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Família e testemunho: Nas cidades há muitos divertimentos, mas falta amor; saiamos das torres e voltemos aos espaços abertos

Imagem © SeanPavonePhoto/Fotolia

Família e testemunho: Nas cidades há muitos divertimentos, mas falta amor; saiamos das torres e voltemos aos espaços abertos

Neste último troço do nosso caminho de catequese sobre a família, abramos o olhar ao modo como ela vive a responsabilidade de comunicar a fé, de transmitir a fé, seja no seu interior, seja no exterior.

Num primeiro momento, podem vir-nos à ideia algumas expressões evangélicas que parecem contrapor os laços da família e o seguimento de Jesus. Por exemplo, aquelas palavras fortes que todos conhecemos e ouvimos: «Quem ama pai ou mãe mais que a mim, não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim; quem não toma a própria cruz e não me segue, não é digno de mim» (Mateus 10, 37-38).

Naturalmente, com isto Jesus não quer eliminar o quarto mandamento, que é o primeiro grande mandamento dirigido às pessoas. Os primeiros três estão em relação com Deus, este está em relação com as pessoas. E também não podemos pensar que o Senhor, depois de ter realizado o seu milagre para os esposos de Caná, depois de ter consagrado o laço conjugal entre o homem e a mulher, depois de ter restituído filhos e filhas à vida familiar, nos peça para sermos insensíveis a estes laços. Esta não é a explicação.

Ao contrário, quando Jesus afirma o primado da fé em Deus, não encontra uma comparação mais significativa que os aspetos familiares. E, por outro lado, estes mesmos laços familiares, no interior da experiência, da fé e do amor de Deus, são transformados, são "preenchidos" de um sentido maior e tornam-se capazes de ir para além de si próprios, para criar uma paternidade e uma maternidade mais amplas, e para acolher como irmãos e irmãs também aqueles que estão à margem de cada laço. Um dia, a quem lhe disse que do lado de fora estavam a sua mãe e os seus irmãos que o procuravam, Jesus responde, indicando os seus discípulos: «Eis a minha mãe e os meus irmãos! Porque quem faz a vontade de Deus, esse é para mim irmão, irmã e mãe» (Marcos 3, 34-35).

A sabedoria dos afetos que não se compram e não se vendem é o melhor dote do génio familiar. Precisamente na família aprendemos a crescer naquela atmosfera de sabedoria dos afetos. A sua "gramática" aprende-se aí; de outro modo, é muito difícil aprendê-la. E é precisamente esta a linguagem através da qual Deus se faz compreender por todos.

O convite a inserir os laços familiares no âmbito da obediência da fé e da aliança com o Senhor não os mortifica; pelo contrário, protege-os, desvincula-os do egoísmo, guarda-os da degradação, condu-los a salvo para a vida que não morre. A circulação de um estilo familiar nas relações humanas é uma bênção para os povos: traz de volta a esperança na Terra. Quando os afetos familiares se deixam converter ao testemunho do Evangelho, tornamo-nos capazes de coisas impensáveis, que fazem tocar com as mãos a obra de Deus, aquela obra que Deus realiza na história, como aquela que Jesus realizou para os homens, as mulheres, as crianças que encontrou.

Um só sorriso miraculosamente arrancado ao desespero de uma criança abandonada, que recomeça a viver, explica-nos o agir de Deus no mundo mais do que mil tratados teológicos. Um só homem e uma só mulher, capazes de arriscar e de se sacrificar por um filho de outros, e não só pelo próprio, explicam-nos coisas do amor que muitos cientistas já não compreendem. E onde há estes afetos familiares, nascem estes gestos do coração que são mais eloquentes do que as palavras. O gesto do amor... Isto faz pensar.

A família que responde ao chamamento de Jesus volta a entregar a direção do mundo à aliança do homem e da mulher com Deus. Pensai no desenvolvimento deste testemunho, hoje. Imaginemos que o leme da história (da sociedade, da economia, da política) é entregue - finalmente! - à aliança do homem e da mulher, para que o governe com o olhar voltado para a geração vindoura. As questões da Terra e da casa, da economia e do trabalho tocariam uma música muito diferente!

Se voltarmos a dar protagonismo - a partir da Igreja - à família que escuta a Palavra de Deus e a coloca em prática, tornar-nos-emos como o vinho bom das bodas de Caná, cresceremos como o fermento de Deus.

Com efeito, a aliança da família com Deus é chamada hoje a contrastar com a desertificação comunitária das cidades modernas. Mas as nossas cidades tornaram-se desertificadas por falta de amor, por falta de sorriso. Muitos divertimentos, muitas coisas para perder tempo, para fazer rir, mas falta o amor. O sorriso de uma família é capaz de vencer esta desertificação das nossas cidades. E esta é a vitória do amor da família. Nenhuma engenharia económica e política é capaz de substituir esta contribuição das famílias. O projeto de Babel edifica arranha-céus sem vida. O Espírito de Deus, por seu lado, faz florir os desertos. Devemos sair das torres e dos quartos blindados das elites para frequentar de novo as casas e os espaços abertos das multidões, abertas ao amor da família.

A comunhão dos carismas - os que são dados ao sacramento do Matrimónio e os que são concedidos à consagração pelo Reino de Deus - é destinada a transformar a Igreja num lugar plenamente familiar para o encontro com Deus. Avancemos por esta estrada, não percamos a esperança. Onde há uma família com amor, essa família é capaz de aquecer o coração de toda uma cidade com o seu testemunho de amor. Rezai por mim, rezemos uns pelos outros, para que nos tornemos capazes de reconhecer e sustentar a visita de Deus. O Espírito levará a uma feliz agitação nas famílias cristãs, e a cidade do homem sairá da depressão!

 

Papa Francisco
Vaticano, 2.9.2015
Publicado em 03.09.2015

 

 
Imagem © SeanPavonePhoto/Fotolia
Na família aprendemos a crescer naquela atmosfera de sabedoria dos afetos. A sua "gramática" aprende-se aí; de outro modo, é muito difícil aprendê-la. E é precisamente esta a linguagem através da qual Deus se faz compreender por todos
Um só sorriso miraculosamente arrancado ao desespero de uma criança abandonada, que recomeça a viver, explica-nos o agir de Deus no mundo mais do que mil tratados teológicos. Um só homem e uma só mulher, capazes de arriscar e de se sacrificar por um filho de outros, e não só pelo próprio, explicam-nos coisas do amor que muitos cientistas já não compreendem
As nossas cidades tornaram-se desertificadas por falta de amor, por falta de sorriso. Muitos divertimentos, muitas coisas para perder tempo, para fazer rir, mas falta o amor. O sorriso de uma família é capaz de vencer esta desertificação das nossas cidades
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