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Não usar o nome de mártir em vão

Imagem Martírio de Santo Estêvão (det.)

Não usar o nome de mártir em vão

Precisamente quando aumentam no mundo os cristãos que sofrem perseguições até à morte, há quem abuse da palavra "mártir", que no cristianismo é sinónimo de alegria de viver na fé, o exato oposto da cultura de morte semeada pelos kamikaze.

Jesus, o enviado de Deus a este mundo, «passou entre nós anunciando a boa notícia, o Evangelho, e fazendo o bem», mas também revelando várias vezes que havia uma necessidade divina e humana que devia cumprir-se na sua vida: a paixão - morte violenta infligida pelos poderosos deste mundo.

Porquê este fim? Porque num mundo injusto, o justo só pode ser rejeitado, perseguido, posto à morte - e esta é uma "necessidade humana -, mas também porque o justo, se realiza com perseverança a vontade de Deus e não cede à tentação do mal, acaba por ser destinatário da violência humana.

Segundo aquele anúncio aconteceu a morte de Jesus, que foi condenado antes de tudo pela legítima autoridade religiosa - os sacerdotes saduceus - e por isso declarado maldito, excomungado, e em consequência entregue ao poder totalitário romano para que sofresse uma morte ignominiosa, a morte na cruz. Por isso o Novo Testamento chama a Jesus "martys", a «testemunha» de Deus por excelência, fiel até à morte.

Em conformidade com Ele, mestre e Senhor, também os discípulos conheceram a paixão e a morte, a começar por Estêvão, como nos narram os Atos dos Apóstolos. O apóstolo Tiago de Zebedeu, morto à espada por Herodes no ano 44 d.C., o outro Tiago atirado do muro do tempo em 61 d.C., inauguram esse tempo da Igreja nascente marcado pelo martírio.

Discípulos de Jesus, crentes nele, homens e mulheres percecionados como pertencentes a uma seita, adeptos de uma superstição, considerados nocivos para a saúde da império romano por causa da sua pertença a Cristo, foram mandados para o suplício de diversas formas. As "Acta Martyrum" e as "Passiones", referindo-se às narrativas de martírio dos profetas e dos judeus crentes na época helenística - os macabeus -, transmitiram-nos o seu testemunho, os motivos por que a sua vida e a sua morte eram exemplares para os outros cristãos, estivessem estes em situação de perseguição ou de paz eclesial. Porque é que esta herança, esta memória se chegou a tornar celebração festiva nas liturgias cristãs e exemplo eminente na espiritualidade?

Porque os mártires foram homens e mulheres que mostraram ter uma razão para viver, tendo também uma razão pela qual valia a pena dar, consumar a vida. Viver o Evangelho de Jesus Cristo é para os mártires não só a sua "porção preciosa", mas o que dava sentido à sua existência em cada instante quotidiano.

O mártir cristão, com efeito, não projeta o martírio como desígnio humano, não procura a morte gloriosa para se dar uma importância e uma notoriedade nunca antes obtida, não aspira a um desejo de morte nem se encaminha para a morte com sentimentos contra quem quer que seja, inclusive o seu perseguidor. O mártir cristão é uma pessoa que ama a vida e ama viver, não despreza a Terra nem tudo o que a vida lhe pode dar, crê na vida eterna mas não aliena no além a vida presente, e por isso acolhe a perseguição e o martírio como uma prova de que quer ser libertado mas que aceita no seguimento do seu Senhor Jesus.

Este seu morrer é coerente com a vida vivida e o ato com que entrega a vida nunca é contra o outro, contra um inimigo, um malvado: é um gesto realizado a fim de que se interrompa a violência, surja a verdade e não reine a mentira, a fim de que o amor seja mais forte do que o ódio.

Nós, hoje, com razão, somos abalados diante de quem se diz mártir, ou é aclamado como tal pelas ideologias religiosas fundamentalistas, porque chega a matar-se a si próprio para matar os outros, muitas vezes anónimos e indefesos, declarados inimigos pela loucura de quem instrumentaliza Deus e a religião para objetivos de poder mundano.

