalçar os sapatos», como Moisés diante da sarça ardente, «porque é terra santa», morada de Deus.

Dos nossos templos magnificentes não restará pedra sobre pedra, mas nós permaneceremos, casa de Deus para sempre. Há graça, presença de Deus em cada ser. Passamos, então, da graça dos muros à graça dos rostos, à santidade dos rostos.

Se pudéssemos começar a caminhar na vida, nas ruas da nossa cidade, dentro da nossa casa e, delicadamente, na vida dos outros, com veneração pela vida de Deus que neles habita, tirando os sapatos como Moisés diante da sarça, então entenderíamos que estamos a caminhar dentro de uma única, imensa catedral. Que todo o mundo é céu, céu de um só Deus.

 

Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 07.11.2014

 

 
Imagem Basílica de S. João de Latrão, Roma | Foto: Michal Osmenda
Fora com os mercadores, então. A Igreja tornar-se-á bela e santa não ao acrescentar património e meios económicos, mas se cumprir as duas ações de Jesus no átrio do templo: expulsar os vendedores, deixar entrar os pobres
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