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«Não ter medo que a vida possa acabar. Em vez disso, ter medo que nunca possa realmente começar»

Imagem © sebbfolk/Fotolia

«Não ter medo que a vida possa acabar. Em vez disso, ter medo que nunca possa realmente começar»

«Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens.
A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas.
Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: "Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei." O senhor disse-lhe: "Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor." Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: "Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei." O senhor disse-lhe: "Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor."
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: "Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence."
O senhor respondeu-lhe: "Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros." "Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes."» (Mateus 25, 14-30)

Esta parábola narra a história da confiança do Senhor em nós, em cada um de nós, confiança que se concretiza num dom que nos é pedido para fazer frutificar neste tempo de espera do regresso do Senhor.

Muitas vezes falamos apenas da nossa fé, da nossa confiança no Senhor, esquecendo que é em primeiro lugar o Senhor a fazer-nos confiança, a ter fé em nós. A nossa vida é precedida de um chamamento, é dom, mas o dom deve ser reconhecido, acolhido com gratidão e feito frutificar.

Na parábola de Mateus, o proprietário, antes de partir para uma longa viagem, deixa aos seus servos uma soma de dinheiro adequada à capacidade de cada um. Conhece bem os seus servos, conhece a possibilidade de cada um. A soma que deixa é despropositada: o talento equivalia a seis mil dracmas ou dinheiros, correspondente a seis mil dias de trabalho de um operário.

«Passado muito tempo», o proprietário regressa e pede contas aos seus servos de quanto lhes confiou. Esse muito tempo alude à experiência vivida pela comunidade cristã primitiva: o Senhor está a demorar (cf. Mateus 24, 48; 25, 5). A quem pergunta, com sarcasmo, «onde está a promessa da sua vida?», a segunda Carta de Pedro responde que o Senhor não demorar a cumprir a sua promessa, mas, se nos dá ainda um tempo de espera, é para que todos tenhamos a possibilidade de nos converter (cf. 2 Pd 3, 3-10). É-nos dado tempo para nos interrogarmos sobre o uso que fizemos dos dons do Senhor.

Os dois primeiros servos ouvem as mesmas palavras, o mesmo convite a tomarem parte da alegria do seu senhor. Quanto ao terceiro servo, o proprietário concorda com as suas palavras, reconhece que é exigente; mas deixa cair uma palavra: a que o define como duro. Nenhuma dureza: duro é o servo que não sabe reconhecer no talento um sinal de benevolência, mas projetou o seu temor e a sua angústia na imagem que fé do proprietário. Nunca assumiu a responsabilidade que lhe era confiada; teve medo de arriscar, de jogar a sua vida.

Escrevia John Henry Newman: «Não ter medo que a vida possa acabar. Em vez disso, ter medo que nunca possa realmente começar». A falta de confiança no proprietário impede o terceiro servo de acolher com responsabilidade o dom que lhe foi dado. Não fez frutificar o que recebeu, conservou-o tal e qual como propriedade do seu senhor. É dominado pelo medo e o seu medo traduz-se num legalismo estéril, infrutuoso.

Os servos louvados pelo proprietário sabem reconhecer o dom e assumem responsavelmente a sua partida; tornam-se sujeitos, fazem trabalhar o dom recebido; sabem receber e agora sabem responder à confiança recebida. Acreditaram na força, no poder do dom recebido mais do que na sua debilidade e fragilidade. Entram na alegria do seu proprietário; esta é a intenção do Senhor quando nos chama à vida, quando nos chama a segui-lo.

Mateus está a falar à sua comunidade, que adormeceu, que já não sabe vigiar e arrisca, como todos nós, de não esperar mais nada, ou de esquecer e frustrar os dons recebidos, deixando-se paralisar pelo medo. O tempo do Advento quer renovar a nossa espera do Senhor, uma espera vigilante e operativa para responder com reconhecimento e fidelidade aos dons que recebemos.

 

Ir. Lisa
In Monastero di Bose
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 13.12.2015

 

 
Imagem © sebbfolk/Fotolia
Muitas vezes falamos apenas da nossa fé, da nossa confiança no Senhor, esquecendo que é em primeiro lugar o Senhor a fazer-nos confiança, a ter fé em nós. A nossa vida é precedida de um chamamento, é dom, mas o dom deve ser reconhecido, acolhido com gratidão e feito frutificar
Mateus está a falar à sua comunidade, que adormeceu, que já não sabe vigiar e arrisca, como todos nós, de não esperar mais nada, ou de esquecer e frustrar os dons recebidos, deixando-se paralisar pelo medo. O tempo do Advento quer renovar a nossa espera do Senhor, uma espera vigilante e operativa
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