A minha geração nasceu durante a perseguição de judeus, cristãos e outros homens e mulheres por parte do nazismo e do estalinismo, depois conheceu as perseguições dos cristãos na China, Vietname e Cambodja, até se tornar consciente de que o martírio dos cristãos tinha voltado a ser, depois de séculos, o selo mais eloquente posto sobre a sua fé e sobre a sua presença na história.

Cristãos mártires em quase todas as regiões da Terra, sobretudo onde são minoria humilde e mansa mas capaz de mostrar uma diferença, a "diferença cristã" que incute medo aos poderosos deste mundo. Assistimos até ao martírio de cristãos da parte de poderes políticos que se qualificavam como "cristãos", sobretudo na América Latina, e assistimos hoje à morte de comunidades cristãs inteiras no Médio Oriente por parte do fundamentalismo terrorista belicoso islâmico.

E nós aqui, no mundo ocidental, no mundo do bem-estar? Por agora não corremos qualquer perigo de perseguição, quando muito no aparece no horizonte um anticristianismo até agora desconhecido enquanto não simples ofensiva contra a Igreja: é uma ideologia que condena a mensagem de Jesus, não a católico-clerical. Todavia, por vezes registamos a patetice de quem, sentindo oposição, se proclama facilmente mártir. Porque quando há oposição, crítica, desconfiança, um cristão deve antes de tudo perguntar-se se tal acontece por causa do Evangelho que procura viver ou, em vez disso, por causa do seu comportamento não conforme ao Evangelho.

Não se deve servir da palavra "martírio" para se autoproclamar vítima ou para inventar um inimigo a combater. O martírio é o "caso sério"! Sobretudo hoje que este testemunho até ao sangue envolve cristãos de diversas confissões - católicos, ortodoxos, protestantes - deveremos ver no sangue derramado por estas testemunhas de Cristo uma comunhão que se está a construir e que abaterá as barreiras que nós construímos na história, dividindo e lacerando a túnica de Cristo.

O papa João Paulo II falou de «comunhão dos mártires», o papa Francisco continua a recordar o «ecumenismo do sangue» como profecia da comunhão para a qual nos quer conduzir o Senhor da Igreja. Quando hoje cantamos a litânia dos santos, exultamos de alegria na invocação de muitos contemporâneos nossos - alguns dos quais conhecidos, encontrados e amados -, que tendo dado a sua vida por Cristo são mártires junto aos antigos mártires da Igreja nascente, a Igreja indivisa.

 

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 08.09.2016

 

 
Imagem Martírio de Santo Estêvão (det.)
O mártir cristão não projeta o martírio como desígnio humano, não procura a morte gloriosa para se dar uma importância e uma notoriedade nunca antes obtida, não aspira a um desejo de morte nem se encaminha para a morte com sentimentos contra quem quer que seja, inclusive o seu perseguidor
Este seu morrer é coerente com a vida vivida e o ato com que entrega a vida nunca é contra o outro, contra um inimigo, um malvado: é um gesto realizado a fim de que se interrompa a violência, surja a verdade e não reine a mentira, a fim de que o amor seja mais forte do que o ódio
Assistimos até ao martírio de cristãos da parte de poderes políticos que se qualificavam como "cristãos", sobretudo na América Latina, e assistimos hoje à morte de comunidades cristãs inteiras no Médio Oriente por parte do fundamentalismo terrorista belicoso islâmico
Não se deve servir da palavra "martírio" para se autoproclamar vítima ou para inventar um inimigo a combater. O martírio é o "caso sério"! Sobretudo hoje que este testemunho até ao sangue envolve cristãos de diversas confissões - católicos, ortodoxos, protestantes - deveremos ver no sangue derramado por estas testemunhas de Cristo uma comunhão que se está a construir
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